Hospedada em um hotel na capital federal, a deputada estadual Linda Brasil (PSOL-SE) cumpre uma agenda de gabinete e articulação jurídica que pouco lembra a celebração do sucesso eleitoral. Primeira mulher trans eleita para a Assembleia Legislativa de Sergipe (ALESE) e a mulher mais bem votada no estado em 2026, com 44.384 votos, ela corre o risco de não assumir a cadeira que conquistou no voto popular.
O obstáculo não vem das urnas — onde se consagrou pela terceira vez consecutiva como a candidatura mais votada da capital, Aracaju —, mas de uma pendência burocrática acumulada há oito anos por seu parceiro de federação, a Rede Sustentabilidade. O nó jurídico da Federação
A crise teve início quando o Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe (TRE-SE) indeferiu em bloco todas as candidaturas a deputado estadual apresentadas pelo PSOL no estado. O motivo alegado foi a falta de prestação de contas da Rede referente ao pleito de 2018.
Embora o PSOL e a Rede atuem juntos nacionalmente em regime de federação, a deputada destaca que o braço local da Rede não apresentou candidatos no estado em 2026 e não possui diretório ativo no território sergipano desde 2025. “A lei das federações é clara no inciso II do artigo 2º: se um partido componente não está funcionando no estado, o outro não pode ser prejudicado”, argumenta Linda Brasil.
“Mesmo com três eleições passadas desde a pendência de 2018 (2020, 2022 e 2024), essa situação nunca veio à tona. Agora, na prática, a única prejudicada por esse indeferimento sou eu.
A federação não atingiu a cláusula de barreira, não obteve vantagem nem beneficia qualquer outro candidato.” Após a decisão do TRE-SE, a defesa da parlamentar recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O relator da matéria, ministro André Mendonça, manteve monocraticamente a decisão regional. Com recurso interposto, o julgamento foi pautado para o plenário do TSE no próximo dia 6, razão pela qual a deputada desembarcou em Brasília para despachar memoriais diretamente com os ministros.
Perseguição e a “Velha Política” Durante o pleito, a indefinição jurídica foi explorada por adversários como combustível para boicotes e campanhas de desinformação, que tentavam induzir o eleitorado a desacreditar da validade do voto em uma candidatura sub judice.
Para a deputada, no entanto, a insistência no indeferimento ultrapassa a frieza dos autos e toca no incômodo causado pela sua projeção política e pelo seu perfil independente. “Não nos rendemos à velha política.
Fiz uma campanha afirmando que sou uma deputada sem rabo preso com os poderosos de Sergipe. Além de ser uma mulher trans ocupando o espaço público, tenho uma prática política coerente com o discurso de defesa da classe trabalhadora e dos direitos humanos.
Isso incomoda os grupos tradicionais, e há um esforço evidente para tentar me tirar do jogo”, avalia. Ela sugere que a negligência partidária que culminou no problema foi acentuada pela sua posição singular: “Percebemos que houve uma negligência na fiscalização interna porque eu era a única pessoa no estado que seria diretamente impactada por esse cenário”.
Preservação da identidade no PSOL e horizontes no Executivo Questionada sobre o movimento de quadros proeminentes do campo progressista — como a deputada federal Erika Hilton, cuja transição do PSOL para o PT é cotada nos bastidores para o próximo ano —, Linda Brasil descarta mudar de legenda no curto prazo.
“Respeito a avaliação de cada parlamentar em seu contexto estadual, mas sinto tristeza por essa desarticulação. Em Sergipe, vejo o PSOL como a única alternativa política que se mantém estritamente fiel aos princípios que defendo.
Permanecer no partido é uma questão de coerência com a minha trajetória.” A parlamentar também revelou suas ambições nacionais e locais.
Embora tenha optado por disputar novamente a Assembleia Legislativa em vez da Câmara dos Deputados em 2026, para consolidar o trabalho de esquerda no estado, ela projeta voos mais altos. “Tenho a pretensão de, no futuro, ser a primeira senadora trans e travesti do Brasil”, declarou.
Caso o TSE mantenha o indeferimento e o STF não reverta a decisão, Linda descarta a ideia de interrupção da carreira política. Ela enxerga o impasse como combustível para a disputa de cargos no Executivo municipal e estadual.
“Se isso acontecer, não será o fim. O povo sergipano não gosta de injustiça.
Já nas eleições de 2024 havia uma cobrança da população por uma candidatura nossa à Prefeitura de Aracaju. Se tentarem me tirar da Assembleia, o desdobramento natural será pensar em algo maior, seja a prefeitura ou o governo do estado”, conclui.
A mobilização da parlamentar em Brasília ocorre sob a chancela do manifesto popular “O Povo Decidiu, a Vaga é de Linda Brasil”, com o qual a defesa espera sensibilizar a Corte Eleitoral a aplicar a jurisprudência que preserva a soberania do sufrágio popular.
Brasil 247