Lula chega à Índia, onde defenderá modelo sustentável de IA

 

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Inclusão, desenvolvimento e sustentabilidade. Esses serão alguns dos princípios defendidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua participação amanhã (quinta) na sessão plenária da Cúpula Impacto da Inteligência Artificial (IA). Realizado em Nova Délhi, na Índia, será a quarta reunião da série, a primeira num país do Sul Global. Esse é um fator destacado intensamente pelos anfitriões, assim como pela delegação brasileira.

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Lula desembarcou nesta quarta na capital indiana para uma visita de três dias, acompanhado de uma comitiva de 12 ministros e cerca de 300 empresários.

Criar modelos e normas que contribuam para atender às carências sociais dos países em desenvolvimento, e não apenas aos lucros das empresas de tecnologia, é um objetivo que une os governos do Brasil e da Índia. Após o fim da cúpula, o presidente Lula vira a chave do compromisso multilateral para o bilateral, com uma visita de Estado à Índia. No sábado ele se reúne com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, quando serão assinados vários acordos, entre eles um de parceria digital entre os dois países.

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Por toda a capital indiana, cartazes da cúpula dão o tom que o governo indiano quer dar ao evento. Sempre com a foto de Modi, no estilo personalista do líder indiano, as mensagens são do tipo “Criando IA para a humanidade, crescimento inclusivo e um futuro sustentável” e “Bem-estar para todos”. A organização anunciou a participação de 20 chefes de Estado e governo — entre eles Lula, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

Também são esperados CEOs de gigantes da tecnologia, como Sundar Pichai (Google) e Sam Altman (OpenAI). Alguns devem se reunir com Lula. O fundador da Microsoft, Bill Gates, estava escalado como um dos principais palestrantes, mas sua presença balançou diante da revelação de que ele é citado nos arquivos de Jeffrey Epstein, o criminoso sexual americano morto na prisão em 2019. O governo indiano se preparou para um dos maiores eventos internacionais já realizados no país, buscando um papel de liderança no setor.

Para o Brasil, que co-presidiu um dos sete grupos de trabalho, também é uma oportunidade de se posicionar no debate sobre a regulação e governança da IA. Segundo um diplomata envolvido na preparação dos documentos que serão divulgados nesta quinta, enquanto existe uma onda de euforia entre governos e empresas sobre as oportunidades criadas pela IA, o governo brasileiro não desiste de ressaltar os perigos, a começar pela capacidade das novas tecnologias de gerar desinformação.

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Em sua fala na plenária da cúpula, o presidente Lula deve destacar a importância de que as ferramentas de IA sirvam para a inclusão social, com a ampliação de seu uso para benefício geral da população, e não de apenas alguns nichos — ao mesmo tempo em que haja um treinamento para não gerar desemprego em massa. Outra prioridade do discurso será salientar a necessidade de manter modelos de IA que privilegiem energias renováveis, o que em tese dá ao Brasil vantagens para atrair investimentos na área.

Uma das preocupações do Itamaraty é integrar sua participação na cúpula à defesa do multilateralismo, um dos pilares da diplomacia lulista. Isso poderia estar em jogo, uma vez que o evento teve origem numa iniciativa unilateral do Reino Unido, sede da primeira cúpula, em 2023. Em seguida houve encontros semelhantes na Coreia do Sul (2024) e na França, ano passado. Para evitar a fragmentação do debate, a ideia é posteriormente enviar as recomendações para a ONU, cujo secretário-geral, António Guterres, participa do evento.

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Os EUA que têm demonstrado repulsa ao sistema multilateral, preferiu não ficar de fora. Em Délhi, o governo de Donald Trump será representado por Michael Kratsios, diretor de Ciência e Tecnologia da Casa Branca. A Índia quer usar a sede como uma oportunidade rara de elevar os interesses do Sul Global ao centro da discussão sobre IA. Na próxima edição, em 2027, o evento volta para a Europa. Será em Genebra, na Suíça.