Gigantes de tecnologia como Amazon e Alphabet impulsionaram o mercado de ações a níveis recordes nos últimos anos, alimentados pelo crescimento de seus negócios de inteligência artificial e computação em nuvem.
Mas, nos últimos meses, uma importante fonte dos lucros dessas duas empresas veio de uma origem incomum: a valorização de suas participações acionárias em empresas de inteligência artificial.
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Mais de 70% do lucro líquido trimestral da Alphabet veio de investimentos em outras empresas, especialmente na SpaceX, de Elon Musk, segundo um recente documento regulatório e uma análise da Satori Insights, empresa de pesquisa do mercado financeiro.
A SpaceX abriu seu capital em junho, na maior oferta pública inicial de ações (IPO) da história.
Os ganhos com investimentos também representaram cerca de 65% do lucro líquido da Amazon, em grande parte decorrentes de sua participação na Anthropic, uma das principais startups de inteligência artificial, que também planeja abrir seu capital.
Esses ganhos evidenciam uma vulnerabilidade crescente no mercado de ações como um todo: as empresas que continuam impulsionando o mercado para cima estão cada vez mais dependentes do sucesso umas das outras.
— É circular — disse Matt King, fundador da Satori Insights.
— O que está financiando a inteligência artificial é, cada vez mais, a própria inteligência artificial.
As preocupações com o caráter circular do boom de inteligência artificial persistem há algum tempo, à medida que investidores observam as gigantes dominantes da tecnologia, fabricantes de chips e laboratórios de IA investirem ou emprestarem dinheiro uns aos outros.
Logotipo da Anthropic em um evento da empresa em São Francisco.
Os ganhos com investimentos representaram cerca de 65% do lucro líquido da Amazon, decorrentes em grande parte de sua participação na Anthropic
Jason Henry/The New York Times
Esse dinheiro, muitas vezes, é frequentemente usado para comprar produtos ou serviços de computação em nuvem das mesmas empresas que estão fornecendo o financiamento.
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Executivos do setor de inteligência artificial têm defendido esses modelos de financiamento circular.
Sam Altman, CEO da OpenAI, descreveu os acordos como uma forma criativa de liberar o capital necessário para acelerar a inovação em um momento de rápidas transformações.
Mas os ganhos com investimentos registrados pela Alphabet e pela Amazon mostram como o desempenho financeiro dessas empresas está cada vez mais interligado.
Eles também apontam para a crescente interconexão do mercado de ações com a economia como um todo: a inteligência artificial está impulsionando o crescimento de ambos, tornando a ameaça de uma queda acentuada do mercado acionário uma preocupação ainda maior para os formuladores de políticas econômicas.
— O mercado de ações nunca foi apenas um reflexo da economia, mas agora se tornou um dos principais motores da economia — disse King.
Os ganhos não realizados com investimentos são contabilizados no lucro de uma empresa com base no valor de suas participações ao final de cada trimestre.
A menos que a empresa venda alguma dessas participações, os ganhos existem apenas no papel.
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O mecanismo também funciona no sentido inverso: uma queda no valor dos investimentos durante um trimestre pode reduzir os lucros divulgados pela empresa.
Alphabet e Amazon não responderam aos pedidos de comentário.
Elas fazem parte de um pequeno grupo de empresas de tecnologia acompanhadas de perto pelo mercado, apelidado de Magnificent Seven (As Sete Magníficas, em português), que também inclui Microsoft, Meta, Apple, Tesla e Nvidia.
O grupo se tornou uma referência para a alta das ações impulsionada pelo setor de tecnologia, e muitos investidores gostam de analisar as sete empresas em conjunto.
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No total, as Sete Magníficas registraram US$ 315,6 bilhões em lucro líquido no segundo trimestre.
O período corresponde aos três meses encerrados em junho para todas as empresas, com exceção da Nvidia, que segue um ano fiscal ligeiramente diferente.
Desse total, US$ 134,6 bilhões, ou cerca de 42%, vieram de ganhos com investimentos, segundo cálculos de King, que ajustou os números divulgados pelas empresas para levar em conta os impostos.
As demais fontes de lucro líquido são, normalmente, as receitas provenientes da venda de produtos e serviços.
Sem esses ganhos com investimentos, os lucros desse grupo teriam ficado aproximadamente no mesmo nível do trimestre anterior — ou seja, não teriam crescido — de acordo com King.
Microsoft, Meta, Apple e Tesla não registraram receitas comparáveis provenientes de investimentos.
A Nvidia registrou cerca de US$ 13 bilhões em ganhos com investimentos no trimestre mais recente.
A fabricante de chips possui participações na OpenAI e na Anthropic, além de investimentos em outras empresas relacionadas à inteligência artificial, incluindo a CoreWeave e a Applied Digital, que alugam acesso a data centers equipados com processadores de alta capacidade para o desenvolvimento de modelos de IA.
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Os ganhos com investimentos das sete empresas no segundo trimestre representaram uma parcela muito maior dos lucros totais do que os 5% registrados no trimestre anterior, segundo os cálculos de King.
Daqui para frente, os ganhos com investimentos das participações dessas empresas de tecnologia poderão continuar oscilando à medida que algumas das empresas privadas nas quais elas investem abrirem seu capital.
Os ganhos anunciados pela Alphabet, controladora do Google, parecem ser atribuídos em grande parte a seu investimento na SpaceX, empresa de exploração espacial e inteligência artificial de Elon Musk.
A companhia registrou quase US$ 80 bilhões em lucro antes dos impostos decorrente de investimentos em títulos patrimoniais restritos e informou possuir US$ 94,1 bilhões em ações da SpaceX.
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Esse ganho provavelmente sofrerá alterações.
Quando a SpaceX começou a ser negociada publicamente, em 12 de junho, suas ações dispararam.
Desde então, os papéis oscilaram bastante e, atualmente, seu preço está cerca de 17% abaixo do nível registrado em 30 de junho, quando o Google divulgou o valor de sua participação.
A Amazon informou, em um documento regulatório, que seu ganho de US$ 50 bilhões com investimentos veio “principalmente” de sua participação acionária na Anthropic.
Se esse boom interconectado da inteligência artificial começar a se reverter — caso, por exemplo, os investidores passem a duvidar de que a IA será capaz de gerar lucros suficientemente elevados para pagar pela enorme expansão da infraestrutura atualmente em andamento —, as consequências serão amplas, segundo analistas e economistas.
— O mercado de IA é de importância enorme para os Estados Unidos — disse Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays.
— Como economia, estamos mais expostos ao desmonte desse mercado de IA do que estávamos há apenas alguns anos.
