Álbum coroa nova fase de Anitta: ‘Mudo inteira. Não mudo só a minha cara fazendo plástica’

 

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Anitta conta não ter se dado conta de que seu novo álbum, “Equilibrivm”, o oitavo de sua carreira, lançado ontem, seguia de perto os passos de uma gira.

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— Sempre que a gente vai fazer qualquer ritual, a gente despacha Exu primeiro. No álbum, porém, eu faço (na faixa de abertura, “Desgraça”) com Exu mulher, que é a Pombajira. E a gente termina o disco com “Ouro”, a faixa da meditação, que eu coloquei no fim para trazer essa ideia de que também é bom ter esse momento de reflexão, de silêncio, de intenção. Mas, antes de “Ouro”, tem “Meia-noite”, que é outra Pombajira — explicou a cantora, ontem, em entrevista coletiva virtual. — Exu é o orixá que representa o homem, o homem no sentido do ser humano, mas a nossa gramática coloca a gente numa sinuca. Ser humano tem homem e tem mulher.

Resultado de um processo de autodescoberta iniciado há pouco mais de três anos (motivado, alega, por problemas de saúde e efeitos do excesso de trabalho), “Equilibrivm” é, segundo Anitta, o disco que saiu quando ela resolveu “fazer o que desse na telha, com alegria e com propósito de alma”, a fim “de mostrar a pessoa que tenho me tornado, com muito orgulho também do meu passado”. Para ela, portanto, não se trata de um disco sobre religião, mas “sobre um estado de espírito, sobre coisas em que eu acredito”. A cantora, por sinal, diz não estar nem aí para o que intolerantes religiosos possam pensar de seu novo trabalho.

— As pessoas que já têm essa coisa do preconceito, essa raiva, esse ódio dentro delas, eu não sei se elas estão abertas para respeitar o lugar do outro, para escutar o outro. Então, nem acho que é essa intenção. A minha intenção com esse álbum é falar do que me faz sentir bem. Mas eu espero, sim, que o álbum ajude nesse movimento de combater o racismo religioso, esse preconceito que é muito triste mesmo, e que não faz o menor sentido na minha cabeça — disse ela, acrescentando que o preconceito também existe em relação a pessoas que, como ela, se dedicam à meditação. — Por isso eu quis trazer essa faixa, “Ouro”. A última coisa que eu fiz para o álbum foi a voz da meditação dela, no meu aniversário (no último dia 30), nas Ilhas Faroé (no Atlântico Norte). Fechei os olhos e fui falando, fui falando, fui falando... gravei no meu celular mesmo e isso foi para o álbum.

Anitta

Divulgação

Com samples de canções clássicas da religiosidade de matriz africana como “Canto de Ossanha” (de Vinicius de Moraes e Baden Powell, em “Mandinga”) e do “Cordeiro de Nanã” (d’Os Tincoãs, em “Nanã”), “Equilibrivm” é também o disco mais flagrantemente brasileiro de Anitta, artista que alargou as fronteiras do funk em seu primeiro álbum, “Anitta” (2012), e reafirmou a força do batidão carioca no mundo com “Funk Generation” (2023). Participações de (e parcerias com) Marina Sena, Liniker, Os Garotin, Ponto de Equilíbrio, Luedji Luna, Rincon Sapiência, Ebony e Melly dão ao disco um sentido de abraço na contemporaneidade da MPB, entre canções de natureza orgânica, com leves interferências eletrônicas (quando muito).

Ter tanta gente em “Equilibrivm”, jura Anitta, não foi algo intencional.

— Quando eu fui ver a tracklist toda, falei: “Gente, tem muita participação!” Eu nem tinha me ligado nisso, porque, quando eu achava que a música tinha tudo a ver com fulano, eu mandava para ele. Aí, quando as compositoras (como Melly, Lary, King Saints, Jenni Mosello e Carolzinha, que assinam músicas do disco) estavam lá, eu falava: “Pô, elas compõem tão bem, mais gente devia ouvir elas... entra na música!” Foi acontecendo, acontecendo — relatou Anitta, ressaltando que, pela primeira vez, aproveitou a oportunidade de gravar um disco no estúdio que tem em casa, no Rio. — Ali eu consegui encontrar finalmente o equilíbrio, fazendo as músicas do álbum com meus cachorros. Encontrei uma nova forma de ir trabalhar, que foi com um prazer e sem pressão. Tudo foi fluindo perfeitamente, lá em casa tem muito livro de Orixá, muito livro do Ifá, muita referência indígena.

Sem pressão

Um disco com referências diretas ao candomblé, dominado pelas músicas em português, de sonoridade muito brasileira... Anitta reconhece o risco, quando se trata de um lançamento que vai representá-la no mercado mundial, mas desabafa.

— Neste momento de carreira, eu não estou ligando se vai dar certo, se vai ter views, se vai ter números, se vai ficar internacional, se o povo fora do Brasil vai curtir, se não vai... Mesmo assim, vou amar, não estou nessa pressão. Estou meio que tocando o que-se-dane para qualquer fórmula que tenha que se seguir para chegar a certos lugares. As coisas que eu conquistei na minha carreira, eu não trocaria por Grammy nenhum — disse ela, garantindo ter feito “o álbum em que eu mais gastei dinheiro na minha vida”, com vídeos para todas as músicas (o primeiro, de “Desgraça”, saiu ontem à tarde), com direção criativa de Nídia Aranha. — Sou uma pessoa que mudo inteira. Eu não mudo só a minha cara fazendo plástica, não. Eu me mudo por dentro.

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Apesar da opção preferencial pelo Brasil, “Equilibrivm” não deixa de ter suas faixas em espanhol e inglês. Entre elas, “Varias quejas” (versão de “Várias queixas”, do Olodum, popularizada pelos Gilsons), a bilingue “So much love”, “Pinterest” (“uma música que fala sobre amor próprio”, diz Anitta, que tinha lançado a música em português e pôs no disco em uma versão em espanhol) e, é claro, “Choka Choka”, música com feat de Shakira (que ela mostrou em apresentação no programa Saturday Night Live, junto com “Varias quejas”)

— A Shakira já era uma amiga e mora aqui bem pertinho (Anitta estava em sua casa em Miami), aí eu mostrei o álbum e ela escolheu essa música para a gente gravar juntas — conta a cantora, sem dizer se vai participar do show da colombiana na Praia de Copacabana, no próximo dia 2 (antes disso, Anitta abre shows do canadense The Weeknd no México e no Brasil). — Fiquei muito feliz de tê-la no álbum, porque ela é uma pessoa muito maravilhosa. Ela me manda flores no meu aniversário, me mandou flores pelo lançamento do álbum... ela é uma amiga muito carinhosa, muito cuidadosa, muito querida mesmo.

Um show que não é de hits

A Girl From Rio promete para este ano shows com o repertório de “Equilibrivm”.

— O Ensaios da Anitta (seu baile carnavalesco, que costuma virar disco de carreira), por exemplo, é um show amplo, para todos os tipos de gosto musical, é um show que traz o entretenimento. Então, faz sentido ele ser imenso, um show de muitas horas. Esse novo álbum traz a mensagem oposta, que é a de silenciar, a do menos é mais, de tranquilidade, de religiosidade. Não é todo mundo que vai querer se abrir para isso — acredita. — Então, a gente pensou num show mais intimista, bem menor, um pouco maior que o do “Funk Generation”, mas menor do que o do “Ensaios”. Vai ser um show em que eu não vou ficar tocando as músicas que a galera quer ouvir. Então, para você ir para esse show, você tem que realmente ter escutado o álbum inteiro, porque é isso que eu vou cantar!

Ilusão de que vá ganhar com “Equilibrivm” o público mais conservador, que a ataca por causa dos funks explícitos de seus outros álbuns? Isso, Anitta garantiu não ter.

— Esses só estão interessados em mim se for para ganhar engajamento, para falar mal, para, sei lá, ganhar alguma vantagem nesse sentido. Então, não teria por que eu pensar nessas pessoas, vejo como uma coisa completamente indiferente e irrelevante na minha vida. Não são eles que vão aos meus shows, não são eles que compram meus ingressos — respondeu. — O que o algoritmo tem feito com as pessoas é colocar todo mundo numa bolha de reafirmar o que já pensa, não mostrar uma ideia diferente, uma opinião contrária. E, como o extremismo gera muito número, as pessoas então acabam presas ali e ridicularizam quem decide ficar ali no meio-termo. Por isso que eu quis chamar esse álbum de “Equilibrivm”