O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concentrou a maior parte do engajamento político nas redes sociais durante e após o debate com o senador Flávio Bolsonaro (PL), realizado no domingo (18) pela TV Band. Levantamento da consultoria Ágora Public Affairs identificou 38,7 milhões de interações em publicações favoráveis ao governo, ante 15,9 milhões em conteúdos favoráveis à oposição, no período entre as 19h de domingo e o meio-dia de segunda-feira (19). Leia mais: A análise identificou 632 publicações favoráveis ao governo ou críticas a Flávio e 253 favoráveis à oposição ou críticas a Lula. Em um recorte voltado aos principais assuntos do debate, 71% do engajamento político favoreceu o presidente, enquanto 29% favoreceu o senador. Na conversa geral sobre o confronto, a vantagem de Lula foi menor: 61% das interações de conteúdo político favoreceram o governo. O levantamento reuniu publicações de plataformas como X, Instagram, Facebook, YouTube, Bluesky, Reddit e Pinterest, além de conteúdos da imprensa digital e de órgãos oficiais. A análise das publicações de maior engajamento não incluiu comentários feitos por usuários nesses conteúdos. Pesquisas após debate entre Lula e Flávio saem nesta semana; veja as datas Além da movimentação espontânea de usuários, a repercussão nas redes também é influenciada por mobilizações organizadas em canais de apoiadores dos candidatos. O “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG), reúne cerca de 5,5 milhões de integrantes, enquanto a “Tropa do Flávio”, ligada à campanha do senador, tem aproximadamente 2 milhões. Os grupos convocam seguidores a compartilhar publicações, divulgar hashtags e reproduzir termos específicos em massa. Nesse sentido, a mobilização também chegou às buscas na internet durante o debate. Conforme mostrou o Valor, a “Tropa do Flávio” orientou seus integrantes a pesquisar termos relacionados ao presidente às 21h45, enquanto o “Exército do Lula” convocou buscas às 22h10, com expressões ligadas ao senador.
A atuação dos grupos levanta dúvidas sobre quanto os picos registrados pelo Google Trends refletem o interesse espontâneo dos usuários e quanto podem ser impulsionados por campanhas coordenadas. O Google afirma que filtra a maior parte das atividades irregulares, mas reconhece que algumas pesquisas automatizadas ou associadas a tentativas de manipulação podem aparecer nos dados. O Trends não é uma pesquisa de opinião e não representa diretamente o volume total de buscas.
Corrupção, sigilos e licença-maternidade As cobranças de Lula sobre corrupção, patrimônio e relações de Flávio com suspeitas de envolvimento de agentes públicos tiveram destaque entre os conteúdos de maior repercussão. Segundo a Ágora, as cinco principais cobranças do presidente ao adversário somaram 18 milhões de interações, mais que o dobro das cinco cobranças feitas pelo senador, que reuniram 8 milhões. Três das cinco cobranças de Flávio tiveram repercussão predominantemente desfavorável a ele. A publicação de maior alcance entre as cobranças de Lula foi a que desafiou Flávio a abrir seus sigilos bancário e telefônico, com 9,62 milhões de interações. A cobrança sobre licença-maternidade, acompanhada da pergunta “o que você tem contra as mulheres?”, somou 3,22 milhões, com 86% do engajamento político favorecendo o presidente. Já a declaração “de miliciano eu quero distância” teve 2,97 milhões de interações. Também repercutiu a discussão sobre o caso Ana Clara, mencionado por Lula ao questionar a atuação de Flávio como advogado de um policial militar acusado pela morte da menina. A publicação sobre o tema reuniu 1,1 milhão de interações. O fim da jornada de trabalho 6x1 foi outro assunto explorado pelo presidente, com 980 mil interações. Questionamentos de Lula a Flávio repercutiram mais nas redes do que os feitos pelo senador ao presidente, segundo levantamento da Ágora Public Affairs Reprodução / Consultoria Ágora Public Affairs Do lado de Flávio, a cobrança sobre o voto de presos — “por que 73% votaram em você?” — alcançou 3,37 milhões de interações, mas apenas 31% do engajamento político favoreceu o senador. Já a troca sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e a empresária e lobista Roberta Luchsinger somou 1,88 milhão de interações. Durante o debate, Flávio questionou a relação entre os dois e perguntou a Lula se conhecia Roberta. Ambos são citados em apurações sobre suspeitas de irregularidades em negócios com órgãos federais. Lulinha e Roberta são alvos de inquéritos da Polícia Federal (PF) que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). As investigações apuram suspeitas, e a existência de inquéritos não representa condenação dos envolvidos. Perfis amplificam disputa A repercussão não ficou restrita às falas dos candidatos durante o confronto. Um vídeo publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que chamou os ministros Fernando Haddad e Simone Tebet de “desempregados”, somou 3,4 milhões de interações no Instagram e foi o conteúdo individual de maior engajamento identificado no levantamento. Outro vídeo, com uma oração durante a chegada ao debate, alcançou 2 milhões de interações. Nas contas oficiais dos candidatos, Lula publicou 16 conteúdos sobre o debate no Instagram, que somaram 20,9 milhões de curtidas e comentários, média de aproximadamente 1,3 milhão por publicação. Flávio publicou quatro conteúdos na plataforma, com média de 682 mil interações. No X, o presidente publicou 27 mensagens relacionadas ao confronto, ante seis do senador. Lula liderou o engajamento nas redes em quase todos os temas, exceto segurança pública, aponta o levantamento da Ágora Public Affairs Reprodução / Consultoria Ágora Public Affairs Master e Vorcaro A consultoria também analisou a repercussão do caso Master, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O nome dele apareceu associado a Lula em 423 mil menções e a Flávio em 306 mil. Entre as interações políticas em publicações que relacionavam Vorcaro ao senador, 90% favoreceram o governo, segundo o levantamento, após a divulgação de que a PF havia solicitado ao Supremo Tribunal Federal a abertura de nova investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. O estudo separou a conversa geral sobre o debate da análise de assuntos específicos. No primeiro recorte, foram contabilizadas 2,7 milhões de menções e 54 milhões de interações ao longo de 17 horas, com pico de 748 mil menções entre 21h e 22h. Já o recorte temático identificou 5,7 milhões de menções relacionadas aos principais assuntos e comparou o engajamento político favorável a cada lado. Os indicadores correspondem a universos de análise diferentes e não devem ser somados. Levantamento da Ágora Public Affairs mostra como foi a repercussão do Caso Master nas redes após as citações no debate da TV Band Reprodução / Consultoria Ágora Public Affairs Na avaliação do especialista em Dados e Analytics da Ágora Public Affairs, Leonardo Milano, Lula levou a discussão para temas em que tinha condições de pressionar o adversário. “Lula ganhou a noite no terreno que Flávio escolheu para o confronto, o da corrupção, ao converter as acusações recebidas em cobranças sobre milícia, patrimônio e sigilo bancário”, afirmou. O levantamento também identificou diferenças entre o desempenho dos candidatos ao vivo e a repercussão posterior dos trechos compartilhados nas plataformas digitais. Para Thomaz D’Addio, diretor de Public Affairs da Ágora, Flávio teve desempenho melhor durante o debate, mas os recortes e a conversa nas redes foram mais favoráveis a Lula. “Nas redes, quem define o tema não é quem o introduz, é quem produz o corte que a base replica”, disse.
Valor