Um dos primeiros nomes a ganhar força para o Ministério da Fazenda após a reeleição de Lula, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, ficou de fora da reunião convocada pelo presidente com integrantes do governo e economistas para discutir os rumos da política econômica do quarto mandato.
O encontro ocorreu no Palácio da Alvorada nesta quinta-feira e contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin, do ministro da Fazenda, Dario Durigan, e do ex-ministro Fernando Haddad. Essa foi a primeira conversa ampliada para tratar de economia chamada por Lula desde sua reeleição.
Interlocutores do presidente afirmam que a ausência de Fonteles foi uma forma de evitar especulações sobre uma eventual indicação para a Fazenda, ao mesmo tempo em que Lula fez um gesto ao atual titular da pasta, buscando prestigiar seu trabalho e o do vice. Sucessor de Haddad no ministério, Durigan segue no páreo para permanecer no cargo e, nesta semana, recebeu aval do presidente para afirmar que o governo trabalha com um "ajuste gradual" nas contas públicas.
No final da reunião, ficou definido que apenas Durigan falaria oficialmente sobre o encontro. Sua continuidade na Fazenda representaria a força de Haddad no quarto mandato e a manutenção da política econômica iniciada por seu antecessor.
Na avaliação de auxiliares de Lula, a presença de Fonteles na reunião poderia enfraquecer Durigan justamente em um momento em que o governo discute medidas fiscais a serem implementadas ainda este ano. Além disso, a participação do governador poderia transmitir a impressão de que o presidente já tomou uma decisão sobre o comando da Fazenda, embora a escolha ainda esteja em aberto.
Pessoas próximas a Lula afirmam que o presidente está em uma fase de escuta e não pretende dar pistas sobre o futuro ministro antes do fim de novembro. O encontro desta quinta-feira marcou a primeira rodada de conversas mais amplas de Lula sobre temas econômicos.
Até então, o petista vinha privilegiando reuniões com um núcleo restrito de interlocutores. Também participaram os ministros Bruno Moretti (Planejamento), Miriam Belchior e Esther Dweck (Gestão), além do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, do secretário-executivo do Ministério do Planejamento, Guilherme Melo, e do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.
O grupo contou ainda com os economistas Laura Carvalho e Eduardo Moreira, identificados com uma visão mais progressista da economia. A presença de Geraldo Alckmin na reunião também foi interpretada como um possível sinal de que Fonteles perdeu espaço na disputa pelo comando da Fazenda.
O vice-presidente é outro nome que aparece na bolsa de apostas para o cargo. Nos últimos dias, ele recebeu representantes do mercado financeiro, do agronegócio, empresários e se reuniu com o economista Felipe Salto.
Interlocutores de Alckmin, no entanto, afirmam que o vice sempre manteve interlocução com esses setores em razão da natureza do cargo e do ministério que comandou até abril, o de Indústria e Comércio. Segundo aliados, também faz parte de seu método registrar sugestões de diferentes atores recebidos na vice-presidência.
Eles ressaltam ainda que Alckmin tem sido convocado por Lula para participar de reuniões sobre diferentes assuntos, não apenas econômicos, como os preparativos para a COP na Turquia. Fonteles se aproximou de Lula durante o segundo turno da campanha presidencial e conquistou a confiança do presidente ao sugerir mudanças em sua postura na busca por votos.
Entre as recomendações estavam o uso mais frequente das redes sociais e a publicação de selfies. Reeleito com 70% dos votos no Piauí, o governador, de 41 anos, é visto como um quadro técnico do PT, com futuro político promissor e boa aceitação no mercado financeiro.
A possibilidade de Fonteles assumir a Fazenda, no entanto, passou a ser questionada por petistas diante do potencial impacto político de sua saída do governo do Piauí. Considerado um reduto petista, o estado não elegeu nenhum deputado federal do PL e tampouco reelegeu Ciro Nogueira, presidente do PP, para o Senado.
A avaliação de aliados é que a saída antecipada do governador poderia abrir um vácuo político no estado, criando espaço para a articulação da direita. Petistas também apontam riscos para a trajetória política de Fonteles caso ele assuma agora uma pasta com elevado potencial de desgaste e diante de um cenário em que PT precisará apostar em renovação dos seus quadros nacionais.
Uma das possibilidades aventadas é que o governador deixe o comando do Piauí para assumir a Fazenda mais adiante, na metade de seu mandato. Lula, no entanto, ainda não tem discutido posições no governo com futuros auxiliares.
O Globo