Letrux: ‘Quando canto em inglês, tem qualquer coisa equivocada que me interessa muito mais do que a perfeição’
Letícia Pinheiro de Novaes, a Letrux, de 44 anos, tem curtido ultimamente morar no bairro carioca da Urca, onde já viu até um dos seus moradores mais ilustres, Roberto Carlos, dirigindo a toda o seu conversível.
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E, de tanto passar pela frente do prédio que abrigava o Cassino da Urca, ela acabou se apaixonando pela figura da cantora Carmen Miranda (1909-1955), outra moradora do bairro, estrela de noites antológicas no palco da casa de jogatina.
— As pessoas olham para mim, sou alta, loura, mas quando começo a falar inglês, elas dizem: “Cara, tu tem um outro raciocínio!” É Broken English total. E quando eu vejo os filmes da Carmen Miranda, ela também tem um inglês meio assim — acredita a cantora e compositora carioca, que lançou no último dia 27 seu quarto álbum como Letrux, “SadSexySillySongs”. — Quando canto em inglês, tem qualquer coisa equivocada que me interessa muito mais do que a perfeição. Mas eu preciso ter pessoas excelentes em minha volta para que eu me sinta tranquila em fazer as maluquices. Aquelas que, geralmente, a Carmem também fazia.
Pela primeira vez, Letícia começou a fazer um disco a partir do título.
— Eu falei: “Cara, acho que eu não quero mais tanta espontaneidade, quero uma regra, quero um jogo!” — explica. — Eu tenho muito caderninho, papelzinho e gosto muito de aliteração. Algum dia em 2023 eu escrevi: Sexy, sad (triste), silly (bobo), small (pequeno). Mas ia ser too much. Aí eu tirei o small. Depois, a gente percebeu também que os três discos de Letrux, eles se encaixam ali. Porque o “Em noite de climão” (de 2017) foi sexy, “Aos prantos” (2020) foi triste e “Como Mulher Girafa” (2023) foi uma bobagem. Esse novo disco fecha uma trilogia.
Capa de "Sad sexy silly songs", álbum da cantora e compositora Letrux
Reprodução
E quais músicas do disco são o quê? Ela prefere deixar no ar.
— De alguma maneira, eu considero “Ciúme me dá frio” silly, mas ela é meio triste, ela tem um arranjo menor. Quando ouço essa letra “sempre que ela passa / eu ponho meu casaquinho”, eu penso em coisa boba, mas as pessoas podem achar ela triste. Então, fica para cada um — recomenda.
Leticia achou que o formato ideal para “SadSexySillySongs” (no qual fez parcerias de composição com Jadsa, Bruno Capinan, Mahmundi e outros artistas) era mínimo: apenas voz e violão. E decidiu entregar a produção a Thiago Rebello, baixista de banda desde o início do projeto Letrux, com o “Climão”.
— Ele teve uma percepção da minha voz que outras pessoas talvez ainda não tivessem tido, de alguma possibilidade de mudar o canto —observa. — Além disso, o Thiago é um bom violonista, quase um erudito.
Depois, com o produtor, ela percebeu “que as músicas sexy mereciam um beat, uma gracinha a mais que não só voz e violão”. E voltaram (um pouco) atrás no formato sonoro do disco, acrescentando batidas e sintetizadores em algumas faixas.
— Mas mesmo quando tem um beat acontecendo, você lembra do violão como um personagem forte. Foi uma surpresa muito bonita perceber que dava para chegar esse resultado só com violão, tentar imaginar a minha voz mais pura, sem tanta loucura sonora... que eu amo também.
E, como se poderia esperar, “SadSexySillySongs” tem uma boa quantidade de letras em inglês.
— Acho que a partir desse título, ficou difícil também não ter, né? Tenho facilidade em compor, e me parece natural também compor em inglês. A gente consome muita música em inglês. E, como gosto muito de fazer show na Europa, sinto que eu preciso ter outros coelhos na cartola, já que a comunicação nas letras em português não existe — argumenta. — Tem muito inglês ali que está errado. Algumas vezes eu perguntei para o ChatGPT: “Isso está certo?” E ele: “Não, mas poeticamente...”. Então, assumi vários erros linguísticos pela graça do silly poético.
Em “SadSexySillySongs”, Leticia brincou bastante com a composição. Mas não se afastou dos seus princípios de escrita.
— Ainda assim, se eu fizer um livro com as minhas letras, todo mundo vai ler aquilo quase como se fossem crônicas, prosa. Não é poesia — admite. — Acaba que as letras são muito autobiográficas. Eu tento não ser, mas aí chega uma hora em que eu falo: “Ai, é difícil não passar por alguma experiência!” Um dia ainda vou amadurecer e vou fazer músicas não sobre mim. Mas, por enquanto, ainda é difícil.
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Logo depois da estreia do show de “Como Mulher Girafa”, Letícia diz, “tive um tumor na barriga, tirei um ovário, aí fiquei um tempo out, não pude fazer muito show”. Em 2025, ela comemorou com um espetáculo os seus 20 anos de carreira e lançou um livro de contos, “Brincadeiras à parte”. Consciente de que é uma artista dos palcos médios — não mais do underground, mas ainda não do mainstream —, ela investiu uma formação pequena para o show de “SadSexySillySongs”: apenas Thiago Rebelo e Cristiane Ariel nos violões.
— A gente quer tocar o disco todo na íntegra, só que como ele é um disco curto, a gente vai trazer algumas músicas de outros discos de uma maneira minimal, quase um Acústico MTV. E também sempre gosto de botar músicas do mundo, no que eu não chamo de cover, mas de releitura. Todo show a gente sempre faz essa gracinha — adianta ela, que estreou o espetáculo sábado no Sesc Pinheiros (São Paulo) e chega com ele ao Rio no dia 6 de maio, no Teatro Claro Mais, em Copacabana.
