Barros, do Idesf: “As facções otimizaram a logística do contrabando ao máximo” Reprodução/Youtube Na última década, organizações criminosas brasileiras se diversificaram além do tráfico de drogas e avançaram sobre o comércio clandestino de mercadorias, amplificando seus ganhos com a ilegalidade e desafiando as autoridades e o Estado, de uma forma geral. O contrabando, especialmente do Paraguai, garante a facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) lucros que passam de 500% - ganhos que, segundo especialistas, servem para financiar outras frentes de atuação das quadrilhas, numa estratégia de expansão econômica da ilegalidade. Os criminosos conseguem mais capital para recrutar apoiadores e "funcionários", comprar armas, corromper policiais e outros agentes do Estado e amplificar a capacidade logística em torno de suas atividades ilegais. Anualmente, o contrabando entre o Brasil e o Paraguai movimenta cerca de R$ 60 bilhões, montante que é quase o dobro da balança comercial entre os dois países, que fechou 2025 em US$ 7,4 bilhões (ou R$ 38 bilhões). Os dados constam num estudo publicado em março pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf). Os números são estimados a partir das apreensões feitas pelas autoridades. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), somente 5% a 10% das mercadorias oriundas de contrabando e descaminho que entram no Brasil pela fronteira com o Paraguai são efetivamente apreendidas. O interesse das facções no contrabando é explicado através de múltiplos fatores. O primeiro é que há mercado para os produtos trazidos irregularmente do Paraguai, e a presença do PCC e do Comando Vermelho pelo país afora garante ainda mais capilaridade na distribuição das mercadorias. Especialistas apontam que a entrada do crime organizado no comércio ilegal de mercadorias começou pelos cigarros, avançou para os combustíveis, depois para as bebidas até chegar aos medicamentos e, mais recentemente, às canetas emagrecedoras. A virada de chave, porém, se deu através da logística. As organizações criminosas levaram a expertise usada no tráfico de drogas para o contrabando, o que deu escala a um fluxo antes mais pulverizado. É o que explica Luciano Barros, presidente do Idesf. “As facções otimizaram a logística do contrabando ao máximo. Se antes víamos apreensões de produtos contrabandeados em carros ou ônibus e realizada por múltiplos atores, agora são imensos caminhões com um mix de opções, de cigarros a agrotóxicos, drogas, medicamentos”, enumera. Com essa “hiperespecialização”, o custo médio desembolsado pelas facções para a logística é menor. O estudo do Idesf estima que, em média, esses grupos operam com um custo de distribuição de apenas 22%. Comparado com o tráfico de drogas, é menos oneroso perder a mercadoria contrabandeada” Custos menores elevam as margens de lucro. Os cigarros clandestinos lideram a lista, com lucros estimados em 507%. Telefones celulares (390%), brinquedos (390%), óculos (312%) e baterias (285%) completam a relação dos ganhos da criminalidade com a comercialização ilegal de itens de consumo. Além dos lucros proporcionados com as atividades criminosas, o contrabando envolve uma delicada questão socioeconômica, pois é crescente o número de pessoas que vivem em cidades brasileiras fronteiriças, como Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná, e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, que participam da logística da ilegalidade como uma fonte de renda, as chamadas "mulas". Recentemente, os medicamentos entraram de vez no radar dos criminosos. Segundo o relatório do Idesf, nos últimos cinco anos apreensões de remédios somaram mais de R$ 100 milhões. Cada vez mais populares, canetas emagrecedoras são a nova fronteira de desafio para as autoridades competentes. Em 2024, foram 2.544 unidades apreendidas pela Receita Federal. No ano passado, o volume disparou a 30.011 canetinhas, um aumento de 1.080%. Os dados acompanhados pelo Idesf projetam 150 mil unidades apreendidas nos seis primeiros meses de 2026. Com altas margens de lucro, as canetas viraram o "item da vez" para os contrabandistas, e ajudam a exemplificar o racional da atuação das facções nesse mercado ilegal. Delegado-executivo da Polícia Federal (PF) em Foz do Iguaçu (PR), Sérgio Luis Stinglin ressalta que, diferentemente do que se observa no Rio de Janeiro, onde facções disputam o domínio de territórios, ainda não se vê na fronteira uma busca por "tomar" a região e monopolizá-la. A lógica é financeira. “Eles se aproveitam das oportunidades de obter lucro maior e porque há demanda pelos produtos contrabandeados. Comparado com o tráfico de drogas, é menos oneroso perder a mercadoria contrabandeada. E se eventualmente alguém for preso, o tempo da pena é menor [do que por tráfico], a não ser em caso de investigações mais robustas nas quais se identifica a organização”, explica o delegado Stinglin. Para Rodolpho Ramazzini, diretor da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), a atuação das facções no contrabando se explica pela combinação de oportunidade, lucratividade e capacidade de escoamento. “O crime organizado tem território e capacidade financeira de larga escala. Quando se deparam com um setor produtivo que é altamente tributado e com baixa fiscalização, os criminosos veem uma oportunidade de maximizar os lucros que já têm com o tráfico de drogas e de armas”, avalia Ramazzini.
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Logística do tráfico de drogas impulsiona o contrabando
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