Liga única no Brasil volta ao debate com xadrez político envolvendo Brasília, blocos, CBF e clubes

 

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Passada a última Data Fifa antes da Copa do Mundo, a CBF e os clubes brasileiros se debruçam no debate que ganha corpo sobre a formação de uma Liga única no país. Na próxima segunda-feira, a entidade reúne em sua sede no Rio dirigentes das equipes das Séries A e B e das federações estaduais, sem a presença dos executivos que debatem o modelo econômico dentro de dois blocos, a Libra e a FFU. A visão dos dois lados em relação às intenções do movimento da CBF com o encontro é distinta, mas ambas as partes concordam que por trás dele está uma articulação que começa em Brasília e tem em Francisco Mendes, filho do ministro Gilmar Mendes e vice-presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso, a figura central.

Francisco é diretor-geral do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado pelo pai e que tem parceria com a entidade para gerir o CBF Academy, programa educacional da entidade. Com cada vez mais atuação política dentro da entidade, ele desponta como mais cotado para suceder Samir Xaud, cujo mandato como presidente da CBF vai até 2029.

O vice de Samir, Gustavo Dias, é quem executa esse xadrez político entre cartolas e políticos. Além de reformular arbitragem e fair play financeiro, agora a CBF influencia as decisões de clubes e dirigentes para retomar o protagonismo em relação à Liga e seus direitos.

A leitura da Futebol Forte União é de que a CBF atua para preservar seu controle político e estrutural sobre o futebol brasileiro, dificultando o avanço de uma liga independente e com novos investidores. O grupo vê com desconfiança a proposta da entidade de liderar o processo, entendendo que, na prática, a iniciativa busca centralizar decisões e manter influência sobre a organização e a comercialização das competições. A avaliação é de que a reunião do dia 6 de abril tende a ter caráter institucional, com a apresentação de um documento genérico de apoio aos clubes, sem avanços concretos na criação de uma liga autônoma. A ausência dos executivos dos blocos reforça essa percepção, já que são eles os responsáveis pelas discussões mais profundas sobre o modelo econômico.

Controle em disputa

Presidentes de Palmeiras, Leila Pereira, e da CBF, Samir Xaud

Reprodução Redes Sociais

Sem a CBF à frente, os clubes poderiam operar de forma mais independente, especialmente na gestão e comercialização dos direitos. Por isso, a interpretação é de que a entidade trabalha para evitar esse cenário e manter seu protagonismo no futebol nacional. Fato é que não existe uma liga dentro das federações nos países em que o modelo vingou mundo afora. Normalmente, a Liga se cria independente da federação do país. No mundo todo, a federação cuida da seleção nacional. E a Liga, dos clubes. A Argentina é exceção, e o fracasso comercial é atribuído justamente à conjuntura política. Desde 1987 e posteriormente com a Lei Pelé, em 1998, são os clubes que vendem seus direitos comerciais no Brasil.

Na Libra, o discurso passa por aí. Que é a CBF que precisa representar os direitos dos clubes, não outros investidores. Desde a gestão de Ednaldo Rodrigues, falava-se que o ambiente de criação de uma Liga se daria com a harmonia entre os clubes e posterior entrada da CBF no circuito. Antes do Mundial de Clubes no ano passado, um Memorando de Entendimento com a então Liga Forte União e a Libra quase foi assinado, mas precisava do "ok" da CBF. Os clubes da Libra já entendiam que a entidade deveria ter um papel a cumprir além das questões de arbitragem e fair play. Por ceder seu campeonato, também seria remunerada, como um "player" organizacional, de alinhamento entre os dois blocos. A entrada tardia se deu por supostamente querer mediar uma Liga, não uma briga econômica. Com as arestas financeiras aparadas dentro dos blocos nas últimas semanas, a entidade se anuncia como solução.

Palmeiras e Flamengo: papéis decisivos

Presidente do Flamengo, Bap, e da CBF, Samir Xaud

Flamengo

Os clubes mais fortes economicamente, como Palmeiras e Flamengo, são vistos como aliados de momento na entidade. O Palmeiras é o clube com maior alinhamento político. Em maio, houve um acordo jurídico da Libra e da FFU para os dois grupos venderem propriedades conjuntamente. A FFU aprovou, mas Leila Pereira vetou na Libra. Disse que conversou com a CBF, que não queria que assinassem. Recentemente, a dirigente foi liberada por Gilmar do depoimento da CPI do INSS, como presidente da Crefisa. O ministro também concedeu o direito de Leila permanecer em silêncio, em caso de comparecimento

No Flamengo, o objetivo nos bastidores é não sair em desvantagem na Libra. A atual gestão do clube achou a divisão de receitas ruim e busca um cenário de consenso. Mas sabe que esse movimento não vai ser definitivo na CBF por enquanto. Se os blocos perdem força, o Flamengo não se abala, pois sobreviveria na questão financeira. Há um entendimento unânime na diretoria rubro-negra que as propriedades comerciais do clube não serão cedidas para a CBF. Mas atacar a entidade, agora, não é interessante.

Com Palmeiras em defesa da CBF e o Flamengo observando, os blocos não veem outro clube com força política e econômica para questionar o atual cenário de centralização. O Grêmio se aproximou da troca da Libra pela FFU, mas a diretoria gaúcha foi demovida por pressão nos bastidores. O recado da CBF é que ela vai trabalhar para resolver em prol de todos. Os clubes da Série B Náutico e São Bernarado fecharam acordos comerciais através da entidade foram exemplo. Na Libra, essa intervenção é concedida. O bloco vê a FFU refém de investidores. E os clubes aceitam que a CBF faça essa governança, sem o partilhamento de direitos. A CBF, por sua vez, não quer dividir o futebol brasileiro com outra empresa, apenas com os clubes. Procurada, a entidade não retornou os contatos.