Lucas Pinheiro disputa primeiros Jogos de Inverno pelo Brasil e vira esperança de medalha inédita

 

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Há pouco mais de dois anos, seria improvável que o Brasil chegasse ao momento derradeiro de um ciclo olímpico entre os favoritos a uma medalha nos Jogos de Inverno. Mas uma decisão de Lucas Braathen Pinheiro mudou todas as expectativas para a Olimpíada de Milão/Cortina d’Ampezzo, que tem abertura marcada para a próxima sexta-feira: o atleta do esqui alpino trocou a Noruega pelo Brasil, país que defenderá em sua segunda participação olímpica.

Nascido em Oslo, capital norueguesa, Lucas é filho de Bjørn Braathen com a brasileira Alessandra Pinheiro de Castro. A infância foi toda marcada pela dualidade entre as culturas da Noruega, onde viveu por boa parte do tempo, e do Brasil, lar da família materna. O atleta de 25 anos fala português e norueguês.

Lucas Pinheiro na primeira descida no slalom gigante, no mundial de Esqui 2025-2026, na Italy

(Photo by Stefano RELLANDINI / AFP)

Os momentos da infância que passou em São Paulo o conectaram ao futebol, mas a carreira esportiva começou para valer aos 9 anos, na Noruega, quando deu seus primeiros passos no esqui. Talento natural, logo escalou degraus nas equipes de desenvolvimento até o topo da federação norueguesa, uma das maiores potências da modalidade, dona de 40 medalhas olímpicas, sendo 11 de ouro.

A trajetória foi muito promissora: aos 20 anos, em outubro de 2020, venceu sua primeira etapa de Copa do Mundo, no slalom gigante, em Sölden, na Áustria, em sua terceira temporada de competição. Dois anos depois, em janeiro, conquistou vitória épica no slalom na etapa de Wengen, na Suíça.

Mais independência

Lucas se tornou nome forte nas duas disciplinas, que diferem pelo tamanho do percurso e pela distribuição dos portões — as “traves” pelas quais os atletas devem passar em busca dos menores tempos. Na temporada 2022/23, após uma primeira Olimpíada tímida, em Pequim-2022, foi campeão do mundo no slalom, superando o também norueguês Henrik Kristoffersen para ficar com o globo de cristal.

Quando tudo se encaminhava para que o atleta iniciasse o novo calendário defendendo seu título, veio a decisão que abalou o cenário: Lucas decidiu se aposentar aos 23 anos, em outubro de 2023. Poucos meses depois, em março de 2024, o jovem astro anunciou a volta ao esporte, mas defendendo a bandeira do Brasil.

— Desde que o Lucas procurou a CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve) para falar sobre a transferência de nacionalidade, vemos toda a empolgação dele em defender o nosso país. No Brasil, tem liberdade para competir, para montar a equipe dele, ter patrocinador próprio. (Ele) nos ajuda a desenvolver o esporte alpino e tem se tornado uma referência para outros atletas — afirma Anders Pettersson, presidente da CBDN.

Na época do anúncio da aposentadoria, a imprensa europeia falou em conflitos de visões pela relação com patrocinadores. O próprio Lucas explicaria, posteriormente, o que pensava para a nova fase da carreira: uma condução mais individual, com um time próprio, menos focada nos interesses coletivos da equipe norueguesa e com espaço para “mostrar personalidade”. Além, claro, da felicidade de poder expressar uma identidade brasileira pouco comum na modalidade.

— Ninguém está acostumado a ver bandeiras da América do Sul nesse esporte. Isso é muito legal. Está vindo uma nova energia para o esporte, é muito bom. Teve até gente que trouxe brigadeiro e pão de queijo. Eu achei que fosse precisar de mais tempo para ver isso, de ver bandeiras do Brasil logo na primeira competição. Tem sido muito especial para mim — contou ele ao podcast oficial dos Jogos Olímpicos em 2024, ainda quando fazia suas primeiras aparições como atleta brasileiro.

Hoje, Lucas tem um estafe de dez pessoas. Reside na Áustria e tem outro imóvel em Milão, uma das sedes dos Jogos. Ele também visita frequentemente o Brasil, onde moram, além da família materna, a namorada, a atriz Isadora Cruz.

Sob a bandeira brasileira, Lucas soma dez pódios (um ouro, sete pratas e dois bronzes) de Copa, entre slalom e slalom gigante. O último foi na terça-feira: a prata no slalom gigante na etapa de Schladming, na Áustria. Em novembro, obteve o primeiro ouro brasileiro na competição, no slalom de Levi, Finlândia.

— Nessas duas temporadas competindo pelo Brasil, Lucas subiu ao pódio dez vezes em etapas da Copa do Mundo e atualmente ocupa a segunda colocação tanto no ranking geral, como nas disciplinas slalom e slalom gigante. Esse retrospecto sólido demonstra que ele chega a Milão/Cortina preparado para fazer uma excelente competição — projeta Pettersson.

As competições de esqui alpino começam no sábado. TV Globo, Sportv e CazéTV transmitem os Jogos de Inverno.