Livro sobre São Conrado destaca encantos naturais, contrastes e personagens
São Conrado costuma ser atravessado com pressa. Para muitos, é apenas um bairro de passagem entre a Zona Sul e a Barra. A paisagem é conhecida, tem a Pedra da Gávea, a extensa faixa de areia sem aglomerações e o gramado onde pousam as asas-deltas e parapentes. Mas o livro “São Conrado: natureza e contraste” parte justamente da recusa dessa leitura superficial. Em vez de reforçar a imagem pronta, a obra se propõe a desmontá-la e reorganiza o bairro a partir de fragmentos de memória, personagens, arquitetura e experiências que não cabem em uma narrativa linear. O resultado é um retrato que não tenta simplificar o lugar, mas expor suas camadas, inclusive aquelas que permanecem incompletas e que agora ganham um novo capítulo fora das páginas, no lançamento da obra com encontro marcado na próxima quinta-feira (23), às 19h, no quiosque Qui Qui.
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A estrutura do livro acompanha essa escolha. Não há uma linha cronológica que organize os acontecimentos de forma contínua. O texto se constrói por blocos, episódios independentes que se conectam por um eixo comum, mas não se subordinam a ele. Cada capítulo funciona como uma entrada própria para o bairro, permitindo ao leitor passear por diferentes tempos e histórias sem a obrigação de seguir uma ordem rígida.
— O livro não tem um texto linear. São assuntos estanques dentro do tema central. Assim, cada capítulo tem a própria memória, sua história e seus personagens — explica o autor dos textos, Carlos Orletti.
A decisão não é apenas estética. Ela responde à própria dificuldade de organizar São Conrado em uma narrativa única, como se o bairro resistisse a qualquer tentativa de síntese. Essa resistência aparece também na maneira como o livro lida com a memória. Ao longo da apuração, o projeto esbarrou repetidamente na ausência de registros organizados. Não são apenas lacunas pontuais, mas um padrão de instituições, espaços e histórias do bairro.
Idealizador do projeto, Sylas Andrade afirma que seu maior incômodo foi com a falta de registros.
— As pessoas não guardam, não registram. Nem instituições fazem esse trabalho. Isso acontece no clube de golfe, no voo livre, na Rocinha. Está tudo muito espalhado. É um problema do Brasil — destaca.
Rocinha. Com 72 mil habitantes, favela é a mais populosa do país
Divulgação/Vantoen Pereira
Diante desse cenário, o livro não tenta preencher todas as ausências, mas assume a fragmentação como condição, organizando o que é possível, sem esconder o que falta. Se a memória falha, a paisagem se impõe. São Conrado é um dos poucos lugares da cidade onde mar, montanha e floresta aparecem no mesmo enquadramento com facilidade. Essa presença, no entanto, não resolve o que está ao redor. Ao contrário, intensifica o contraste entre o que se vê e o que se vive.
— A intenção foi mostrar belezas e mazelas, o contraste tanto na topografia mar e floresta quanto nas condições de vida de uma elite social vizinha a moradores de baixo nível econômico — afirma Orletti.
O bairro não é apresentado como exceção, mas como condensação de uma lógica que permeia o Rio. A fotografia sustenta essa leitura. Longe de funcionar apenas como registro estético, as imagens operam como uma camada interpretativa do território. A escolha de enquadramento, luz e distância não busca neutralidade, mas construção de sentido. O trabalho evita a divisão evidente entre dois mundos e aposta na proximidade como elemento central da narrativa, como explica o fotógrafo Vantoen Pereira:
— O maior desafio não foi escolher entre a beleza ou a tensão, mas sim fundi-las em uma única camada visual. São Conrado é um território onde a geografia exuberante e a arquitetura de luxo coexistem com a urgência da Rocinha. A tensão está justamente na proximidade. A beleza da luz do fim de tarde ganha outra dimensão quando enquadrada a partir da complexidade urbana da favela.
Voo livre. Asas-deltas e parapentes são comumente avistados no céu do bairro e têm área de pouso na Praia de São de Conrado
Divulgação/Vantoen Pereira
Essa escolha se torna mais clara quando a imagem revela aquilo que o texto não alcança com a mesma intensidade. A imagem concentra, em um único plano, aquilo que o livro distribui ao longo de suas páginas: a convivência entre realidades que não se anulam, mas também não se integram completamente.
— A fotografia do voo de asa-delta cruzando o céu, com a fronteira invisível entre os condomínios e a Rocinha abaixo, mostra o que o texto muitas vezes não consegue transmitir, a escala — diz Pereira.
O próprio processo de produção alterou o olhar de quem participou do projeto. A percepção inicial de separação dá lugar a uma leitura mais complexa do território. A convivência cotidiana revela conexões invisíveis à distância e desmonta a ideia de um espaço rigidamente dividido.
— Percebi que a circulação de pessoas ignora as barreiras que eu imaginava existir. O bairro funciona como um ecossistema interdependente — relata o fotógrafo.
O pioneirismo de Conrado Niemeyer
A escolha de São Conrado como objeto do livro parte justamente dessa complexidade. Não se trata de um bairro central nas narrativas mais recorrentes sobre o Rio, mas de um lugar que concentra elementos importantes da cidade sem ser frequentemente analisado com profundidade.
— São Conrado é um tesouro meio escondido. Muitas vezes é só um lugar de passagem, mas tem particularidades que merecem atenção — acredita o idealizador da obra, Sylas Andrade.
Entre essas particularidades, ele destaca uma combinação específica:
— É um lugar com natureza abundante, baixo índice de violência em comparação com outros bairros e uma convivência mais pacífica do que se imagina.
Hotel Nacional. Inaugurado em 1972, foi projetado por Oscar Niemeyer e tem paisagismo de Burle Marx
Divulgação/Vantoen Pereira
Essa leitura não ignora os conflitos, mas desloca o foco para além deles. O livro não se propõe a negar os problemas, mas a ampliar o campo de observação. A proposta não é resolver a contradição, mas colocá-la em evidência sem reduzi-la.
— A ideia é também chamar a atenção para as coisas boas da cidade. Existe um conjunto de qualidades ali que merece ser visto — afirma Andrade.
Ao longo do livro, os personagens cumprem papel central na construção dessa narrativa. São eles que dão escala humana ao território e revelam aspectos menos visíveis da sua história.
— A história de Hélène Delangle, por exemplo, é surpreendente. Uma piloto francesa que correu no Circuito da Gávea nos anos 1930 e causou impacto com uma postura muito à frente do seu tempo — conta Carlos Orletti.
A presença dela indica não apenas um episódio isolado, mas um momento em que o bairro se insere em uma dinâmica mais ampla. Outras histórias apontam para processos sociais mais profundos.
— O depoimento do padre Clóvis Souza Santos, que atuou na Rocinha nos anos 1970, mostra o papel da igreja na organização da comunidade e na luta por melhorias — diz Orletti.
Esses relatos ajudam a construir uma memória que não está centralizada em arquivos oficiais, mas em experiências vividas e transmitidas. Há também histórias que permanecem abertas, sem conclusão definitiva. O livro não tenta resolver essas questões, mas registra sua presença como parte da história do lugar.
— O caso da morte de Zuzu Angel ainda precisa de respostas claras. É uma história que atravessa São Conrado e o país — afirma Orletti.
A arquitetura surge como outro elemento estruturante. Ela marca a identidade do bairro de forma direta — e não apenas compõe a paisagem.
— É difícil olhar para São Conrado e não perceber a presença de nomes como Oscar Niemeyer e José Zanine Caldas — diz o autor.
Essas obras não funcionam apenas como referência estética, mas como sinais de um processo de ocupação e transformação do espaço. A origem do bairro também se conecta a figuras que deixaram marcas duradouras.
— Conrado Niemeyer teve papel fundamental no início da ocupação, em 1916, com a construção da igreja e da avenida — informa Orletti.
A história de São Conrado se organiza, nesse sentido, a partir de ações individuais que se consolidam no espaço coletivo. Mesmo com esse conjunto de elementos, o livro evita qualquer tentativa de conclusão definitiva. Ele não propõe uma síntese, nem oferece uma resposta única para o que São Conrado representa. A definição não busca precisão, mas amplitude.
— Ele é um pouco de tudo, registro histórico, projeto artístico e também uma tomada de posição — resume Andrade.
O livro caracteriza São Conrado como um território aberto, onde a paisagem impressiona, onde a convivência existe e a diferença não é eliminada, e onde a memória ainda precisa ser construída. O que a obra faz é interromper o olhar automático e sugerir outro ritmo, com menos pressa e mais atenção e observação.
O quiosque QuiQui, onde será feito o lançamento de São Conrado: natureza e contraste”, na próxima quinta-feira, a partir das 19h, fica na Avenida Prefeito Mendes de Moraes, em frente ao número 900.
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