Lula fala com líderes de México Colômbia e Canadá para discutir ações de Trump na Venezuela
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone nesta quinta-feira com três chefes de Estado sobre a situação da Venezuela após a intervenção militar dos Estados Unidos que capturou o então presidente do país, Nicolás Maduro, no fim de semana. Lula falou com os presidentes Gustavo Petro, da Colômbia; Claudia Sheinbaum, do México; e com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.
As ligações, que ocorreram separadamente, reforçam o movimento do governo brasileiro de defesa do multilateralismo e de oposição à intervenção militar liderada pelo presidente americano Donald Trump, que viola o Direito Internacional.
Os governos de Colômbia e México, comandados por líderes de centro-esquerda, já haviam criticado as ações dos Estados Unidos na Venezuela. No dia seguinte à deposição de Maduro, os dois países já haviam se somado ao Brasil e a Chile, Uruguai e Espanha em uma nota conjunta que rechaçava as ações militares americana e as classificavam como contrárias a “princípios fundamentais do direito internacional”.
A conversa de Lula com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, abordou a questão na Venezuela, mas é especialmente simbólica porque o Partido Liberal, agremiação de Carney, venceu as eleições em abril de 2025 após declarações de Donald Trump dizendo que o país seria o 51º estado americano. Na ocasião, a onda de rejeição dos canadenses às falas do presidente americano ajudou a reverter a baixa popularidade dos liberais e os ajudaram a vencer o pleito.
De acordo com o Palácio do Planalto, nesta quinta Carney ligou para Lula. “Os dois líderes trocaram impressões sobre a situação na Venezuela e suas implicações para a região".
"Ambos condenaram o uso da força sem amparo na Carta das Nações Unidas e no direito internacional. Lula destacou que o destino da Venezuela deve ser decidido soberanamente por seu povo e que a América do Sul deve continuar sendo uma zona de paz", diz o comunicado.
O presidente e o primeiro-ministro canadense concordaram sobre a “necessidade de reforma das instituições de governança global” e Carney aceitou o convite de Lula para realizar uma visita ao Brasil em abril deste ano. A nota ainda afirma que ambos “manifestaram forte interesse em avançar de forma acelerada na negociação de um acordo comercial entre o Mercosul e o Canadá”.
Também foi o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, quem telefonou a Lula, um dia após o líder colombiano ter conversado, também por telefone, com Donald Trump e distensionado a situação entre o país caribenho e os Estados Unidos. O americano, que já chegou a acusar Petro, sem provas, de associação com o narcotráfico e sugeriu considerar uma intervenção similar à realizada na Venezuela em solo colombiano, baixou o tom na quarta-feira ao convidar o líder caribenho a visitar a Casa Branca.
Lula e Petro saudaram o anúncio feito na tarde desta quinta-feira pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez Gómez, irmão da presidente interina do país, Delcy Rodríguez, de libertar presos políticos nacionais e estrangeiros.
No telefonema desta quinta, Lula e o presidente da Colômbia “concordaram que a situação na Venezuela deve ser resolvida exclusivamente por meios pacíficos, da negociação e do respeito à vontade do povo venezuelano”.
Após capturar Maduro e encaminhá-lo preso para Nova York para ser julgado por supostamente fazer parte de uma associação criminosa que promove o narcotráfico, o governo dos Estados Unidos reconheceu a legitimidade de Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela. Delcy é aliada de longa data do regime chavista-madurista e era vice-presidente de Nicolás Maduro.
O texto diz, ainda, que Brasil e Colômbia "reafirmaram sua intenção de seguir cooperando em prol da paz e da estabilidade na Venezuela" e ressalta "os importantes contingentes de migrantes venezuelanos que (os dois países) têm acolhido nos últimos anos".
A conversa entre Lula e Claudia Shwinbaum, presidente do México, teve tom similar. A nota do Planalto sobre o telefonema diz que os dois repudiam “os ataques contra a soberania venezuelana” e “rejeitaram qualquer visão que possa implicar na divisão ultrapassada do mundo em zonas de influência”.
“Reiteraram, nesse contexto, a defesa do multilateralismo, do direito internacional e do livre-comércio”, diz a nota. Os dois presidentes manifestaram ainda “interesse em seguir cooperando com a Venezuela em favor da paz, do diálogo e da estabilidade do país e da região”. Lula voltou a convidar Sheinbaum para visitar o Brasil, em data a ser negociada entre as chancelarias dos dois países.
Comunicação sem mencionar Trump e Maduro
Nesta quinta-feira, o ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, afirmou que a posição do governo brasileiro sobre a intervenção militar americana na Venezuela não prejudica o diálogo entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O Brasil ainda tenta reverter os efeitos remanescentes do tarifaço imposto por Trump sobre exportações brasileiras. As tarifas foram reduzidas para commodities agrícolas, mas ainda pesam sobre a indústria brasileira.
— A divergência não afeta em nada a relação. O presidente Lula já teve diferenças em relação à posição do presidente (George W.) Bush na Guerra do Iraque (iniciada em 2003). No entanto, foi o presidente americano com quem ele melhor se relacionou. Nossa comunicação (no governo) não vai fugir da defesa da autodeterminação dos povos e da soberania — afirmou Sidônio a jornalistas.
Apesar disso, os comunicados sobre os temas vão evitar, segundo o ministro, qualquer menção aos nomes de Nicolás Maduro e Donald Trump. — Não tem por que citar um ou outro, o problema ali é de uma nação com a outra — disse.
