Lula condiciona reaproximação a convite de Alcolumbre para conversa ou gesto em votação, dizem aliados
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem dito a aliados que espera um gesto do presidente Davi Alcolumbre (União-AP) para chamá-lo para uma conversa. A relação entre os dois ficou estremecida após a derrota histórica de Jorge Messias no plenário do Senado para uma vaga ao Supremo Tribunal Federal. O aceno, dizem pessoas próximas, seria um convite do senador para um encontro, que não seria negado por Lula, ou um gesto em uma votação no Senado.
Nos últimos dias, Lula falou a aliados e parlamentares que quer ter uma relação institucional e respeitosa com Alcolumbre. O presidente também ponderou a aliados que não retaliou o presidente do Senado e nem mexeu em nenhum dos seus cargos no governo. Ele é responsável pela indicação dos ministros de Integração Nacional, Waldez Góes, e de Comunicações, Frederico Siqueira Filho. Além de ter influência em indicações para o Banco do Brasil, Correios, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e Telebras.
Lula, no entanto, ainda demonstra estar magoado com a derrota de Messias e chegou a dizer a aliados que a derrota da indicação foi tão dolorosa para ele quanto para Messias — trata-se da primeira rejeição de um indicado à Corte em 132 anos. Por isso, espera um gesto de bandeira branca que parte de Alcolumbre.
Desde a derrota de Messias, interlocutores de Lula e Alcolumbre entraram no circuito para tentar melhorar o clima entre as duas autoridades. Entre eles os ministros José Múcio (Defesa) e José Guimarães (Secretaria de Relações Institucionais).
Nos bastidores, governistas dizem que uma boa sinalização de tentativa de diminuir os ruídos na relação é a aprovação de matérias consensuais em plenário, sem margem para mais desgastes do governo no Legislativo.
A derrubada dos vetos do presidente Lula à LDO nesta quinta-feira foi interpretada por interlocutores do Palácio do Planalto e do Congresso como um gesto de acomodação política entre governo e cúpula do Legislativo, especialmente por envolver uma pauta considerada prioritária por Alcolumbre.
Um interlocutor que atua no diálogo entre as duas autoridades afirmou, sob reserva, que o governo liberou a sua bancada numa sinalização a Alcolumbre. O presidente do Senado é considerado parlamentar com forte atuação no estado e ligação direta com prefeitos, e partiu dele anunciar nesta semana, durante a Marcha dos Prefeitos em Brasília, que esse veto presidencial seria levado à apreciação dos congressistas.
Um aliado próximo de Alcolumbre diz ainda que houve um entendimento entre as lideranças de que derrubar os vetos nesta quinta-feira não significaria impor uma derrota ao governo. Um líder do Senado diz, sob reserva, que enxerga nessa votação um “caminho para avançar com consensos”.
O deputado Tarcísio Motta (PSOL-SP) disse que enxerga na votação esse gesto de distensão política.
— É uma sinalização ao Alcolumbre, em termos de pacificação, e também é uma sinalização aos prefeitos, da Marcha Nacional dos Prefeitos. Tinha pelo menos um veto ali muito importante para eles. Esse é, sem sombra de dúvida, o jogo eleitoral falando mais alto no dia de hoje — disse.
Parlamentares também apontam que a base do governo chegou desmobilizada para a sessão conjunta, repetindo a estratégia adotada em votações recentes, como na análise dos vetos ligados à dosimetria, quando o Planalto evitou maior esforço de articulação para barrar derrotas consideradas inevitáveis ou politicamente custosas.
Compasso de espera
O governo avalia que o senador articulou a derrota de Messias, já que preferia o nome de Rodrigo Pacheco (PSB-MG), seu antecessor e aliado de primeira hora, para a vaga. Alcolumbre nega e tem sinalizado a interlocutores de Lula que não traiu o presidente, a quem sempre manifestou sua preferência por Pacheco.
Nessas conversas, ele atribui à articulação política do governo a falta de votos para aprovar o nome do chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), que recebeu 34 votos de 41 necessários para chegar ao STF. Um interlocutor do senador diz que ele não se furtaria de falar ou se reunir com Lula caso houvesse um convite.
Desde a rejeição de Messias no Senado, Lula e Alcolumbre tiveram dois encontros públicos. O último ocorreu na quarta-feira, quando conversaram brevemente em sala reservada do Tribunal de Contas da União (TCU), antes da cerimônia de posse de Odair Cunha (PT) a uma vaga de ministro na corte. Segundo relatos, o clima do encontro foi “ameno e tranquilo”, durou cerca de dez minutos e nenhum tema considerado polêmico teria sido abordado ali.
O primeiro ocorreu na posse da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na semana passada, onde Lula e Alcolumbre, se cumprimentaram com aperto de mão e tapinha nas costas, antes da solenidade, e, durante a cerimônia, mesmo sentados lado a lado, se ignoraram e não trocaram nenhuma palavra.
Nesta quarta, embora tenha sido convidado pelo governo, Alcolumbre não participou de evento no Planalto que marcou os 100 dias do pacto dos três Poderes pelo combate da violência contra as mulheres. De acordo com a assessoria de imprensa do senador, ele já tinha um compromisso pessoal.
