Fundamental para o equilíbrio do meio ambiente, o manguezal é um ecossistema único, rico em biodiversidade e cultura.
Está presente nas áreas costeiras, sendo encontrado em cartões-postais do Pará, como os municípios de Salinópolis e Bragança, por exemplo.
Para valorizar o sentimento de pertencimento e sustentabilidade da cultura do mangue, através da educação científica, pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolveram o livreto “Caranguejo-uçá: ciência com cheiro de mangue e maré”.
O material está disponível gratuitamente via link em formato digital (arquivo PDF).
A iniciativa foi inspirada no desejo de uma bolsista do Projeto de Iniciação à Docência do Laboratório de Ensino de Química da UFPA, Campus Ananindeua, de valorizar a cultura do mangue.
Ela é natural de São Caetano de Odivelas, município que fica no litoral do Pará e tem mais da metade do território coberto por manguezais.
A professora Janes Kened, docente da Faculdade de Química do Campus Ananindeua, orientou as discentes Rosiellen Soares e Vitória Santos na produção do livreto.
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Segundo Janes, o material surgiu do encontro entre ciência, formação docente, território, cultura e educação ambiental.
No Programa de Iniciação à Docência, os pesquisadores desenvolvem práticas de ensino e produtos educativos interdisciplinares voltados à formação docente, visando uma educação científica inovadora, contextualizada e inclusiva na escola básica.
“O material apresenta informações sobre o caranguejo-uçá, conecta conteúdos de Química, Biologia e Física com curiosidades no viés da sustentabilidade, estimulando uma abordagem sobre a coleta dos animais, a cultura da festividade local, alimentação e economia”, explica a professora.
Como acessar o livreto?
O material está disponível gratuitamente via link em formato digital (arquivo PDF), disponível na Plataforma EduCAPES: https://educapes.capes.gov.br/handle/capes/1132814
Caranguejo ensina sobre ciências da natureza
De nome científico Ucides cordatus e conhecido como caranguejo-uçá, a espécie apresenta distribuição desde a Flórida, nos Estados Unidos, até o litoral Santa Catarina, no Brasil, segundo publicação da Embrapa.
“Ele nos permite enxergar vários processos que acontecem no manguezal.
Ele participa da dinâmica da matéria orgânica, da decomposição e da ciclagem de nutrientes e, por meio da construção de suas galerias, também interfere nas características do solo e na circulação de água e gases”, detalha a professora da UFPA.
A mudança de coloração do caranguejo-uçá durante o cozimento surge por conta da astaxantina (C₄₀H₅₂O₄), um carotenóide presente na carapaça do caranguejo responsável pelas cores amareladas, alaranjadas e avermelhadas.
Na química, a carapaça do animal é utilizada e reaproveitada em várias aplicações, sendo utilizado para a produção da fibra natural Quitosana, obtida a partir da desacetilação da quitina com base (NaOH).
É usada como biopolímero biodegradável, adsorvente de metais pesados, e até em curativos
cicatrizantes.
“A partir dele conseguimos aproximar conceitos de Química e Biologia de uma realidade concreta.
Podemos falar, por exemplo, sobre a decomposição da matéria orgânica, em que restos de folhas e outros materiais são transformados e seus nutrientes retornam ao ambiente, e a ciclagem de nutrientes, que permite que elementos importantes sejam reaproveitados pelos organismos do manguezal”, explica Janes Kened.
Cultura do mangue
É no mangue, local onde o caranguejo-uçá é encontrado, que ocorre a ciclagem de nutrientes, o auxílio à proteção de áreas costeiras e a captura e armazenamento de carbono. Além da importância para a manutenção da biodiversidade, o mangue também representa alimentação, trabalho e renda para comunidades que têm uma relação histórica com o ambiente e dependem dele para a rotina diária.
Antes da chegada do caranguejo às mesas, o processo começa com os catadores, popularmente conhecidos como caranguejeiros.
São eles que vivem o mangue na pele, introduzindo os braços na lama, à procura da toca dos caranguejos para puxá-los vivos com as mãos.
“Existe o manguezal, o trabalho do caranguejeiro e toda uma cultura e um conhecimento tradicional envolvido.
Por isso, preservar o mangue significa zelar pelo ecossistema, pelos modos de vida, os saberes tradicionais e a própria identidade amazônica”, avalia Janes Kened.
Segundo a professora, quando folhas, galhos e outros restos de matéria orgânica se acumulam e são decompostos, os microrganismos realizam transformações químicas e daí surge o cheiro característico do mangue.
A pouca quantidade de oxigênio no solo favorece a formação de substâncias como o sulfeto de hidrogênio (H₂S), que está associado ao cheiro característico que lembra o “ovo podre”.
A ideia do livreto é devolver o conhecimento científico para a sociedade, utilizando uma linguagem acessível.
A professora conta que, para a construção, foram realizadas entrevistas com a comunidade e pesquisas bibliográficas.
O material pode ser utilizado
em escolas, projetos de educação ambiental e por comunidades que tenham interesse em
conhecer melhor o caranguejo-uçá e o manguezal.
No Laboratório de Ensino de Química da UFPA, Campus Ananindeua, existem mais de 50 materiais voltados à aproximação entre ciência, território, cultura e educação.
“Para nós, isso também representa o próprio sentido da formação docente universitária: a produção de conhecimento, a difusão e a valorização de saberes e práticas ancestrais.
É a ciência como aliada na leitura da diversidade ambiental amazônica”, pontua.
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de João Thiago Dias, coordenador do Núcleo de Atualidades
