Latam projeta custo extra de US$ 700 milhões no segundo trimestre com alta de combustível e já reduz oferta de voos

 

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A Latam Airlines encerrou o primeiro trimestre de 2026 com o maior lucro trimestral de sua história, na casa dos US$ 576 milhões, mas o otimismo dos resultados passados já convive com uma crise aguda: o preço do querosene de aviação (QAV) praticamente dobrou desde o início dos conflitos no Oriente Médio, e a companhia projeta uma despesa adicional superior a US$ 700 milhões apenas no segundo trimestre. Para absorver o choque, a Latam já reduziu em até 3% o número de voos programados para junho, revisou a projeção anual para 2026 e não descarta novos cortes de capacidade nos meses seguintes.

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O impacto ainda foi limitado no primeiro trimestre, estimado em U$ 40 milhões, porque a escalada de preços só se intensificou a partir do fim de março, após o início do conflito no Oriente Médio. O problema, segundo os executivos da companhia, é que grande parte dos bilhetes dos meses seguintes já estava vendida quando a crise explodiu, estreitando a margem para repassar os custos extras ao consumidor. A partir do segundo trimestre, conforme a volatilidade do barril, essa margem se abre, e o consumidor deve sentir o efeito nas tarifas.

— A gente obviamente enfrenta esse momento de crise bastante aguda no setor de combustíveis com uma mistura de cautela e confiança. Daqui para frente, tudo vai depender de como essa crise e o preço do combustível evoluirão nas próximas semanas, porque aí sim começamos a olhar com mais antecipação para o terceiro e quarto trimestres — disse o CEO Jérôme Cadier.

Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil

Claudio Gatti / Divulgação

Diante da volatilidade, a Latam substituiu integralmente o guia de projeções divulgado em dezembro de 2025, que tinha cerca de 15 indicadores, por um conjunto reduzido de quatro metas. A nova projeção trabalha com o preço do barril a US$ 170 no segundo e terceiro trimestres e US$ 150 no quarto trimestre, frente aos US$ 90 que oram utilizados como referência no final do ano passado.

O CEO da companhia reforçou que, por ora, os cortes de rotas são pontuais. Cadier explicou que cancelamentos significativos por conta do combustível não ocorreram em abril e maio, mas reconhece que potenciais ajustes para o terceiro e quarto trimestres ainda não estão fechados.

“Cautela e confiança”

A cautela sobre os impactos nos preços das passagens pode ser explicada também pela lógica operacional. Cancelar um voo para a semana seguinte, quando as aeronaves já estão lotadas, gera mais custo de realocação do que economia de combustível. O CFO da Latam, Ricardo Bottas, defendeu que cortes eficazes precisam ser feitos com pelo menos três a quatro meses de antecedência.

— Quando a guerra começou, nós praticamente já tínhamos vendido uma boa parte dos bilhetes dos meses seguintes, então, o espaço para você repassar para esses bilhetes já vendidos é muito menor do que nos trimestres seguintes. Naturalmente, essa é uma tendência de mercado em relação ao que é a capacidade de repassar custos para preços, mas que também depende de como reage à resiliência do cliente em relação ao produto e sobre a persistência da demanda — afirmou o CFO Ricardo Bottas.

Caminhões de abastecimento de querosene de aviação (QAV) no Santos Dumont, Rio de Janeiro

Marcelo Fonseca / Agência O Globo

Outro fator que pressionou os custos foi a valorização do real frente ao dólar. Segundo a Latam, a taxa de câmbio projetada para o Brasil foi revisada de R$ 5,50 para R$ 5,15 por dólar, encarecendo, na conversão, o custo. Como mais da metade da operação da companhia é no Brasil, o efeito cambial registrou peso relevante nos números apresentados.

— Não existe nenhuma implementação de nova estratégia ou aproveitamento desse ambiente. O que existe é uma consistência do que nós vínhamos fazendo e um reconhecimento de que a Latam entrega um produto premium, e isso tem uma proposta de valor que é diferenciada e vem sendo consistente nos últimos trimestres e nos últimos anos — completou Bottas.

Para o segundo trimestre, mesmo com o choque de combustível, a Latam prevê uma margem operacional ajustada de um dígito médio a baixo. A companhia diz que as medidas de gestão de receita, controle de custos, hedge cambial e ajustes de capacidade devem compensar parcialmente o impacto. A empresa ainda não prevê desabastecimento de querosene de aviação nas bases onde opera, mas afirmou está com o alerta ligado e monitora a situação semanalmente.