M de Medo: como enfrentar as inseguranças do cotidiano e transformá-las em aprendizado

 

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Oito anos atrás, protagonizei uma série de vídeos curtos, cujo título era M de Martha, com um tema por episódio: M de Madrugada (insônia), M de Matinê (cinema), M de McCartney & Mick Jagger (rock), M de Malbec (vinhos), M de Matinal, de Muitas, de Mapa Astral e mais uma variedade de palavras que puxavam algum assunto que me interessava. A série terminou na segunda temporada, mas a minha lista de “emes” era infinita, daria para três anos de produção. O que me espanta é que nunca pensei em gravar “M de Medo”. Eu simplesmente não sentia medo.

Minha vida deu um giro de 360 graus e hoje me encontro aqui, de frente para ele, com o braço estendido, como manda a educação: medo, muito prazer. Finalmente, fomos apresentados.

Tudo começou naquele malfadado 2024, quando, às vésperas de uma enchente que foi devastadora para a cidade onde moro, me afoguei em perdas emocionais particulares, três na mesma semana. Baixou do céu um espelho gigante que se posicionou diante dos meus olhos, a fim de que eu visse, todos os dias, não o meu rosto, mas o rosto de um futuro possível: decadência, fragilidade, solidão. Eu não sabia, mas era um reflexo que fazia parte do “M de Muitas”, só que não constava das minhas previsões do “M de Mapa Astral”. De um dia para o outro, minha rotina mudou, minha liberdade foi reduzida e o tempo deixou de ser tão camarada.

Hoje o medo me dá bom dia assim que abro os olhos. Valente, eu o chamo para se exercitar comigo (ele detesta), levo o medo para a terapia (vai na marra), faço ele se sentar ao meu lado para ler um livro (ele tenta me desconcentrar) e, às vezes, até proponho uma DR (ele entra em pânico). Quebramos o pau. Ainda assim, ele não me deixa.

O cardápio tem sido vasto. Ando com medo de fazer más escolhas, de que minhas boas intenções já não sejam suficientes. E de que o saldo no banco também não seja suficiente, a despeito da economia feita em décadas de trabalho — aliás, tenho medo de bancos. Tenho medo de ficar doente. Medo de perder o gosto por aventuras. Antes, não me preocupava com nada disso. Tenho medo de não conseguir ser útil às minhas filhas adultas, eu que era tão relax quando elas eram crianças. Tenho medo do lado fraudulento da Inteligência Artificial. Medo deste mundo que resolveu dar moral para o autoritarismo — aliás, por medo também: há pessoas que preferem ser subservientes aos donos do poder em vez de defenderem mudanças inclusivas. Tenho muito medo de gente covarde.

Alguém postou no Instagram uma frase que me consola: desperdiçamos a vida nos preocupando com coisas que nunca aconteceram. Verdade. O problema é que tenho um medinho do Instagram também. De tanto ele promover ilusões, passamos a ter medo do que é real.