Lula e a utopia do Século XXI: cortar gastos militares e investir os recursos em educação

Lula e a utopia do Século XXI: cortar gastos militares e investir os recursos em educação - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

A reeleição do Presidente Lula acontece num momento em que a juventude e diversas categorias de trabalhadoras e trabalhadores estão se levantando em vários países contra as consequências da aliança do neoliberalismo com o fascismo, que ameaça a democracia e os direitos civilizatórios historicamente conquistados com muitas lutas.

A repercussão internacional da reeleição coloca para o Presidente Lula a responsabilidade de liderar a pauta de reivindicações dos manifestantes. As propostas de erradicação da fome e da pobreza e o modelo de desenvolvimento sustentável com justiça tributária, social e ambiental, já foram levadas por ele aos mais importantes fóruns globais.

Os movimentos precisam reafirmar e assumir essa pauta como estratégia para sair da crise causada pelo desastroso projeto neoliberal, submetido ao mundo por bilionários e tecnocratas do “Consenso de Washington”. O Presidente Lula deveria pautar, como proposta emergencial, o estabelecimento de metas progressivas de redução dos gastos militares no mundo e a conversão dos recursos em fundos internacionais destinados à erradicação da fome, da pobreza extrema, à educação, à saúde, à habitação, à transição energética, à adaptação climática, ao uso racional da Inteligência Artificial e à paz.

Parece ingenuidade, mas não é. O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, assinado em 1970, conduzido pela ONU, não é respeitado.

É restrito aos salões burocráticos. Nunca foi assumido pelo povo.

A humanidade precisa superar sua mais atrasada e estúpida herança tribal: a guerra! Naturalizada e assistida nas telas como espetáculo, em todo o mundo. Romper com essa herança é adotá-la como a utopia do Século XXI: substituir gradativamente os gastos militares por investimentos em educação de qualidade, com metas, para formação de uma nova sociedade democrática e solidária, na qual o respeito, o diálogo, a diplomacia e a cooperação sejam naturalizadas nas relações entre as nações, para a paz e a prosperidade.

O Presidente Lula, reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes líderes globais, deveria dar o pontapé inicial na mobilização, empunhar essa bandeira e se juntar ao levante mundial da juventude, de trabalhadoras e trabalhadores que lutam em defesa do direito a uma vida digna e ao meio ambiente sustentável.

Essa mudança exige uma revisão radical das prioridades dos Estados, da distribuição dos recursos públicos e do papel das instituições internacionais. Em vez de concentrar parcelas crescentes de riqueza na capacidade de destruição e morte, as nações precisam ampliar os investimentos na vida, no conhecimento, na dignidade humana e na preservação do planeta.

A reeleição do Presidente Lula recolocou o Brasil em posição de destaque no debate internacional sobre multilateralismo, cooperação, erradicação da fome e da pobreza, o modelo de desenvolvimento sustentável com a inclusão do pobre no orçamento, defesa dos direitos humanos e do trabalho digno.

Essa projeção abre espaço para que ele leve aos fóruns internacionais uma proposta de renovação da agenda civilizatória: redução progressiva dos gastos militares, acompanhada da ampliação dos investimentos em educação pública de qualidade, saúde, habitação, segurança alimentar, proteção ambiental, transição energética e uso racional da Inteligência Artificial.

Uma agenda capaz de unificar o campo democrático. A dimensão desse desafio aparece nos próprios números.

Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares mundiais alcançaram US$ 2,718 trilhões em 2024, o maior valor já registrado pela instituição. É um volume extraordinário de recursos que revela a dimensão econômica da corrida armamentista.

Esses números representam a face mais sombria da estupidez humana. Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimou que aproximadamente 645 milhões de pessoas passaram fome em 2025.

A fome continua sendo uma das expressões mais vergonhosas da desigualdade humana global. Não faltam recursos e capacidade produtiva à humanidade para enfrentar esse problema; falta transformar prioridades políticas em compromissos permanentes de cooperação e financiamento.

A pobreza também permanece como uma barreira estrutural ao desenvolvimento. O Banco Mundial estimou, em sua atualização de setembro de 2026, que mais de 824 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza extrema em 2024, considerando a linha internacional de US$ 3 por dia.

Na educação, o quadro é igualmente desolador. A UNESCO contabilizou 273 milhões de crianças e jovens fora da escola em 2024.

Investir em educação pública de qualidade significa reduzir a desigualdade e a pobreza, ampliar oportunidades, desenvolver a ciência, fortalecer a democracia e construir sociedades capazes de resolver seus conflitos pelo conhecimento e pelo diálogo. Na habitação, a ONU-Habitat estima que até 3,4 bilhões de pessoas vivem em moradias inadequadas, enquanto mais de 300 milhões não têm onde morar.

Na adaptação às mudanças climáticas, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente calcula que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 bilhões anuais em 2035, diante de fluxos internacionais de financiamento público muito inferiores às necessidades. A saúde também precisa ocupar posição central nessa agenda.

Os dados da Organização Mundial da Saúde, compilados pelo Banco Mundial, mostram que os financiamentos globais da saúde continuam muito aquém das necessidades emergenciais. Em 2023, os gastos correntes em saúde no Brasil corresponderam a 9,73% do PIB, indicador que evidencia a relevância econômica e social dessa área.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o déficit global de financiamento da saúde, em 2026, atingiu US$ 371 bilhões. A transição energética, a proteção das florestas, a recuperação de áreas degradadas e a prevenção de catástrofes climáticas precisam deixar os salões de retórica para se converterem em prioridades orçamentárias.

A utopia visa subverter a ordem na qual predomina a destruição e a morte pela construção de uma nova ordem na qual a vida seja nossa razão de viver dignamente em paz e feliz, sem fome, sem pobreza, com redução das desigualdades, pela garantia de direitos e pela cooperação entre os povos.

É nesse contexto que o Presidente Lula pode apresentar uma contribuição histórica. O Brasil tem tradição diplomática de defesa da solução pacífica de controvérsias, do multilateralismo e da autodeterminação dos povos.

Nossa diplomacia pode trabalhar pela construção de uma agenda internacional que dê sustentação para essa grande utopia, de estabelecer metas progressivas de redução dos gastos militares no mundo, conversão dos recursos em fundos internacionais destinados à educação, à saúde, à habitação, ao combate à fome, à adaptação climática e à paz.

As mobilizações de estudantes e trabalhadores em diferentes países europeus expressam demandas sociais e políticas que também precisam ser consideradas nos debates sobre o futuro da democracia. As disputas políticas no Brasil e em muitos outros países mostram a importância de preservar as instituições democráticas, os direitos fundamentais e os mecanismos de participação popular.

A grande utopia do século XXI não pode ser a conquista de territórios, a supremacia militar ou a submissão de povos. Precisa ser a construção de uma civilização na qual a vida tenha mais valor que os arsenais, a educação seja mais importante que a corrida armamentista e a diplomacia prevaleçam sobre a violência.

Forças armadas e conflitos militares fazem parte de uma história marcada pela disputa de poder, pelo medo e pela imposição da força. A humanidade precisa avançar para superar essa herança, sem ingenuidade diante das ameaças existentes, mas com coragem para construir instituições internacionais capazes de prevenir guerras e resolver conflitos pela negociação.

O Presidente Lula tem a oportunidade de levar essa discussão ao centro da agenda mundial: menos recursos para a destruição, mais investimentos na vida; menos guerras, mais diplomacia; menos desigualdade, mais direitos; menos intolerância, mais solidariedade. Essa é uma agenda que ultrapassa governos, partidos e fronteiras.

É um projeto de civilização. Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não será aquela que produzir os arsenais mais poderosos, mas aquela que conseguir garantir educação, saúde, moradia, alimentação, liberdade e dignidade para todos os seus habitantes.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →