Líder militar dos EUA apresenta ressalvas sobre ataque ao Irã, mas decisão ficará com genro e enviado especial de Trump

 

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Há semanas, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem reiterado que o prazo para o Irã fechar um novo acordo nuclear está perto de se esgotar, ameaçando inicialmente que "coisas ruins" ocorreriam com a nação persa em caso de fracasso das tratativas diplomáticas. O termo vago evoluiu, na última sexta-feira, quando o republicano admitiu que estava avaliando "ataques limitados" contra o território iraniano — um plano que, segundo fontes ligadas ao governo americano, foi visto com ressalvas pelo chefe do Estado-maior do Pentágono, general Daniel Caine, mas cujo destino destino deve ser definido pela avaliação final da dupla de confiança de Trump: Jared Kushner, seu genro, e Steve Witkoff, seu principal negociador.

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O papel central da dupla nomeada para chefiar as negociações indiretas com o Irã na confirmação ou não do ataque foi apontado por fontes americanas ouvidas pelo jornal britânico The Guardian. Os dois deverão avaliar, após uma nova rodada de negociações mediadas por Omã nesta quinta-feira, se Teerã está de fato engajado em abrir mão de suas capacidades de enriquecer urânio para fechar um possível acordo ou se as tratativas são apenas uma forma de protelar. A opinião da dupla deve ser decisiva na tomada de decisão final por Trump.

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Kushner e Witkoff ocupam um lugar elevado na atual administração republicana, tendo atuado como representantes de Washington em uma série de negociações internacionais de alto-perfil, da América Latina à Rússia. Trump privilegiou a confiança nos aliados próximos em detrimento de profissionais de carreira, como diplomatas e funcionários públicos, em uma estratégia que expõe o valor dado pelo presidente às relações pessoais, flexibilidade política e lógica empresarial. Por outro lado, nunca uma participação dos escolhidos parece ter sido tão decisiva em tema de segurança e defesa — podendo entrar em conflito com a opinião técnica do comando militar.

Embora Trump tenha afirmado na segunda-feira que o chefe do Estado-maior conjunto das Forças Armadas americanas acredita que qualquer eventual ação ordenada contra o Irã seria "algo vencido com facilidade", fontes ouvidas por jornais americanos como o New York Times e o Wall Street Journal afirmaram que o prenúncio de vitória fácil atribuído pelo republicano ao general Caine não corresponde ao exposto pelo militar em reuniões recentes a portas-fechadas.

Os interlocutores, que tiveram acesso às reuniões realizadas sobre o Irã, afirmaram que o general tem sido cuidadoso ao não expor suas opiniões pessoais ou a respeito da decisão política sobre a ação, limitando-se a apresentar os prós e contras de cada tomada de decisão, com base na configuração estratégica. Caine teria afirmado em um dos encontros recentes que a força concentrada pelos EUA ao redor do Irã seria suficiente para um ataque "pequeno ou médio porte", mas que isso também abriria as portas para uma represália iraniana com possíveis impactos negativos.

Gen. Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, no Capitólio, em Washington, em 3 de setembro de 2025

Eric Lee/The New York Times

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As ressalvas apresentadas por Caine incluiriam o risco dos EUA ficarem presos a um conflito de longo prazo após a primeira agressão militar; a possível perda de vidas americanas, sobretudo diante de um cenário de falta de apoio firme entre os aliados para a ação; e na escassez de munição, sobretudo de artilharia antiaérea. Apesar do reforço reportado nos últimos dias, a reação contida do Irã após os bombardeios americanos em junho do ano passado forçaram o disparo de 30 mísseis Patriot para interceptar o contra-ataque — o maior uso individual desses mísseis na história dos EUA. As forças iranianas prometeram uma "resposta feroz" em caso de um novo ataque neste momento.

Em uma publicação nas redes sociais ainda na segunda-feira, Trump reputou como mentiras os relatos da imprensa americana sobre as advertências de Caine contra a intervenção militar no Irã. O presidente disse que o general "preferiria não ver uma guerra", mas reafirmou que a avaliação do militar é de que seria "fácil vencer".

"Ele não falou em não atacar o Irã, nem sequer sobre os falsos ataques limitados sobre os quais tenho lido; ele sabe apenas uma coisa, como VENCER e, se lhe disserem para fazê-lo, liderará a ofensiva", escreveu o republicano.

Posição de meios militares dos EUA no Oriente Médio

Arte/ O GLOBO

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O presidente americano tem dado sinais de incômodo com a resistência iraniana em ceder às suas exigências, mesmo após o envio de uma "Armada" para a região próxima ao Oriente Médio que já superou em poder bélico a mobilização no Caribe, ordenada no ano passado. Tanto fontes ouvidas em anonimato quanto integrantes do governo em declarações públicas demonstraram o que parecem ser receios do republicano.

Fontes ouvidas pela CBS News nesta terça-feira afirmaram que Trump teria demonstrado frustração com a influência limitada exercida pela escalada militar que ele mesmo liderou. No fim de semana, o enviado especial Witkoff afirmou em entrevista à rede americana Fox News que o presidente estaria "curioso" sobre as razões do Irã não ter cedido à pressão.

Analistas apontam que o momento atual é visto como de ameaça existencial pelo regime teocrático do Irã. Os clérigos autoritários veriam possíveis concessões aos EUA como um fator a comprometer sua ideologia central e soberania — uma ameaça maior à sua sobrevivência do que o risco de guerra.

Teerã afirmou repetidamente que não tem interesse em desenvolver armas nucleares — embora tenha aumentado, antes dos ataques americanos no ano passado, o enriquecimento de urânio a níveis muito acima do necessário para programas nucleares de uso civil — e que a via diplomática é desejável. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, prometeu apresentar uma primeira versão de um acordo com os EUA. Espera-se que o texto seja discutido na quinta-feira. (Com AFP e NYT)