Livro resgata histórias de místicas brasileiras que desafiaram papéis femininos e transformaram crenças em performance
As quatro personagens retratadas no recém-lançado “Tetragrammater — O glamour midiático das mulheres de Deus”, de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira, arrebataram multidões no Brasil do século XX promovendo crenças pouco ortodoxas. Amazonense radicada no Rio, Yarandasã (1920-1969) se apresentava como mediadora direta de uma energia divina feminina. A “deusa solar” Hilda Roxo (1910-1972) dizia incorporar um velho chinês de uma mão só. Celebrada como a “Joana D’Arc de Goiás”, Santa Dica (1903-1970) ganhou fama ao “ressuscitar” no próprio velório. Já a mais conhecida do grupo, Cacilda de Assis (1917-2009), popularizou os rituais da umbanda no rádio e na televisão, transformando a entidade Seu Sete da Lira em personagem da cultura de massas.
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Apesar das diferenças, elas compartilharam um mesmo destino público: foram tratadas como atração de circo por órgãos da imprensa e como caso de polícia pelo Estado. O livro de Camareiro e Oliveira propõe uma outra abordagem. A dupla de pesquisadores, conhecida como Os Albertos, está mais interessada no caráter marginal dessas figuras, que representaram um raro protagonismo feminino no campo da espiritualidade.
— Nossa intenção não era fazer um livro místico nem discutir a veracidade dos poderes dessas mulheres — afirma Oliveira. — A ideia era mostrar o glamour midiático que cada uma construiu ao criar sua persona misteriosa. Estudamos a atividade delas como performance, até porque nosso foco como historiadores sempre foi a memória artística do país.
Alberto de Oliveira (esq.) e Alberto Camarero: dupla pesquisa o 'feminino inusual'
Edilson Dantas / Agencia O Globo
Estética e sincretismo
Dos paramentos austeros de Yarandasã às capas bordadas “hollywoodianas” de Hilda Roxo, passando pela caipirice agreste de Santa Dica e o exu carnavalesco de Cacilda, as mulheres do livro criaram uma estética própria. Ao mesmo tempo, elaboraram um sincretismo expansivo, que misturava códigos esotéricos, orientalismos exóticos e referências do cristianismo popular. Todas foram acusadas de charlatanismo e sofreram perseguição recorrente das autoridades.
Suas trajetórias cobrem cerca de quatro décadas, dos anos 1920 ao fim dos anos 1960, atravessando transformações profundas no país. Figura central do livro, com mais de cem páginas dedicadas a ela, Yarandasã encarna os principais interesses da pesquisa dos Albertos, como o uso consciente da mídia e a construção de uma autoridade espiritual que desafiava tanto as instituições religiosas quanto o Estado.
Vale notar que, embora exercessem lideranças como mulheres, as sacerdotisas do livro priorizavam entidades masculinas.
A expressão “Tetragrammater”, que dá nome à obra, foi criada pela sacerdotisa amazonense a partir do conjunto de letras que formam o nome de Deus na Bíblia Hebraica. Com ela, a fundadora da Ordem Mística Espiritualista Agla-Avid invocava uma energia feminina, ligada à natureza, águas e rios.
— Elas se apropriavam do masculino para exercer uma posição de poder tradicionalmente reservada aos homens — diz Oliveira. — Todas elas pareciam ter uma personalidade muito masculina. A imprensa da época dizia que Yarandasã não se comportava como uma freira, mas como um padre.
Hilda Roxo dizia incorporar Wandu, um velho chinês de uma mão só
Divulgação
Em entrevistas aos autores, ex-discípulos revelaram que eram mais atraídos pelo aspecto sensorial e cênico dos rituais do que pela teologia em si. Muitos seguidores se afastaram devido a disciplina rígida, hierarquias internas e disputas de poder. Em 1967, Yarandasã fundou uma comunidade mística numa área rural de Brasília, convencendo um grupo de 30 pessoas a se desfazerem de seus bens. As famílias logo se cansaram de morar em barracos e a líder espiritual cometeu suicídio dois anos depois. Já o Templo do Sol, fundado por Hilda Roxo nos anos 1930, ainda existe em Guapimirim (RJ), com o nome de Irmandade Espiritual Estrela D’Alva.
— Muitos ex-devotos guardam lembranças positivas, até fervorosas — diz Camarero. — Mas tem uma outra parcela revoltada até hoje, em especial no caso da Yarandasã, por conta de tudo que houve em Brasília. Falamos com pessoas que chegaram a vender seus bens para se juntar à comunidade, e chegando lá era um desconforto absoluto.
'Feminismo inusual'
Fundadores do grupo Atrupe — Arte Desacato, Camarero e Oliveira têm uma vasta bibliografia sobre o “feminino inusual”, como eles chamam, resgatando do esquecimento faquiresas escandalosas, vedetes malditas, poetas de cabaré e mulheres iconoclastas de modo geral. A dupla também dirige documentários; na semana passada, apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio os filmes “Tira e vira”, uma história do strip-tease no país, e “A senhora que morreu no trailer”, sobre a faquiresa e pioneira das subcelebridades Suzy King. Os documentários estão disponíveis na página dos autores: http://osalbertosapresentam.blogspot.com.
Cacilda de Assis popularizou a umbanda sendo o "corpo" de Seu Sete da Lira
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Assim como os faquires e faquiresas, as sacerdotisas costumavam inventar narrativas fantasiosas sobre seu passado, incluindo viagens à Índia e aprendizados diretos com mestres orientais. Pelo menos na época, tudo isso era difícil de averiguar.
— Para uma população muito simples, carente de consolo espiritual, essas histórias pegavam muito fácil — diz Oliveira. — Os mesmos rostos crédulos que vemos nas fotos de performances dos faquires, vemos também no público que vestia balandrau nas sessões da Agla-Avid.
A escrita de “Tetragrammater” segue uma linha parecida, misturando devoção e transgressão, admiração e violência. Suzy King, que ganhou uma biografia recente da dupla, acumulou manchetes ao desfilar seminua em um cavalo pelo centro do Rio. Em outro episódio midiático, foi acusada de esconder “suculentos sanduíches” na urna onde estava jejuando. Na confusão, acabou espancada pela polícia.
‘Santa bolchevique’
As sacerdotisas, por sua vez, incomodavam as religiões tradicionais — e se tornavam ainda mais perigosas para as autoridades quando se misturavam com política. A “santa bolchevique” Santa Dica, que defendia o confisco de terras dos fazendeiros, foi condenada a um ano de prisão por “desordem social”. Em 1925, uma intervenção policial em sua comunidade espiritual causou dezenas de mortes. A santa sobreviveu, e populares relatam que as balas disparadas contra ela se transformaram em grãos de milho.
— As pessoas perguntam: “Mas vocês estão escrevendo livro sobre sacerdotisas e fazendo filmes sobre strippers?” — brinca Oliveira. — Sim, eram mulheres em carreiras que parecem totalmente opostas, mas fichadas pela mesma polícia e exploradas pela mesma imprensa.
Yarandasã na irmandade Agla-Avid
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Raio X místico
Yarandasã, mãe dos templários: Xodó da imprensa sensacionalista, fundou a Agla-Avid no fim dos anos 1940, com uma doutrina que misturava espiritismo, magnetismo, cristianismo esotérico e forte dimensão performática. Os iniciados da “seita egípcio-tibetana”, segundo a mídia, reuniam-se no Espelho Magnético, santuário onde recebiam fluidos benéficos canalizados pela líder e por irmãos da ordem. O ritual contava com passes magnéticos, curas pela água e o dispositivo simbólico de purificação “arco de fogo”. Segundo discípulos, em transe, Yarandasã era capaz de falar todas as línguas vivas. Suas missas celebravam o protagonismo feminino, criticando casamento tradicional e submissão. Em trajetória marcada por batidas policiais e vigilância, teve ligações com políticos influentes, envolveu-se com reforma agrária e fundou polêmica comunidade espiritual em Brasília. Cometeu suicídio em 1969.
Hilda Roxo, a deusa solar: Desde criança, dizia escutar vozes do céu. Depois, passou a incorporar entidades orientais como Wandu, chinês de mão decepada. Formada em Filosofia, fundou irmandade com atuação no Rio e na Baixada Fluminense. Nos anos 1930, foi agredida por discípulos por causa da disciplina imposta por Wandu. Foi pisoteada, teve dentes quebrados e cabelos arrancados. Em 1943, assumiu o título “deusa solar”. Gravou discos, escreveu contos, poemas e “Minha vida mediúnica”, em que relata perseguições por exercer liderança espiritual feminina fora das instituições religiosas tradicionais. Na irmandade que fundou em Guapimirim (RJ), segundo os Albertos, “pessoas continuam sendo iniciadas em seus mistérios e levam em frente seu universo místico”.
Santa Dica, a Joana D'Arc de Goiás
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Santa Dica, a Joana D’Arc de Goiás: Liderança religiosa em Pirenópolis, ganhou fama após “ressuscitar” no próprio velório. Chamada de “santa bolchevista” na imprensa, a mística socialista defendia divisão de terras entre os necessitados e fundou um rancho com produção compartilhada, que chegou a reunir 15 mil pessoas, com exército próprio para proteger a líder. Após rumores de que ela preparava um movimento popular, a comunidade foi invadida pela polícia, deixando dezenas de mortes. Condenada a um ano de prisão, foi libertada antes devido à pressão popular. De todas as sacerdotisas, foi a mais politizada. Viajou para São Paulo e Rio, mobilizando multidões fora de seu estado natal. Em 1932, liderou milícias em apoio à Coluna Prestes.
Cacilda de Assis, o ‘corpo’ de Seu Sete: Tornou-se nacionalmente conhecida ao incorporar Seu Sete da Lira, entidade que ultrapassou a mãe de santo em fama. Atuando no Rio, apresentou a umbanda à cultura de massas: participou de programas de televisão, como os de Chacrinha, gravou discos e desfilou com bloco próprio no carnaval. Suas giras reuniam milhares de pessoas, e Seu Sete passou a ser tratado como figura pública, comentando temas do cotidiano e da política. Cacilda foi decisiva para a popularização e espetacularização da umbanda. Ao mesmo tempo, enfrentou acusações de charlatanismo e tentativas de controle institucional sobre sua prática espiritual.
Serviço: ‘Tetragrammater — O glamour midiático das mulheres de Deus’. Autores: Alberto Camarero e Alberto de Oliveira. Editora: Desacato. Páginas: 224. Preço: R$ 120.
