Lula usa novo atrito com EUA para retomar discurso de soberania, faz gesto à PF e endossa retórica de 'guerra contra o crime'

 

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem usado o mais novo atrito entre Brasil e Estados Unidos, a retirada de um delegado da Polícia Federal dos EUA a pedido do governo Donald Trump, para retomar o discurso de soberania nacional e defesa da pátria.

Com dificuldade de ampliar a percepção na população sobre o que avalia como pontos positivos da própria gestão e em meio ao acirramento da disputa presidencial com Flavio Bolsonaro (PL), Lula pegou carona na divergência com a Casa Branca.

O chefe do Executivo usou o princípio da reciprocidade, com a determinação da perda de credenciais de um oficial americano que atuava da PF em Brasília, e aproveitou para fazer um gesto à corporação, chamando mil aprovados no concurso público.

Assim, Lula combina o discurso de soberania com o endurecimento das falas sobre segurança pública, estratégia de campanha para conquistar o eleitor indeciso que flerta com a possibilidade de votar no filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em menos de 24 horas, Lula citou duas vezes que está enfrentando o crime organizado. Na primeira, no vídeo publicado nas redes sociais na quarta-feira, em que anuncia a convocação de 630 agentes, 160 escrivães, 120 delegados, 69 peritos e 21 papiloscopistas para PF, afirma que o "assumiu um compromisso de fazer uma guerra contra o crime organizado". Nesta quinta-feira, na abertura Feira Brasil na Mesa em Planaltina (DF), voltou a tratar do tema e afirmou que quer mais policiais federais para "prender bandido".

— Assinei decreto dando mais mil vagas na PF, chamando as pessoas que prestaram concurso. Pela primeira vez na história, a PF vai conseguir ocupar todos os cargos que tem. Nós vamos derrotar o crime organizado e precisamos de todos delegados e todos os agentes trabalhando para prender bandido nesse país — disse Lula.

Foi na toada da defesa da soberania que que Lula alcançou os melhores índices de popularidade em 2025, em resposta aos tarifaço de 50% imposto pelos EUA sobre a importação de produtos brasileiros. Na época, de acordo com a Quaest, a aprovação subiu de 40% para 43%, enquanto a desaprovação caiu de 57% para 53%, entre junho e julho de 2025.

Naquele período, Lula também se beneficiou das derrapadas dadas pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que endossava as sanções americanas contra o Brasil. Agora, no entanto, Flavio Bolsonaro tem evitado tratar do tema.

Ao anunciar as contratações para a Polícia Federal, Lula elogiou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e endossou a reciprocidade diplomática aos EUA, no tom de "toma lá, dá cá":

— Parabéns pela sua posição em relação ao delegado americano, colocando a reciprocidade, ou seja, o que eles fizeram conosco, a gente vai fazer com eles. Esperando que eles estejam dispostos a voltar a conversar e as coisas voltar a normalidade — disse Lula.

Apesar reforçar o discurso de soberania, o presidente não deve pesar a mão nas críticas a Donald Trump. O governo brasileiro segue trabalhando na possiblidade de um encontro entre Lula e Trump na Casa Branca e não pretende estressar a relação com Washington a ponto de inviabilizar a ida do petista aos EUA. Na quinta-feira, Lula falou que quer levar jabuticaba e maracujá para Trump "se acalmar".

Na quarta-feira, Rodrigues, anunciou a retirada das credenciais diplomáticas de um servidor dos Estados Unidos que atua no Brasil. O oficial era um policial americano que trabalhava dentro de uma unidade da PF em Brasília. A partir de agora, o agente deixa de ter acesso à unidade e a bases de dados usadas para as cooperações entre as polícias do Brasil e dos Estados Unidos. O chefe da PF afirmou que esse procedimento foi mesmo que aconteceu com o delegado brasileiro que atuava em Miami.

A medida ocorreu após o governo Donald Trump pedir a retirada dos Estados Unidos do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, envolvido na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) em território americano.