Globo quis dar ao debate entre Lula e Flávio Bolsonaro um tom propositivo que a campanha não teve ao longo dos meses No último evento eleitoral antes do segundo turno deste domingo, a Rede Globo quis promover um debate centrado em ideias entre os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro.
A emissora organizou as perguntas por regiões do país e selecionou previamente temas como SUS, ensino integral, dívida pública e retomada de territórios das facções criminosas. Tentou dar ao evento o tom propositivo que a campanha não teve ao longo dos meses.
Não poderia dar certo. Desde que assumiram suas candidaturas, Lula e Flávio Bolsonaro se esquivam de explicar como implementarão seus programas políticos, por um motivo importante: quem for eleito terá de lidar com a crise fiscal brasileira, o que requer tomar medidas impopulares, com as quais nem um nem outro ousou se comprometer.
Fica difícil detalhar propostas sem falar de onde virá o dinheiro. Por isso, o discurso político foi sempre de uma vagueza aflitiva.
Idem nesta sexta. Sobrou lero-lero, faltaram propostas articuladas de maneira objetiva e honesta.
O debate da Globo ressaltou um dos traços da campanha de 2026: sua vacuidade. Muito criticado, o debate realizado pela Band no último domingo foi menos engessado, mais vivo.
Capturou bem o espírito selvagem da política brasileira atual. Não buscou profundidade onde ela não existe.
No que interessa aos candidatos, ninguém sofreu nem desferiu um golpe fatal ao longo das quase três horas de embate. Lula seguiu uma estratégia: procurou apresentar Flávio como alguém que desconhece o Brasil e representa um grupo político indiferente aos pobres.
Foi um pouco mais eficaz nos seus ataques do que no debate anterior. Por exemplo, levou o senador a pedir desculpas por ter votado contra a ampliação da licença-maternidade no passado.
Mas o presidente teve dificuldades para seguir as regras do jogo. Recebeu auxílio do mediador César Tralli em mais de uma ocasião, para usar todo o tempo de que dispunha.
Numa discussão sobre ensino integral, quis tratar de educação de maneira genérica, sem se ater ao tema delimitado. Flávio se mostrou bem treinado.
Embora Lula o tenha acusado de fugir dos assuntos, raramente fez isso. Deu respostas suscintas e conseguiu mencionar diversos tópicos de seu programa de governo.
Como na Band, repisou os temas-chave da segurança e da prosperidade que promete aos eleitores. Foi menos agressivo que no debate da anterior, mas cometeu um deslize ao usar a expressão “nove dedos” para se referir a Lula e acabou se retratando.
Esse tipo de programa, é bom lembrar, não serve para os candidatos pregarem aos convertidos, mas para tentarem conquistar votos novos. É improvável que isso tenha acontecido em números significativos, seja para Lula, seja para Flávio.
Não houve nada no debate com força para mudar o rumo da eleição. Infraestrutura e exportações abriram o debate.
Flávio questionou Lula sobre obras paralisadas e prometeu concluir a Transnordestina, ampliar concessões rodoviárias e levar conectividade ao campo. Lula respondeu com os investimentos do PAC e acusou o adversário de decorar informações sem compreender o país.
Na pergunta sobre o Sudeste, o presidente reivindicou os resultados da política de valorização do salário mínimo e cobrou uma posição sobre tarifa zero nos fins de semana. Flávio deslocou a discussão para o custo de vida, os impostos e a redução do tamanho das embalagens de produtos.
Foi nesse trecho que fez a referência aos “nove dedos”, retomada por Lula no bloco seguinte. O Centro-Oeste serviu de ponto de partida para o embate sobre o agronegócio.
Flávio acusou Lula de hostilizar o setor e criticou a burocracia, os juros e as restrições a recursos do crédito e do seguro rural. O presidente contrapôs investimentos, exportações e abertura de mercados, além de mencionar o crédito subsidiado dos bancos públicos.
Ao tratar do Sul, Lula perguntou se Flávio reajustaria aposentadorias e benefícios e tentou associá-lo ao modelo de Javier Milei. O senador prometeu aumentos das aposentadorias acima da inflação, afirmou que não privatizaria bancos públicos e acusou o governo de abandonar a região nas enchentes.
No Norte, Flávio defendeu o marco do saneamento, prometeu investimentos e reafirmou a manutenção da Zona Franca de Manaus, com expansão para novas atividades. Lula evocou a crise de oxigênio em Manaus na pandemia e acusou o governo Bolsonaro de desproteger a Amazônia.
O Nordeste encerrou o bloco. Lula enumerou obras, universidades e investimentos industriais e disse que a região havia conquistado cidadania.
Flávio prometeu governar também com adversários políticos, reforçar a segurança e preservar temporariamente o Bolsa Família para beneficiários que consigam emprego. A discussão sobre políticas sociais produziu um dos momentos mais fortes de Lula.
Questionado sobre seu voto contra a ampliação da licença-maternidade, Flávio reconheceu que hoje votaria de outra maneira. O presidente explorou a mudança de posição e a vinculou ao período eleitoral.
Lula também exigiu desculpas pela referência à sua deficiência física. Flávio respondeu: “Se te ofendi, peço desculpas”, antes de retomar ataques sobre benefícios sociais, violência contra as mulheres e endividamento.
Na discussão sobre dívida pública, o senador responsabilizou o governo pelos juros elevados e prometeu comprar dívidas, com períodos de carência para pessoas físicas e empresas. Lula questionou a independência do Banco Central e disse que o adversário copiava iniciativas de sua gestão.
Defendeu o crescimento econômico como caminho para melhorar as contas e a renda dos mais pobres, sem detalhar como conciliaria esses objetivos. No tema da saúde, Lula cobrou explicações sobre declarações atribuídas ao escolhido de Flávio para o setor, Claudio Lottenberg, a respeito do financiamento do SUS.
O senador prometeu investimentos, criticou filas, falta de medicamentos e valores da tabela de procedimentos, citando a experiência paulista. O presidente voltou à atuação do governo Bolsonaro na pandemia e ao papel dos profissionais do sistema público.
Flávio retomou o endividamento das famílias para acusar Lula de prometer prosperidade e entregar dívidas. Apresentou a ideia de transformar a Caixa num “banco da prosperidade”, voltado também aos empreendedores das favelas.
Lula defendeu as edições do Desenrola e anunciou uma nova iniciativa para comprar dívidas e retirar devedores dos cadastros de inadimplência. A pergunta sobre ensino integral começou com a dificuldade do presidente em se ater ao assunto.
A discussão passou por acusações sobre cortes de recursos e pela responsabilidade pela expansão das apostas. Flávio afirmou que manteria o Pé-de-Meia e prometeu auxílio-creche, ensino técnico no contraturno, formação em inteligência artificial e parcerias entre escolas e empresas.
Na segurança, o senador cobrou Lula sobre saidinhas, redução da maioridade penal e classificação de facções como organizações terroristas. O presidente respondeu mencionando a morte de uma menina de cinco anos e questionou a defesa, pelo adversário, de um policial envolvido no caso.
Flávio atribuiu o avanço do crime à política do governo e às falhas no controle das fronteiras. Lula retomou as acusações sobre relações com milicianos e rejeitou a ideia de subordinar o combate às organizações criminosas à atuação dos Estados Unidos.
Com tema livre, o debate perdeu de vez o verniz propositivo. Lula questionou Flávio sobre uma disputa envolvendo uma ilha e o jogador Richarlison.
O senador negou envolvimento e respondeu com a acusação sobre um uísque de alto valor recebido pelo presidente. Vieram, em seguida, referências a negociações de vacinas, ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, ao Banco Master, a Daniel Vorcaro e a relações de pessoas próximas ao governo com empresários.
As negativas e contra-acusações se sucederam sem que os episódios fossem esclarecidos. Lula propôs que ambos abrissem suas contas e seus sigilos no TSE.
Flávio respondeu com acusações de ocultação de patrimônio. O acúmulo de casos diluiu o impacto dos ataques: cada denúncia era rapidamente soterrada pela seguinte.
Nas considerações finais, Lula pediu desculpas pelo que os eleitores haviam ouvido, evocou sua história de trabalhador e apresentou a eleição como uma escolha entre a continuidade democrática e a chegada de um miliciano ao Planalto. Flávio prometeu combater as milícias, recuperar o poder de compra e devolver segurança e liberdade aos brasileiros.
Encerrou com um apelo religioso para a decisão de domingo. Depois de tantas promessas e acusações, os dois deixaram ao eleitor a tarefa de preencher as lacunas de seus projetos.
O Antogonista