Looksmaxxing: até onde vai a busca por uma aparência perfeita? - QTU Questões do Universo

Looksmaxxing: até onde vai a busca por uma aparência perfeita?

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O desejo de melhorar a própria aparência ganhou um novo vocabulário nas redes sociais.
O termo "looksmaxxing", que começou a circular em comunidades mais restritas da internet, passou a aparecer em vídeos e conteúdos que reúnem dicas para deixar o rosto e o corpo mais próximos de determinados padrões estéticos.
A ideia, em princípio, é simples: identificar características que poderiam ser aprimoradas e buscar maneiras de valorizá-las.
O problema surge quando o cuidado com a aparência deixa de ser uma escolha e passa a ser tratado como uma exigência para alcançar um modelo de beleza cada vez mais específico.
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Não existe uma única prática associada ao movimento.
Entre os conteúdos publicados estão desde cuidados considerados comuns, como atenção à pele, aos cabelos e à atividade física, até estratégias mais controversas, como dietas extremas, uso inadequado de substâncias, procedimentos estéticos e técnicas sem comprovação científica.
É justamente nessa fronteira que médicos e especialistas chamam atenção para os possíveis impactos físicos e psicológicos da tendência.
Para a cirurgiã plástica Alessandra Martinelli, um dos principais pontos de preocupação está na maneira como jovens podem começar a interpretar características naturais do próprio rosto como defeitos que precisam necessariamente ser corrigidos.
"O rosto humano possui assimetrias, diferentes formatos, proporções e características individuais.
O problema começa quando a pessoa passa a acreditar que existe apenas um modelo correto de beleza e que precisa modificar o próprio rosto para alcançar esse padrão.
Na cirurgia plástica, qualquer indicação precisa partir de uma avaliação individual, considerando anatomia, expectativas e, principalmente, se existe uma motivação saudável para aquele desejo de mudança", explica.
Entre os conteúdos relacionados ao looksmaxxing estão técnicas como o chamado mewing, intervenções voltadas para mandíbula e queixo e métodos mais extremos, como o bonesmashing.
A prática consiste em provocar impactos no próprio rosto com a intenção de alterar sua estrutura.
Para especialistas, é nesse tipo de comportamento que a busca por uma mudança estética pode ultrapassar os limites do autocuidado e resultar em traumas ou lesões.
"O rosto possui estruturas delicadas, com ossos, nervos, vasos sanguíneos e músculos.
Tentar modificar sua anatomia por meio de impactos, pressão ou técnicas sem respaldo médico pode provocar lesões, alterações de sensibilidade, fraturas e outros problemas.
Uma característica que incomoda esteticamente não justifica colocar a saúde em risco", afirma o cirurgião plástico facial e otorrinolaringologista André Baraldo.
A lógica do looksmaxxing também pode alimentar uma busca sem fim por novas mudanças.
Depois de modificar uma característica, outra pode passar a ser percebida como inadequada: uma mandíbula menos marcada, um nariz que não segue determinado formato, a textura da pele ou até características naturais dos olhos.
Nas redes, imagens e vídeos podem reforçar a ideia de que existe uma aparência ideal a ser alcançada.
Para Alessandra, essa dinâmica merece atenção porque pode mudar a relação da pessoa com a própria imagem.
"Quando a pessoa começa a identificar defeitos diferentes a cada mudança, precisamos olhar para além da questão estética.
A cirurgia plástica pode corrigir características que realmente incomodam o paciente, mas não deve ser utilizada como uma ferramenta para perseguir uma imagem impossível de alcançar.
O objetivo de um procedimento bem indicado é harmonizar, e não transformar o paciente em uma versão padronizada de outra pessoa", pondera.
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A influência das redes sociais torna essa comparação ainda mais presente.
Vídeos de transformação, fotografias de antes e depois, filtros e imagens produzidas para valorizar determinados ângulos podem transmitir a impressão de que mudanças significativas na aparência são simples e acessíveis.
Na prática, porém, nem sempre é possível saber o que existe por trás de uma imagem publicada.
"Existe uma diferença enorme entre observar um resultado na internet e entender o que foi necessário para chegar até ele.
Muitas vezes não conhecemos a iluminação, os filtros, os procedimentos realizados, o histórico daquela pessoa ou mesmo se aquela imagem representa a realidade.
O jovem pode comparar o próprio rosto real com uma imagem construída e concluir que existe algo errado com ele", observa André.
A questão ganha uma dimensão ainda mais delicada entre adolescentes, período marcado por transformações físicas e por uma maior exposição à comparação social.
O debate sobre a pressão estética entre jovens também aparece em outras áreas da saúde.
Um alerta recente da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o uso estético inadequado de medicamentos para emagrecimento entre adolescentes reforça a preocupação médica com a adoção de estratégias para modificar o corpo sem acompanhamento adequado.
Isso não significa, porém, que todo cuidado com a aparência associado ao looksmaxxing seja necessariamente prejudicial.
Manter hábitos de higiene, cuidar da pele e dos cabelos, praticar atividade física e prestar atenção à alimentação podem fazer parte de uma rotina de saúde e bem-estar.
O sinal de alerta está na relação estabelecida com essas práticas e no espaço que a aparência passa a ocupar na autoestima.
"Cuidar da aparência pode ser positivo quando está inserido em um contexto de saúde e bem-estar.
O problema é quando a pessoa passa a acreditar que só será aceita, desejada ou valorizada depois de modificar determinadas características.
Nesse momento, precisamos interromper a lógica de que todo desconforto com a aparência deve necessariamente ser resolvido com um procedimento", avalia Alessandra.
Para André, a principal questão é diferenciar uma escolha consciente de uma tentativa de seguir padrões que circulam nas redes sem avaliar suas consequências.
"A medicina trabalha com segurança, evidência científica e individualização.
Uma tendência de rede social não pode substituir uma avaliação médica.
Antes de tentar modificar qualquer estrutura do rosto, é fundamental entender se existe realmente uma indicação e quais são os riscos envolvidos", conclui.