Criada por inteligência artificial, personagem foi inserida em vídeos reais de atos políticos para atrair seguidores e divulgar conteúdo adulto pago Uma mulher loira que aparece ao lado de Flávio Bolsonaro (PL) em vídeos de atos políticos viralizou nas redes sociais e conquistou mais de 522 mil seguidores no Instagram.
Conhecida como “loirona do Flávio“, ela chamou a atenção pela proximidade com o candidato à Presidência da República. O detalhe é que a mulher não existe.
Identificada nas redes sociais como Julia Berlli Cortez, a personagem foi criada com inteligência artificial (IA) e inserida em vídeos reais de eventos políticos. As montagens circularam no Instagram, TikTok e X, fazendo parecer que ela acompanhava Flávio Bolsonaro durante compromissos de campanha.
Julia Berlli Cortez ganhou popularidade ao aparecer em vídeos ao lado de Flávio Bolsonaro durante atos políticos realizados nos dias 17 e 18 de outubro, na Bahia, no Espírito Santo e em São Paulo. Nas gravações, a loira aparece sorrindo, interagindo com o público e acompanhando o candidato em meio a apoiadores.
As imagens dão a impressão de que ela faz parte da comitiva, mas foram manipuladas digitalmente. Comparação revela que a “loirona do Flávio” foi inserida por inteligência artificial no lugar de Nikolas Ferreira; os movimentos idênticos nas duas gravações evidenciam a manipulaçãoVídeo: Reprodução/Redes sociais – Vídeo manipulado por IA e gravação original
Um dos vídeos que mais repercutiram foi gravado durante a passagem de Flávio Bolsonaro pela Praia de Camburi, em Vitória, no Espírito Santo, em 17 de outubro. Na gravação original, quem aparece ao lado do candidato é o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Na versão alterada, o parlamentar foi substituído pela personagem criada com IA. A manipulação foi identificada após a comparação entre os vídeos que viralizaram e os registros originais dos eventos.
O influenciador Guga Figueiredo, conhecido como “Xerife da Internet”, também chamou a atenção para o caso ao publicar um vídeo mostrando que a suposta apoiadora de Bolsonaro era uma criação digital. Segundo o Projeto Comprova, a análise das imagens com a ferramenta Hive AI Detector identificou um índice de alteração por inteligência artificial de 14,5% em um dos vídeos com a personagem, superior ao encontrado na gravação original.
A investigação identificou que os vídeos políticos funcionavam como uma forma de atrair usuários para um perfil que também divulgava conteúdo adulto pago. No Instagram, a personagem acumulava mais de 522 mil seguidores, sem informar na descrição que havia sido criada por inteligência artificial.
Até 20 de outubro, o canal reunia aproximadamente 164,4 mil seguidores. Os pacotes anunciados custavam entre R$ 14,90 e R$ 39,90 por semana e incluíam acesso a fotos, vídeos e conversas virtuais.
A estratégia combinava a repercussão dos eventos eleitorais com a curiosidade despertada pela personagem. Assim, usuários atraídos pelos vídeos de Flávio Bolsonaro eram direcionados para plataformas de conteúdo pago.
O Projeto Comprova também identificou que publicações relacionadas à campanha eram arquivadas e posteriormente voltavam a aparecer no Instagram. Esse comportamento pode indicar uma tentativa de reduzir restrições de alcance impostas pela plataforma, embora a intenção não tenha sido comprovada.
Ao seguir os links divulgados pelo perfil, o Projeto Comprova identificou um sistema de cobrança por Pix associado à venda dos conteúdos. A análise dos dados de pagamento apontou a empresa Sync Tecnologia Ltda., sediada em Brasília, como recebedora dos valores.
A companhia integra o mesmo grupo econômico da Sync Pay, especializada em soluções de pagamento. Procurada pela reportagem, a empresa negou qualquer participação de seus sócios ou funcionários na criação da personagem ou na administração dos perfis.
Segundo a Sync, sua atuação se limita ao processamento de pagamentos realizados por clientes cadastrados. A companhia informou ainda que abriu uma análise interna após ser procurada pelo Comprova, mas não divulgou a identidade do responsável pela conta, alegando sigilo contratual e proteção de dados.
A utilização de personagens criados por inteligência artificial para atrair seguidores durante as eleições não se restringe ao caso de Julia Berlli Cortez. Uma investigação da BBC identificou mais de 30 perfis semelhantes, que utilizavam personagens digitais associados a candidatos à Presidência da República.
A dinâmica era parecida: os perfis publicavam vídeos de apoio político para ganhar visibilidade e, posteriormente, direcionavam os usuários para plataformas de conteúdo adulto. No caso da “loirona do Flávio”, a personagem chegou a aparecer em diferentes eventos políticos usando a mesma roupa, outro detalhe que chamou a atenção durante a verificação.
A equipe de Flávio Bolsonaro foi procurada pelo Projeto Comprova para comentar a utilização de imagens manipuladas de eventos de sua campanha, mas não respondeu até a conclusão da reportagem original. Não há, nas informações divulgadas pela investigação, comprovação de que Flávio Bolsonaro ou sua equipe tenham participado da criação ou da divulgação das montagens.
Carolina Sott é repórter e editora no ND Mais, onde acompanha de perto os movimentos da política, segurança pública e economia no Brasil. Atuante na área desde 2020, é formada em Jornalismo pela Uniplac (Universidade do Planalto Catarinense) e tem MBA em Jornalismo Digital.
Escreve matérias que revelam bastidores, contextualizam disputas de poder e mostram, de forma clara, como decisões feitas no alto escalão impactam o cotidiano dos brasileiros. Interessada pelo que move Brasília, São Paulo e outras capitais, costuma ler sobre política e assuntos relevantes para o cenário político e social.
Indicada ao prêmio Microfone de Ouro da Acaert, já passou por portal de notícias e rádio, onde produziu e apresentou conteúdos que traduzem escolhas complexas para a vida das pessoas. Cobriu as Eleições Municipais em Lages (2020) e Florianópolis (2024), além de trabalhar na cobertura das Eleições Gerais de 2022 em um portal de notícias.
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