Desde domingo, a extrema direita brasileira, o Bolsonarismo, faz contas. Revira abstenções, mapas de votação, diferenças entre o primeiro e o segundo turno, tentando entender como Lula virou uma eleição que parecia perdida.
Os números mostram como os votos se moveram. Para entender Lula, é preciso voltar 81 anos.
Em 1945, no interior de Pernambuco, nascia um menino que, pelas estatísticas daquele Brasil, tinha muito mais chances de morrer de fome ou de alguma doença da infância do que de chegar à velhice. Naquela época, quase 15% das crianças brasileiras morriam antes de completar um ano.
Nascer pobre no Nordeste dos anos 1940 era começar a vida enfrentando uma sucessão de improbabilidades. Aquele menino era Luiz Inácio, filho de Dona Lindu.
Hoje ele completa 81 anos recém-eleito, pela quarta vez, presidente do Brasil. Num país em que a origem social costuma determinar as oportunidades de uma pessoa e até os sonhos que ela se sente autorizada a ter, isso diz muito.
Lula nasceu num Brasil que reservava aos filhos dos pobres o trabalho precoce, a subserviência e a luta pela sobrevivência. E foi justamente desse lugar que ele saiu.
Ainda criança, atravessou o país num pau de arara, numa viagem de treze dias, ao lado da mãe e dos irmãos, em busca de uma vida possível no Sudeste. Levava a fome, as dificuldades e a esperança que moveram milhões de famílias nordestinas ao longo da história.
Em São Paulo, foi engraxate, trabalhador de tinturaria, operário. Perdeu o dedo mínimo da mão esquerda num acidente de trabalho e entrou para outra estatística cruel: a dos brasileiros mutilados enquanto produziam a riqueza de um país que raramente os protegeu à altura.
Foi o menino pobre, o retirante, o trabalhador precoce, o operário acidentado. Cada uma dessas condições era, por si só, uma estatística apontando para longe do poder.
Ele atravessou todas. Conheceu a fome, a perda, a discriminação e as derrotas, e levou tudo isso para a política sem precisar apagar de onde veio.
Essa trajetória tem muitos nomes além do dele. Antes de Lula, existiu Dona Lindu, mulher nordestina e pobre que enfrentou circunstâncias duríssimas para manter os filhos vivos e oferecer a eles alguma chance de futuro.
Depois vieram os companheiros de fábrica, os sindicatos, as greves, os movimentos populares, os trabalhadores que se organizaram e construíram coletivamente um partido. A biografia de Lula é também a história de milhões de pessoas que descobriram, na organização coletiva, a possibilidade de disputar um poder que por séculos lhes pareceu inalcançável.
E isso contraria uma das narrativas mais convenientes do individualismo, a de que basta trabalhar duro para vencer, seja qual for o ponto de partida. Lula trabalhou muito.
E sua ascensão é inseparável de quem caminhou ao seu lado, da organização dos trabalhadores e de uma população que passou a reconhecer nele algo de si mesma. Talvez por isso sua presença desperte sentimentos tão intensos.
Lula carrega na própria imagem aquilo que uma parcela da elite sempre procurou manter longe do poder. O sotaque, as mãos, o jeito de falar, a relação com a pobreza: uma origem que ele nunca escondeu nem quis esconder.
O Nordeste ocupa um lugar contraditório no imaginário nacional. É celebrado pela cultura, pela música, pela culinária e pela hospitalidade, e tratado com desdém quando reivindica protagonismo econômico e político.
Seus trabalhadores são admirados pela capacidade de resistir, enquanto as desigualdades que exigem tanta resistência seguem naturalizadas. Não é por acaso que a xenofobia contra nordestinos reaparece com tanta força em disputas eleitorais.
No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro prometeu uma ferrovia ligando as capitais do Nordeste e escolheu como imagem da prosperidade o trabalhador do turismo que “vai poder receber a sua gorjeta em dólar, em euro”. O turismo é uma atividade econômica importante, e trabalhar nele é digno.
A imagem escolhida, porém, revela um olhar que enxerga o desenvolvimento nordestino pela perspectiva do serviço prestado a quem vem de fora. Para uma região que produz ciência, tecnologia, arte e lideranças políticas, a metáfora merece reflexão.
Para certos setores da sociedade brasileira, parece mais fácil imaginar um nordestino servindo à mesa do que sentado na cadeira da Presidência. Perdeu três eleições presidenciais seguidas, em 1989, 1994 e 1998.
Poderia ter desistido. Em 2002, tornou-se presidente.
Foi reeleito em 2006. Depois, enfrentou a morte de pessoas amadas, foi alvo de processos, condenado e preso.
Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações na Lava Jato e reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no caso do triplex. O mesmo juiz que o condenou virou ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, eleito em 2018 numa disputa da qual Lula estava impedido de participar.
Em 2022, Lula voltou às urnas e venceu. Bolsonaro se tornou o primeiro presidente brasileiro a perder uma tentativa de reeleição desde que ela foi instituída.
E agora, em 2026, às vésperas dos 81 anos, veio uma virada inédita. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, Lula venceu o segundo com 51,79% dos votos válidos.
Nunca, desde a redemocratização, um candidato havia revertido no segundo turno a desvantagem do primeiro. Foi a mais difícil de suas quatro vitórias.
Veio num tempo em que a extrema direita avança pelo mundo contaminada pelo fascismo, e em que o governo dos Estados Unidos deixou clara a sua preferência. Enquanto o Brasil enfrentava a pressão do tarifaço, Donald Trump recebia Flávio Bolsonaro no Salão Oval e o elogiava publicamente.
Diante de tudo isso, o povo brasileiro escolheu o filho de Dona Lindu. Essa vitória tem um sabor de soberania.
É essa virada que a extrema direita tenta decifrar. Os votos podem e devem ser contados, auditados e analisados, e a mobilização entre os dois turnos ainda vai render muitos estudos.
O que nenhuma planilha traduz é o que representa, para milhões de brasileiros, ver um homem daquela origem chegar quatro vezes à Presidência. Essa é a parte da conta que a extrema direita insiste em deixar de fora.
Há quem veja nele o estadista, há quem reconheça o antigo líder sindical, há quem se emocione com o homem que abraça, chora, fala de amor e ainda se lembra da fome. Essa relação afetiva convive com divergências legítimas sobre suas decisões e seus governos, e a democracia exige que governantes sejam criticados e cobrados.
Compreender a importância histórica de Lula pede olhar para o Brasil que existe por trás dele. E para o Brasil que tornou sua trajetória tão improvável.
Hoje, no aniversário de Lula, penso sobretudo em Dona Lindu. Na coragem daquela mulher, na precariedade da viagem, nos sonhos modestos de uma mãe tentando garantir a sobrevivência dos filhos.
Ninguém naquele caminhão precisava imaginar a Presidência para que a viagem fizesse sentido. Bastava a esperança de encontrar trabalho, comida e alguma dignidade.
Oitenta e um anos depois, o filho de Dona Lindu continua no centro da história política do país. E é impossível não me emocionar com isso.
Lula envelheceu. Perdeu pessoas amadas, colecionou derrotas e vitórias, cometeu erros.
Como qualquer ser humano, é feito de grandezas e contradições. Poucas biografias políticas brasileiras permitem enxergar com tanta nitidez as transformações do país ao longo de oito décadas.
E poucas lembram tão bem que as estatísticas da pobreza são construções históricas, que a organização coletiva pode transformar. A extrema direita pode seguir fazendo as contas.
Vai encontrar abstenções, percentuais, mapas de votação. Para encontrar Lula, terá de voltar a Garanhuns, a Dona Lindu, ao caminhão que cruzou o país com uma família inteira e quase nenhuma certeza.
Terá de olhar para um homem que conheceu a fome e fez do combate a ela uma das prioridades da sua vida pública, num país em que milhões de crianças ainda precisam superar obstáculos imensos só para ter a chance de sonhar. Feliz aniversário, presidente Lula.
Que a sua história continue nos lembrando de quantos destinos ainda precisamos transformar. * Rose Rodrigues é secretária Agrária Nacional do Partido dos Trabalhadores
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