Lula visita centro industrial da Marinha e diz que vai

Lula visita centro industrial da Marinha e diz que vai 'arrumar recursos' para terminar submarino nuclear: 'É importante para nossa soberania'

Fonte: Bandeira da fonte

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira que o governo vai buscar recursos para concluir o primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
Durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó (SP), o petista criticou a falta de continuidade no financiamento de projetos estratégicos das Forças Armadas e defendeu que o empreendimento receba um tratamento diferenciado no Orçamento da União.
— Nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine de uma vez por todas esse submarino — afirmou Lula.
— Um submarino é importante para o Brasil, para a nossa soberania, para o nosso desenvolvimento tecnológico e para gerar emprego.
O presidente acompanhou o início da montagem da seção nuclear do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), etapa do Programa Nuclear da Marinha.
A tecnologia desenvolvida no complexo será usada no futuro submarino com propulsão nuclear brasileiro.
Lula atribuiu parte da demora na execução de projetos desse porte às oscilações de recursos disponíveis a cada ano.
Segundo ele, a dependência do Orçamento da União, sujeito a bloqueios e contingenciamentos, dificulta a definição de um cronograma de longo prazo.

— Na hora que a gente fica dependendo do Orçamento da União, o orçamento às vezes tem que ser contingenciado.
Muitas vezes você um ano tem dois, no outro tem um e em outro não tem nada.
Ou seja, isso não permite que tenha uma sequência de continuidade para que a gente possa dizer: "vamos concluir o projeto daqui a tanto tempo" — disse.
O presidente disse que encontrou novamente, ao retornar ao local, problemas provocados pela descontinuidade dos recursos e pontuou que a dificuldade não se restringe à Marinha, mencionando projetos de outras Forças que também enfrentaram obstáculos para avançar.
Ao defender a conclusão do submarino, Lula argumentou que projetos considerados estratégicos para o país precisam ter uma forma de financiamento que garanta previsibilidade e não concorram, a cada ano, nas mesmas condições com outras despesas públicas.
— Quando nós vamos discutir o orçamento, possivelmente um submarino nuclear não entra na agenda de disputa com prioridade (como saúde, educação etc).
Tem outras coisas na prioridade do povo brasileiro.
Isso tem que ser tratado como uma coisa especial — disse.

Lula também associou o projeto à capacidade do país de desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos e afirmou que o Brasil precisa transformar a importância atribuída à área em recursos efetivos no Orçamento.

— A gente não tem soberania nacional porque a gente faz discurso, o discurso é só palavra e o adversário às vezes nem escuta.
A gente tem que estar preparado para eles saberem que a gente vai ter força para poder dizer não, dizer que vamos competir — declarou.
Lula destacou ainda que a conclusão do programa colocará o Brasil em um grupo restrito de países que dominam a tecnologia de submarinos com propulsão nuclear.
Ele relacionou o desenvolvimento do projeto à formação e à permanência de engenheiros e pesquisadores no país, afirmando que a falta de continuidade pode levar profissionais qualificados a buscar oportunidades no exterior.
A defesa de recursos para o submarino nuclear faz parte de um discurso que Lula vem reforçando nos últimos meses pela ampliação dos investimentos em defesa.
O presidente tem argumentado que o cenário de conflitos internacionais exige que o Brasil fortaleça as Forças Armadas e reduza a dependência externa em áreas consideradas estratégicas.
O discurso ganhou força após a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, em janeiro, que terminou com a captura de Nicolás Maduro.
O episódio aumentou dentro do governo a discussão sobre a capacidade brasileira de proteger o território e deu novo impulso à pressão das Forças Armadas por investimentos de longo prazo e, principalmente, maior previsibilidade orçamentária.
Programa de Desenvolvimento de Submarinos
O submarino citado por Lula é a principal etapa do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), criado em 2008, ainda durante seu segundo mandato, a partir de uma parceria entre Brasil e França.
O programa prevê quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo, além do primeiro submarino brasileiro convencionalmente armado com propulsão nuclear, batizado de Álvaro Alberto.

O projeto já atravessou diferentes governos e sofreu sucessivas mudanças de cronograma.
Ao fim de 2025, segundo relatório da própria Marinha, o projeto e a construção do submarino nuclear haviam atingido 9,24% de execução física.
O documento atribui o atraso, entre outros fatores, às restrições orçamentárias, além da complexidade e do ineditismo tecnológico do empreendimento.
A falta de recursos, mencionada por Lula em seu discurso, já vinha sendo apontada como um risco para o cronograma.
Em março, a Marinha informou que buscava cerca de R$ 1 bilhão adicional para manter o ritmo do programa e evitar a paralisação de etapas do projeto.
O cronograma citado pela Força previa a conclusão do Álvaro Alberto por volta de 2037.

Queda nos investimentos
O discurso de Lula por mais recursos para a área, no entanto, contrasta com a trajetória dos investimentos no atual governo.
Dados do Siga Brasil levantados pelo GLOBO mostram que, entre 2023 e 2026, foram reservados R$ 40,7 bilhões para investimentos no Exército, na Marinha e na Aeronáutica, valor 11% inferior aos R$ 45,7 bilhões registrados durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022.
Ao lançar sua candidatura à reeleição, Lula incluiu a Defesa entre as áreas que pretende priorizar em um eventual quarto mandato e fez um apelo à própria esquerda para que supere resistências à ampliação dos recursos destinados às Forças Armadas.
“Nós precisamos investir na defesa”, afirmou, ao mencionar a extensão das fronteiras terrestres e marítimas e as riquezas naturais do país.
Nos últimos meses, Lula também passou a associar com mais frequência a necessidade de reforçar a área ao cenário de tensões internacionais.
Na convenção do PT, disse querer o Brasil preparado para evitar que outro país “ouse” agir contra o território nacional e defendeu investimentos na indústria de defesa.
A fala ocorreu em meio ao aumento dos atritos com os Estados Unidos e a uma sequência de agendas do presidente ligadas ao setor, entre elas uma visita à Avibras, fabricante brasileira de equipamentos militares, em julho.