Lula fala em delegados 'fingindo trabalhar' e associação reage com críticas a 'generalização'

 

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Declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a atuação de delegados da Polícia Federal provocaram reação da categoria nesta quinta-feira. Durante evento da Embrapa, em Planaltina (DF), Lula afirmou ter determinado ao ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, que convoque de volta à corporação profissionais que estariam “fora” da PF, incluindo, segundo ele, agentes e delegados que estariam “fingindo trabalhar”.

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—Ontem (quarta-feira), eu mandei o ministro da Justiça fazer uma nota convidando todos os delegados da Polícia Federal que estão fora da Polícia Federal. Só vai ficar fora aqueles que forem secretários de Estado. Mas, aqueles agentes ou delegados que estão aí, em outro lugar, fingindo que estão trabalhando e não estão trabalhando, todos vão ter que voltar, porque nós vamos derrotar o crime organizado — afirmou.

A fala ocorreu na Feira Brasil na Mesa, primeiro compromisso público do presidente após retornar de viagem à Europa. Na ocasião, Lula disse que a medida integra um esforço para reforçar o combate ao crime organizado e preencher todos os cargos da Polícia Federal até o fim do ano. Na véspera, o governo havia anunciado a nomeação de mil novos policiais federais, entre agentes, delegados, escrivães, peritos e papiloscopistas.

A declaração, no entanto, foi recebida com críticas e ressalvas pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, que divulgou nota pública manifestando “preocupação” com o que classificou como uma generalização indevida. A entidade destacou que delegados cedidos a outros órgãos dos Três Poderes desempenham funções “estratégicas e de alta relevância” e seguem contribuindo para políticas públicas de segurança.

Segundo a associação, atualmente 53 delegados estão cedidos, menos de 3% do total em atividade. Para a ADPF, a eventual convocação desses profissionais não teria impacto suficiente, por si só, para alterar o cenário do crime organizado no país.

A entidade também aproveitou a manifestação para apontar fragilidades estruturais da corporação. Entre elas, citou a perda de quadros qualificados e a queda no interesse pela carreira. Dados apresentados indicam que, nos últimos três anos, 104 novos delegados ingressaram na PF, enquanto 50 deixaram o cargo para assumir outras funções. No mesmo período, o número de inscritos em concursos caiu de 321 mil para 218 mil.

No documento, a associação defende que o debate público se concentre em medidas estruturantes, como a criação do Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (FUNCOC), promessa ainda não implementada pelo governo federal. A entidade também cobrou políticas de valorização e retenção de talentos.

“Não basta ampliar o efetivo. É indispensável implementar políticas consistentes de valorização e financiamento adequado”, diz o texto.

A ADPF afirma ainda que declarações que coloquem em dúvida o comprometimento de policiais “fragilizam o debate público” e defende a abertura de diálogo com o governo para discutir propostas de aprimoramento da segurança pública.

No mesmo evento, Lula também fez comentários sobre política internacional, ao afirmar que pretende levar frutas brasileiras, como jabuticaba e maracujá, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em tom de ironia. Presidente diz que pretende 'ensinar a paz' enquanto americano 'quer fazer guerra'.

Veja a nota da ADPF na íntegra

A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) manifesta preocupação com as recentes declarações do Presidente da República que colocam em dúvida o comprometimento de Delegados da Polícia Federal, ao dizer que profissionais estariam “fingindo trabalhar”, e que simplifica indevidamente o tema segurança pública e o combate ao crime organizado.

A entidade ressalta que delegados atualmente cedidos ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, bem como a outros órgãos do Poder Executivo, do Judiciário e do Legislativo, exercem funções estratégicas e de alta relevância para o Estado brasileiro. São profissionais que seguem contribuindo ativamente para o fortalecimento das políticas públicas, não havendo qualquer fundamento para questionamentos generalizados sobre sua dedicação ou desempenho. Ademais, no momento 53 delegados estão cedidos a outros órgãos. Esse número representa menos de três por cento do total de Delegados de Polícia Federal em exercício. Portanto, não se deve induzir a sociedade a acreditar que a anunciada medida de retorno será o que irá vencer o crime organizado.

A ADPF destaca que, neste momento, o foco do debate deveria estar em temas estruturantes e urgentes para o enfrentamento ao crime organizado. Entre eles, o cumprimento da promessa feita pelo próprio Governo Federal de criação do Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (FUNCOC), iniciativa essencial para permitir que recursos oriundos da atividade criminosa sejam revertidos em investimentos diretos no aprimoramento das estruturas de repressão qualificada.

A Associação também chama atenção para o cenário preocupante de diminuição da capacidade técnica da Polícia Federal, pela perda de talentos e competitividade da carreira de Delegado de Polícia Federal, em comparação com outras carreiras de mesma complexidade e responsabilidades do serviço público. Dados recentes evidenciam esse quadro: enquanto 104 novos delegados ingressaram na instituição nos últimos três anos, 50 optaram por deixá-la para assumir outros cargos. Paralelamente, houve redução significativa no interesse pelos concursos públicos, com queda de 321 mil inscritos em 2021 para 218 mil em 2025. Não basta ampliar o efetivo. É indispensável implementar políticas consistentes de valorização, retenção de talentos e financiamento adequado da instituição.

Por fim, a Associação reafirma que o enfrentamento ao crime organizado exige menos propaganda e mais ações concretas, investimentos contínuos nos profissionais e inteligência estratégica. Declarações que desqualificam policiais não contribuem para esse objetivo e fragilizam o debate público sobre segurança. A ADPF reitera o requerimento de abertura de mesa junto ao Governo Federal para que possa se estabelecer um diálogo apto à contribuição dos Delegados Federais com ideias e propostas efetivas para a defesa da Polícia Federal e o aperfeiçoamento das políticas de segurança pública em benefício da sociedade brasileira.