Lula vai à Casa Branca pela quinta vez, mas com cenário adverso inédito; relembre histórico
Recordista de idas à Casa Branca entre presidentes brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrará pela quinta vez na sede do governo dos Estados Unidos, a maior economia do mundo. Nas outras ocasiões, contudo, o petista vivia cenários mais favoráveis tanto na política interna quanto na relação bilateral. Agora, ele tenta usar o encontro com Donald Trump como forma de retomar o bom momento vivido no ano passado, quando ganhou popularidade na esteira da reação ao tarifaço americano.
Republicanos: 'Química' também ajudou Lula a se aproximar de Bush
Nos primeiros mandatos, o brasileiro foi recebido quatro vezes em Washington. Três delas se deram com o republicano George Bush, sendo duas para reuniões bilaterais e uma para evento com outros chefes de Estado. Depois, também se sentou ao lado do democrata Barack Obama, que o chamou de “o cara”.
A reunião de trabalho com Trump ocorrerá nesta quinta-feira. Na pauta, estão previstos temas como segurança pública, o Pix e minerais críticos, além de tensões internacionais.
A viagem a Washington se dá num contexto desfavorável a Lula na política interna. Na semana passada, o Senado rejeitou pela primeira vez em mais de um século o indicado do presidente para o Supremo Tribunal Federal (STF), Jorge Messias. Pesquisas eleitorais e de avaliação de governo também têm registrado resultados negativos para o petista.
— A relação bilateral com os Estados Unidos obviamente tem um grande impacto no cenário interno. Então é impossível analisar essa reunião de hoje fora do contexto eleitoral — avalia Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV.
Nas outras vezes em que foi à capital americana, Lula vivia conjunturas simpáticas. Tudo começou antes mesmo da posse para o primeiro mandato, iniciado em 2003. Em dezembro do ano anterior, vitorioso nas urnas, o PT atuou em parceria com emissários do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) a fim de fazer com que o presidente eleito fosse recebido por Bush.
Bem-sucedido, o movimento não só resultou na visita de Lula à Casa Branca, como serviu para criar uma inesperada boa relação entre o conservador de trajetória política construída no Texas e o ex-metalúrgico que ainda era visto nos EUA como um esquerdista radical. O republicano chegou a dizer a interlocutores que “realmente gostava” do brasileiro, segundo o autor Matias Spektor no livro “18 dias”.
'O CARA' - O então presidente dos EUA Barack Obama afirmar que Lula é o 'político mais popular do mundo', durante reunião do G20, em Londres
Jonathan Ernst/REUTERS
Poucos meses depois, já empossado, o petista voltou à capital americana para se reunir com Bush. Ainda naquele mandato, entraria outra vez na residência oficial do presidente daquele país, mas para um evento com outros chefes de Estado. A quarta vez seria no segundo mandato, em 2009, recebido por Barack Obama, quando tinha cerca de 80% de aprovação no Brasil.
Fernando Henrique, por sua vez, foi duas vezes à Casa Branca — uma com Bill Clinton e outra com George Bush. Dilma Rousseff também entrou duas vezes no palácio, ambas tendo Obama como anfitrião. Fernando Collor, recebido por George H. W. Bush, e Jair Bolsonaro, por Trump, tiveram uma visita cada.
Impacto interno
A conversa de hoje, aponta Oliver Stuenkel, serve não apenas para a necessária estabilização da relação comercial e para tratar temas ligados ao combate ao crime organizado, mas também como forma de minar uma eventual interferência americana nas eleições brasileiras.
— Do ponto de vista eleitoral, se Lula tiver uma reunião produtiva, pode demonstrar que é uma pessoa muito experiente no âmbito externo e que consegue lidar com todo tipo de líder, mesmo que de orientação diferente — diz. — E também serve para tentar reduzir o risco de uma interferência americana nas eleições. Se olharmos o que Trump fez na Argentina e em Honduras, seria algo até esperado. Mas, se tiver uma boa relação com Lula, é possível que o risco seja menor.
