Lula e Motta testam reaproximação por ganho eleitoral, mas agenda do governo esbarra em resistências
Depois de um primeiro ano marcado por momentos de tensão e desconfiança, Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Câmara, Hugo Motta, iniciaram 2026 encenando um gesto calculado de distensão política. Nesta primeira semana de retomada dos trabalhos legislativos, os dois trocaram acenos públicos, interpretados como tentativa de reorganizar a relação entre Planalto e Câmara em um ambiente já contaminado pelo calendário eleitoral.
Logo na primeira sessão deliberativa do ano, nesta segunda-feira, Motta colocou em votação duas medidas provisórias caras ao governo e que estavam perto de perder validade: a que cria o programa Gás do Povo e a que estabelece alívio financeiro e renegociação de dívidas para produtores rurais afetados por eventos climáticos extremos.
As aprovações oferecem ao Planalto uma vitrine dupla, social e produtiva, logo na largada do ano político, permitindo ao governo falar simultaneamente com famílias de baixa renda e com o setor rural.
Durante a sessão, Motta procurou enquadrar o gesto como institucional, mas a fala foi lida no governo como sinal de aproximação:
— É papel do Parlamento trabalhar para fazer do Brasil um país mais justo. Como presidente da Câmara sempre buscarei avançar com os bons projetos, não importando a sua origem — afirmou.
No Planalto, a avaliação é que o presidente da Câmara ajuda a criar um ambiente de previsibilidade para pautas de apelo social, ao mesmo tempo em que reforça sua própria imagem de condutor do plenário capaz de entregar resultados.
Em paralelo, Lula também deu um gesto político na direção de Motta. O primeiro projeto de lei enviado pelo Executivo neste ano cria o Instituto Federal do Sertão Paraibano, com sede em Patos, reduto eleitoral do presidente da Câmara e de seu pai, o prefeito Nabor Wanderley. A proposta foi aprovada nesta terça-feira, sob elogios de Motta ao presidente:
— Sempre lutei para que minha região pudesse ter a sua instituição de ensino técnico e superior. Quero agradecer ao presidente Lula e ao MEC por ter enviado este projeto.
Auxiliares de Lula sustentam que a iniciativa atende a uma demanda antiga da região e tem viabilidade técnica. No Congresso, porém, a leitura predominante é política: o Planalto sinaliza atenção à base de um aliado estratégico, enquanto Motta demonstra capacidade de destravar matérias de interesse do governo.
O texto sobre o instituto paraibano foi apensado e aprovado junto a uma outra proposta importante ao Planalto, a que cria 17,5 mil cargos no Executivo. O projeto abre 16 mil vagas no Ministério da Educação, voltadas à expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, e outras 1,5 mil no Ministério da Gestão e da Inovação.
O movimento de reaproximação ganhou sequência nesta quarta-feira com um jantar de Lula com líderes da base e o presidente da Câmara na Granja do Torto, residência oficial de campo da Presidência da República. A Granja, localizada na Fazenda Riacho Torto, nos arredores do Plano Piloto, é historicamente usada como local de retiro e encontros discretos do chefe do Executivo com aliados e interlocutores, fora da rigidez dos palácios e da rotina do Planalto.
A intenção do encontro, segundo interlocutores ligados à coordenação política, é aproveitar o ambiente mais descontraído para alinhar prioridades e ajustar rumos da relação entre Executivo e Legislativo em um ano político curto e sensível, especialmente para pautas como o fim da escala 6x1, a regulamentação do trabalho por aplicativos e a votação de vetos ao projeto da dosimetria.
Aliados dos dois lados reconhecem que o novo ambiente tem pano de fundo eleitoral. O deputado Rogério Correia (PT-MG) associa a distensão ao momento político:
— São as proximidades das eleições e o desempenho de Lula nas pesquisas. Também acredito que ano passado havia uma pressão grande do Centrão de tentar viabilizar Tarcísio, o que acabou caindo por terra com o lançamento de Flávio.
Já o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) fez um elogio direto à condução de Motta e apontou expectativa de maior sintonia entre Executivo e Câmara:
— Eu entendo que estamos começando o ano com a pauta tranquila. Ontem, Motta colocou para votar o gás do povo e agora ele colocou que quer votar 6x1 e conversou com Boulos sobre a regulamentação do trabalho por aplicativo. Estamos confiantes de que estaremos mais afinados.
Entraves à vista
Se nas MPs de forte apelo social e de crédito emergencial há convergência, nas pautas estruturais a resistência é bem maior. O debate sobre mudanças na jornada de trabalho, com eventual redução da escala 6x1, mobiliza centrais sindicais e parte da base governista, mas enfrenta oposição de bancadas empresariais, que alertam para aumento de custos e impacto sobre pequenos negócios.
No Congresso, líderes avaliam que se trata de um tema complexo demais para ser resolvido em poucos meses e que exigirá negociação longa e concessões. Também há certa resistência em dar ao governo uma bandeira eleitoral diante da proximidade do pleito.
A regulamentação do trabalho por aplicativos segue a mesma lógica. A proposta de um modelo intermediário, com algum grau de proteção social sem vínculo celetista pleno, divide a própria base do governo. Há pressão de trabalhadores por mais direitos, mas temor de que regras mais rígidas levem à redução da oferta de serviços ou ao repasse de custos ao consumidor.
Essas duas agendas se somam à PEC da Segurança, enviada pelo Executivo e modificada pelo relator Mendonça Filho, de uma forma que desagradou ao Planalto. O governo vê nas alterações um esvaziamento do papel do Executivo federal na coordenação do assunto e perdas para a atuação da Polícia Federal. O desejo é retomar pontos da proposta inicial, o que também enfrenta resistência.
Com seu pai pré-candidato ao Senado, interessa a Hugo Motta manter proximidade com Luiz Inácio Lula da Silva para que o grupo político na Paraíba permaneça associado ao palanque presidencial e às entregas do governo federal no estado, que já tem Efraim Filho e Veneziano Vital do Rêgo colocados.
Aliados ponderam, no entanto, que os gestos de aproximação podem à tramitação de pautas de apelo mais imediato, sem garantia de alinhamento automático nas propostas estruturais do governo.
