Lucas Pinheiro, ouro nos Jogos de Inverno: 'A medalha abriu uma conversa sobre diversidade, que é a riqueza do nosso país'

 

Fonte:


Primeiro medalhista brasileiro nos Jogos Olímpicos de Inverno, Lucas Pinheiro Braathen não olha apenas para o próprio umbigo. Em entrevista ao GLOBO nesta quarta-feira, o esquiador defendeu que seu ouro no slalom gigante vai muito além do ineditismo esportivo: serve para expandir as conversas sobre identificação cultural e diversidade do povo brasileiro. O atleta de 25 anos é filho de um norueguês e de uma brasileira, e foi criado durante a maior parte da vida na Europa. Fenômeno na modalidade, logo se tornou um dos principais nomes do esporte no país nórdico. Mas, em 2024, mudou sua nacionalidade nas competições em busca de liberdade para ser autêntico e tomar as próprias decisões.

— (Com o ouro) Senti muitas emoções e muito orgulho, naturalmente. Mas a coisa mais linda para mim, pessoalmente, é a conversa que se abriu por causa dessa conquista, sabe? Não é sobre a medalha mesmo. Para mim, a medalha é um microfone. Ela abriu uma conversa sobre identidade e diversidade, que são a riqueza do nosso país, da cultura brasileira. Eu quero celebrar com esse ouro que agora é nosso — reflete.

Animado, Lucas Pinheiro comemorou ouro como fez na abertura dos Jogos de Inverno: com samba no pé

Reprodução | Redes Sociais | SporTV

Lucas iniciou no esporte aos 9 anos. Até 2023, competia pela Noruega, país que representou nos Jogos de Inverno de 2022, em Pequim — com um desempenho tímido, deixou o torneio sem medalha. No ano seguinte, após uma desavença com a federação norueguesa, resolveu se aposentar do esporte. Mas a decisão durou pouco tempo, e o esquiador recomeçou com as cores verde e amarela.

A volta ao torneio olímpico, no entanto, foi acompanhada de muita pressão, segundo ele mesmo. Fosse por conta da necessidade de se provar após a troca de federação ou pela consciência de que ele representava a única chance real de medalha de um país ainda com pouca tradição nos Jogos de Inverno.

— Naturalmente, a pressão foi grandona, porque sei que o caminho que estou andando é muito diferente. Mas é o meu caminho, é o certo para mim. Estou apresentando minhas cores verdadeiras, minha personalidade, minha história de um jeito que é conectado com o meu propósito: inspirar pessoas de todos os cantos do mundo — afirma o medalhista. — Disse para o povo brasileiro que estava aqui para trazer a medalha. E isso traz a pressão. Mas eu queria ser autêntico, e foi importante trazer essa energia, essa competição, essa confiança. E o povo brasileiro me deu essa confiança de volta.

Galerias Relacionadas

A história "sensível" com a antiga federação não o impede de receber apoio de outros noruegueses, segundo o atleta:

— Essa história talvez seja um pouco sensível para o povo na Noruega, mas tem metade (do país) celebrando o que eu fiz, uma mudança, um crescimento, uma outra perspectiva. Muitas pessoas gostariam que eu ainda estivesse representando o Noruega. Mas estou esquiando com meu coração. Quando consigo isso, sou o melhor esquiador. E isso eu consegui nesse dia, trazendo ouro pelo Brasil.

Nem mesmo a eliminação precoce na segunda-feira, quando perdeu a chance de uma segunda medalha, na modalidade slalom, após uma queda ainda na primeira descida da prova, abalou o humor do brasileiro. Lucas trata o fim de sua participação nos Jogos como "uma história muito boa para o povo ver como nada é absoluto".

— Esse é o balanço fino do nosso esporte, que é muito complicado e complexo. A sensação linda que tenho em dias como o do ouro é porque consegui conectar todos esses. Mas nos dias em que dá tudo errado, que você cai, cria-se o sucesso lá na frente. É uma história muito boa para o povo ver como nada é absoluto. E o ouro é o resultado de todos os dias em que dá errado. Isso é o crescimento que me deixa ser o atleta que vou ser quando acordar amanhã, entende? Eu abraço o sucesso e esses dias em que tudo dá errado com gratidão, porque eu sou um produto dos dois.

Agora já aproveitando os momentos de descanso na Casa Corona, um espaço que a marca de bebidas patrocinadora dos Jogos de Inverno fez para os atletas, o brasileiro pensa primeiro em esfriar a mente e se recompor para voltar, finalmente ao Brasil, após meses focado nas disputas.

— Até agora, eu estava aqui como um atleta, vivendo essa vida tentando conquistar medalhas nessa competição. E eu precisava dedicar toda a minha capacidade para conseguir isso. Agora eu só estou aqui em Livigno (ainda na Itália), com meus amigos que ainda estão competindo, aproveitando para assistir outras disputas — disse. E continuou: Hoje vou numa balada aqui em cima da montanha com os amigos. À noite eu vou dormir numa cúpula de neve, em cima da montanha, sozinho. Para ficar um pouco distante de todo mundo. E só absorver tudo o que aconteceu. Estou sentindo uma alegria e um paz tão grande. Depois vou voltar para o Brasil pela primeira vez após quatro ou cinco meses sem ir. E vou dar um abraço nas pessoas que eu amo, sabe? E sentir a terra brasileira no meu pé, sou muito animado por isso. E, é claro, que uma dessas pessoas vai ser a minha namorada, a Isadora, que me inspira muito, que me acompanha nessa jornada. E eu mal posso esperar para compartilhar tudo isso com ela também.

Cúpula de gelo conhecida como Corona Mico, na Itália. Local em que Lucas Pinheiro, medalhista de ouro nos Jogos de Inverno, irá descansar até retornar ao Brasil

Divulgação / Corona Cero

Retorno às pistas

O reencontro com a namorada e atriz Isadora Cruz, no entanto, será curto. Lucas logo voltará à calçar suas pás de esqui, pois no próximo mês volta ao circuito mundial.

— A temporada da Copa de Mundo de Esqui não acabou, não. Eu preciso retornar em breve, continuar a preparação. Preciso treinar para as primeiras competições na Eslovênia e na Noruega, nos dias 7 e 8 de março. Eu vou continuar todas os finais de semanas até o dia 25 e, então, volto diretamente para o Brasil.