Limpeza no apartamento e novas marcas no corpo: as revelações no caso da PM morta no Brás
Além de um testemunho com inconsistências e do descumprimento de recomendações dos investigadores, o caso da policial militar Gisele Alves, encontrada morta no apartamento onde vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, no bairro do Brás, na região central de São Paulo, ganhou novos desdobramentos. De acordo com testemunhas, três policiais militares foram ao imóvel horas após a ocorrência para limpar o local — o que pode ter comprometido a preservação da cena.
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Conforme apurou o G1, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 do dia 18 de fevereiro, mesmo dia em que Gisele foi baleada, e entraram no apartamento acompanhadas por uma funcionária do edifício. As policiais foram identificadas como uma soldado e duas cabos. A eventual alteração do ambiente é um fator que pode ter prejudicado o trabalho dos investigadores.
O fato soma as inconsistências que fizeram o caso deixar de ser tratado como suicídio, conforme alega o marido, e passase a ser investigado como suspeito.
Questionada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) pontuou que o caso é investigado pela corregedoria da PM e que "a instituição não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e ressalta que, caso seja constatada qualquer ilegalidade, as medidas cabíveis serão adotadas"
Exames realizados após a exumação do corpo também trouxeram novos elementos para a apuração. Peritos identificaram marcas na região do pescoço de Gisele. Agora, foram solicitados exames complementares para verificar se houve algum tipo de compressão na área antes do disparo que matou a policial. O laudo oficial ainda deve levar alguns dias para ser concluído.
A investigação ganhou novos contornos após a divulgação de imagens e áudios que mostram os momentos logo após o disparo dentro do apartamento. O material inclui ligações feitas aos serviços de emergência e registros das câmeras de segurança do andar do prédio.
O primeiro pedido de socorro foi feito pelo próprio tenente-coronel Geraldo Neto, em ligação para a Polícia Militar.
— Alô. É o tenente-coronel Neto, estou no Brás. A minha esposa é policial feminina, ela se matou com um tiro na cabeça. Manda um resgate, uma viatura aqui agora, por favor — disse.
Pouco depois, ele também telefonou para o Corpo de Bombeiros.
— A minha esposa se matou com um tiro na cabeça. Ela ainda está viva, ela está respirando — afirmou.
Imagens das câmeras de segurança mostram o oficial no corredor do andar. Às 8h02, ele aparece ao telefone, sem camisa. Três minutos depois, faz outra ligação. Às 8h13, três bombeiros chegam ao local.
Um dos socorristas, relatou em depoimento ter estranhado a cena e decidiu fotografá-la. Segundo ele, a arma estava encaixada na mão de Gisele de uma forma incomum para casos de suicídio.
Outros elementos também chamaram a atenção. O sangue já estaria coagulado e o cartucho da bala não foi encontrado. Embora o tenente-coronel tenha afirmado que estava no banho no momento do disparo, ele estaria seco e não havia água no chão do apartamento.
Áudios gravados durante o atendimento também registram o oficial comentando sobre a crise no relacionamento do casal.
— A gente está casado há dois anos. De seis meses para cá, a gente começou a ter muita crise — afirmou.
Segundo ele, os dois estavam sozinhos desde a noite anterior e haviam discutido a relação.
— O jeito que a gente está vivendo não compensa. Eu estou gastando aí sete mil por mês para viver com dois estranhos. Eu quero me separar — relatou.
De acordo com o tenente-coronel, a discussão continuou na manhã do episódio.
— Eu entrei no banho. Fazia um minuto que eu estava debaixo do chuveiro quando escutei o barulho. Achei que fosse ela batendo a porta. Quando abri o box, ela estava caída no chão, no sangue. Ela deu um tiro na cabeça — disse.
Os socorristas conseguiram reanimar a policial no local. Enquanto tentavam salvá-la, relataram que o marido permaneceu ao telefone com superiores e não demonstrava desespero.
Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio ainda com vida, em uma maca. O tenente-coronel aparece sentado no corredor.
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi uma ligação feita por Geraldo Neto naquela manhã para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O magistrado chegou ao prédio às 9h07. Os dois subiram juntos para o apartamento.
O advogado da família de Gisele afirma que quer entender por que o desembargador foi acionado.
— Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo — disse o advogado José Miguel da Silva Junior.
Às 9h18, o desembargador reaparece no corredor. Onze minutos depois, o tenente-coronel surge com outra roupa.
Testemunhas relataram que, nesse intervalo, ele teria tomado banho, mesmo após orientação de policiais para que não o fizesse. Policiais militares que participaram da ocorrência também afirmaram que o oficial voltou com forte cheiro de produto químico.
Laudos da Polícia Técnico-Científica indicam que a cena do crime não foi preservada corretamente, o que teria prejudicado o trabalho pericial para determinar a dinâmica do disparo.
Um vídeo gravado após a saída dos socorristas mostra o apartamento com móveis fora do lugar, panos e produtos de limpeza espalhados pelo chão.
Outro ponto levantado pelos investigadores aparece no depoimento de uma vizinha. Ela afirmou ter acordado às 7h28 com um estampido forte. A primeira ligação do tenente-coronel pedindo socorro foi registrada apenas às 7h57 — cerca de 29 minutos depois.
Em nota, a defesa de Geraldo Neto afirmou que, até o momento, ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo e que tem colaborado com as autoridades desde o início das investigações. A defesa também disse confiar na apuração dos fatos.
Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.
