Leandra Leal fala de sua relação com o corpo: 'Passei a enxergá-lo como fonte de experiências e de prazer'
Nem a chuva insistente de uma tarde de verão carioca nem a conversa barulhenta da mesa ao lado, num café no Jardim Botânico, abafaram a fala potente da atriz e diretora Leandra Leal, durante uma hora e meia de entrevista olho no olho. A intérprete de Zilá, a vilã de “Coração acelerado”, novela da faixa das sete, da TV Globo, escolhe as palavras com cuidado, revirando o sentido das frases, para nada ficar mal-entendido. A atriz, de 43 anos, sabe o que deseja ressaltar depois de mais de três décadas de carreira — o início da trajetória profissional foi uma participação em “Pantanal” (1990), aos 7 anos. Suas opiniões sobre os temas que a movem — arte, maternidade, educação, carnaval e corpo — são cristalinas.
Maiô e chemise Adriana Degreas. Joias Maria Eulália e brincos Paola Vilas
Marcus Sabah
Ao retornar às novelas depois de um hiato de quase 12 anos (a última foi “Império”, de 2014), revela habilidade para lidar com o tradicional malabarismo de mulheres com filhos pequenos. Mãe de Julia, de 11 anos, da relação com o gestor cultural e comunicador Alê Youssef (encerrada em 2018), e de Damião, de um ano e meio, do casamento com o fotógrafo Guilherme Burgos, encara com naturalidade. “Sofro ao sair de casa, mas amo meu trabalho, é um lugar de realização”, avalia.
E é esse amor que faz com que enfileire projetos na TV, no teatro e no cinema. Um deles é o lançamento, neste ano, do documentário “Nada a fazer”, feito ao lado da mãe, a atriz Ângela Leal, durante a pandemia. O longa, no qual atua e dirige, recebeu o Prêmio Especial do Júri — Novos Rumos, no Festival do Rio do ano passado. Também está no elenco do filme “Antárdita”, dos Estúdios Globo, como a médica Marina, e na série “Emergência radioativa”, da Netflix, ambos com estreia prevista para 2026. Ainda planeja um filme sobre a vida da atriz Bete Mendes, ajuda a mãe a tocar o Teatro Rival, que pertence à família, e é sócia da unidade carioca da escola afro-brasileira Maria Felipa. Nas poucas horas vagas, prepara-se para viver “a melhor época do ano”. “Carnaval é resistência. Quem dera o Brasil pudesse sustentar o espírito carnavalesco o ano inteiro”.
A seguir, os melhores trechos da entrevista:
Como é voltar às novelas depois de tanto tempo e sendo mãe de filhos pequenos?
É um drama muito feminino em qualquer profissão. Não sou especial por ser atriz e fazer novela. São onze horas de trabalho por dia no modelo 6X1, o Brasil é 6X1. A primeira infância é um momento especial. Ter um filho é colocar fé na Humanidade. Mães, pais e cuidadores deveriam ser mais bem cuidados na primeira infância, merecem um agradecimento da sociedade. Tive a possibilidade de ficar um ano com o Damião e voltar aos poucos, sei que é um privilégio. A licença deveria ser familiar.
O que mudou nas novelas em mais de uma década?
Os folhetins sempre trouxeram para a TV diversas pautas, basta a gente lembrar de “Saramandaia”, de Dias Gomes, na década de 1970, e das tramas de Gloria Perez. As novas vozes que surgiram nos últimos anos impactaram positivamente a produção audiovisual. Antigamente, havia poucas mulheres que trabalhavam como câmeras. Hoje temos diversas na área técnica, na fotografia. Outro dia, no estúdio, observei justamente isso: mais da metade da equipe técnica era feminina. Isso é muito maneiro.
Você, no passado, passou por situações de assédio, no trabalho ou na vida?
Minha mãe é uma figura que me educou para eu ter facilidade de dizer não e impor limites. Estaria mentindo se falasse que passei por uma situação de assédio. O abuso que posso apontar é em relação ao corpo feminino. No passado, não existiam coordenadores de intimidade no audiovisual. Era delicado para uma atriz jovem ficar nua em cena. Mas fiz um filme, do Murilo Salles, chamado “Nome próprio” (2007), em que aparecia sem roupa, e aquilo fazia todo sentido. Mas tem de ser sempre uma escolha da atriz, não uma imposição.
Em um vídeo publicado em 2024 no Instagram, você compartilhou a pressão estética sofrida ao longo dos anos. Como se sente hoje, em tempos de canetas emagrecedoras?
A atriz Leandra Leal usa top NV Nati Vozza, brincos Gila e calça Riachuelo. Anéis Maria Eulália Joias
Marcus Sabah
Uma das coisas boas que a pandemia me ensinou foi cultivar gratidão pela vida. A crise sanitária mudou minha relação com o corpo, passei a enxergá-lo como fonte de experiências e de prazer. Ainda não recuperei a minha forma física de antes da gravidez, e estou de boa. Vejo mulheres que acabaram de ter filho com pressa para retornar à antiga silhueta, se submetendo a cirurgias plásticas. Não julgo, mas essa não é a minha escolha. Algumas pessoas falaram que eu deveria emagrecer para a novela, mas a personagem não exigia isso e não quis colocar em risco minha saúde com canetas emagrecedoras. Tem mais: a pessoa, para ser desejada, precisa se curtir. Energia de gostosa não vende no Mounjaro.
Como está se preparando para a entrada da Julia na adolescência, numa sociedade tão racista?
Desde que a Juju chegou, comecei um letramento racial. Descobri que, como mulher branca, inserida numa sociedade racista, se não for ativamente antirracista, sou racista, por compactuar e me privilegiar desse racismo. Passei por uma grande transformação. Falo para a Julia que o racismo é um problema social e também um crime. Sei que nunca terei as vivências dela, por ser branca. Mas a gente nunca atravessa a experiência completa de um filho. É uma ilusão e um B.O. que as mães precisam lidar na análise.
Leandra Leal
Marcus Sabah
Você é uma das sócias da unidade carioca da escola afro-brasileira Maria Felipa. Me fale sobre essa experiência.
Quando a Julia foi para o Fundamental, encontrei a Maria Felipa, em Salvador. Na verdade, na maioria dos colégios, a educação segue sendo eurocêntrica. Uma educação antirracista é essencial para crianças brancas, para construirmos um futuro justo. Precisamos recontar nosso passado sob outros pontos de vista. Quando a escola veio para o Rio, em 2024, me tornei sócia, mas não ocupo nenhuma função pedagógica. A Maria Felipa, em Salvador, passou por uma situação financeira complicada, mas a sociedade se mobilizou e a escola virou um instituto.
Você contou numa entrevista que seu pai, Júlio Brás, era gay e que ele e sua mãe, grandes amigos, decidiram ter um filho. Isso ampliou sua concepção de família?
Meus pais nunca foram casados nem tiveram um relacionamento, e isso nunca foi uma questão. Uma família que tem criança é aquela que a protege e a ama, não importa se são dois homens, duas mulheres, uma avó.
Leandra Leal: bazer Ricardo Almeida, vestido Martu, body Riachuelo e anel Maria Eulália Joias
Marcus Sabah
Como surgiu a ideia de transformar a trajetória da atriz Bete Mendes em filme?
Bete é amiga da minha mãe da vida inteira. Sua história é muito forte. Ela sofreu violência política de gênero e ocupou papel importante na redemocratização do Brasil. Foi a primeira mulher a denunciar um torturador. Ela me contou tudo que tinha passado quando tinha 17 anos. Naquele momento, disse: “Bete, vou fazer um filme sobre isso”. Chegou a hora.
Muita expectativa para o carnaval?
Acho a melhor festa. É um lugar de resistência, de existência e de coletividade. Sou porta-estandarte do Cordão da Bola Preta, tem o meu bloco, Sem Rival, que vai sair no dia 13 de fevereiro, vou ver a Mangueira desfilar e, no dia 15 de março, noite de Oscar, vamos fazer o Baile do Oscarito, no Rival.
Leandra Leal
Marcus Sabah
Planeja ter mais filhos?
Engravidar, acho que não encaro. Mas penso em adotar novamente.
Edição de Moda: José camarano. Beleza: Soraya Rocha. Assistente de beleza: Tom Souza. Produção de moda: Daiane Gomes e Pedro Delmas. Set Design: Marina Pellegrini. Assistente de set design: João Soto. Assistente de fotografia: Guido Dowsley. Produção executiva: Karinyy Grativol e Giovana Lidizia.
