Reeleito com 64,2 milhões de votos, presidente conquistou seu quarto mandato após reverter a derrota no primeiro turno. A mobilização nas ruas e nas redes marcou a campanha, enquanto a nova gestão terá de enfrentar os gargalos do transporte e do investimento público
O Brasil assistiu a uma virada histórica neste domingo, 25. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, derrotando Flávio Bolsonaro, que recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
A diferença final foi de 4,43 milhões de votos. O resultado consagrou Lula como o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para a Presidência pelo voto direto.
Também marcou uma virada inédita nas disputas presidenciais de segundo turno desde a redemocratização. No primeiro turno, Lula havia recebido 53,8 milhões de votos, contra 56,1 milhões de Flávio Bolsonaro.
Três semanas depois, o presidente somou quase 10,4 milhões de votos adicionais, enquanto o adversário cresceu aproximadamente 3,7 milhões. Foi uma mudança expressiva no comportamento do eleitorado.
Janones e o Exército do Lula: uma mobilização de 10 milhões de pessoas Um dos personagens mais visíveis da comunicação digital do segundo turno foi o deputado federal André Janones (Rede-MG).
À frente do canal Exército do Lula, no WhatsApp, Janones coordenou uma rede de distribuição de conteúdos e mobilização de apoiadores que cresceu rapidamente durante a campanha. Em 23 de outubro, dois dias antes da votação, o canal alcançou a marca de 10 milhões de seguidores.
O número chama atenção por sua proximidade com os 10,4 milhões de votos adicionais conquistados por Lula entre os dois turnos. A coincidência é expressiva, mas não significa que os seguidores do canal correspondam aos novos eleitores do presidente.
Não há levantamento que permita estabelecer essa relação direta. O que se pode afirmar é que a campanha passou a contar com um canal de comunicação de alcance extraordinário, capaz de distribuir mensagens e convocar apoiadores sem depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação.
Janones apostou em uma linguagem direta, transmissões ao vivo e tarefas de mobilização digital. O canal chegou a ser suspenso temporariamente por determinação da Justiça Eleitoral, presidida pelo ministro bolsonarista Kássio Nunes Marques, em meio a uma guerra jurídica patrocinada pela candidatura derrotada de Flávio Bolsonaro (PL).
As ruas e a participação popular A campanha não aconteceu apenas nas telas dos celulares.
No segundo turno, manifestações em apoio à reeleição de Lula reuniram estudantes, trabalhadores, artistas e movimentos sociais em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Os atos demonstraram a disposição de setores organizados da sociedade de participar diretamente da disputa eleitoral.
A participação nas urnas também cresceu. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo.
O aumento do comparecimento não pode ser atribuído exclusivamente a uma candidatura ou a um grupo etário. Mas mostra que mais brasileiros decidiram participar da votação.
Ao mesmo tempo, o crescimento da votação de Lula foi significativamente superior ao registrado por Flávio Bolsonaro. A eleição terminou com a vitória do presidente, mas também deixou evidente a dimensão da divisão política do país.
O quarto mandato e a necessidade de investir A reeleição abre uma discussão sobre os rumos da política econômica.
Durante o terceiro mandato, o governo Lula preservou programas sociais e buscou combinar investimentos com as metas estabelecidas pelo arcabouço fiscal. Essa combinação, porém, continuou sendo alvo de críticas de economistas e setores sociais que consideram os limites fiscais excessivamente restritivos para as necessidades de desenvolvimento do Brasil.
O quarto mandato terá de enfrentar esse debate. Ampliar os investimentos em infraestrutura, saúde, educação, habitação e indústria exige recursos, planejamento e capacidade de execução.
Também exige discutir o papel das regras fiscais: como garantir sustentabilidade das contas públicas sem impedir investimentos capazes de elevar a produtividade e melhorar os serviços oferecidos à população? O debate não se resume a gastar mais ou menos.
Envolve a qualidade do investimento, suas fontes de financiamento e seus efeitos sobre o emprego e o crescimento. Mobilidade precisa entrar no centro do projeto nacional
Entre os desafios mais urgentes está a mobilidade. Milhões de brasileiros perdem horas todos os dias em ônibus lotados, congestionamentos e deslocamentos caros.
O problema afeta diretamente a renda, a produtividade e a qualidade de vida. Uma agenda nacional de mobilidade poderia combinar investimentos em transporte coletivo urbano, modernização ferroviária e expansão de sistemas de alta capacidade.
A tarifa zero merece lugar nesse debate. A gratuidade no transporte coletivo pode reduzir as despesas das famílias e ampliar o acesso ao trabalho, à educação e aos serviços públicos.
Mas sua implementação nacional exige financiamento permanente, ampliação da oferta e contratos que garantam qualidade. O Brasil também precisa discutir seriamente a modernização de sua malha ferroviária e a viabilidade de trens de alta velocidade nos corredores onde a demanda, os custos e os benefícios justifiquem esse tipo de investimento.
Projetos ferroviários de grande porte dependem de estudos técnicos, recursos elevados e prazos longos de execução. Por isso, precisam integrar uma estratégia mais ampla, que também contemple metrôs, trens metropolitanos, corredores de ônibus e integração entre diferentes modalidades.
O objetivo deve ser simples: reduzir o tempo e o custo que os brasileiros gastam para circular. Da virada eleitoral aos desafios de governar
A eleição de 2026 ficará marcada pela recuperação de Lula entre os dois turnos, pelo crescimento da mobilização digital e pelo comparecimento maior dos eleitores na votação decisiva. Mas os resultados das urnas não resolvem, por si só, os problemas econômicos e sociais do país.
O quarto governo terá de enfrentar as cobranças por serviços públicos melhores, transporte acessível, emprego, renda e crescimento econômico. Também precisará administrar uma sociedade politicamente dividida e um Congresso (mais reacionário) no qual diferentes interesses disputarão os rumos da política fiscal.
A virada eleitoral já entrou para a história. O próximo capítulo será definido pelas decisões do governo e por seus efeitos concretos na vida dos brasileiros.
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