'Lapso terrível': jurada que 'esqueceu' de dar notas para 3 escolas não volta para a apuração do carnaval 2026
A jurada que gerou polêmica no ano passado ao se "esquecer" de dar três notas de samba-enredo no Grupo Especial do carnaval carioca não avaliará as agremiações em 2026. Ana Paula Fernandes não consta do rol de julgadores, embora a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) tenha aumentado o número de profissionais na função este ano — de quatro para seis, sendo que dois foram eliminados da avaliação por sorteio.
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Em 2025, na sua estreia como julgadora, Ana Paula não deu notas para os sambas de Paraíso do Tuiuti, Mocidade e Portela — pelo regulamento, as três receberam pontuação máxima, 10. Para o quesito este ano, foram sorteados os jurados Christiano Abelardo, Vandelir Camilo, Alfredo Del-Penho e Alessandro Ventura. (A menor nota será descartada.)
Após a polêmica, Ana Paula respondeu ao GLOBO sobre as três notas que não foram registradas em seu caderno de julgamento. Além de lamentar o equívoco ocorrido na última noite de desfiles, ela revelou que se sentiu extremamente incomodada com o barulho "insuportável" após a apresentação final, o que acabou resultando em uma queda de pressão.
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A jurada disse ter cometido um "lapso terrível" relatou que o intenso barulho vindo do camarote e da roda de samba próximos ao módulo 4 era "ensurdecedor".
— Segundo o regulamento da Liesa, as minhas justificativas não puderam ser consideradas, pois não haviam sido transcritas para a primeira página. Então, eu não esqueci de dar notas. O correto seria dizer que eu não as transferi para a primeira página. No momento em que escrevemos a nota, logo após o desfile, o barulho é insuportável. No módulo 4, onde fiquei, havia uma rave e uma roda de samba em volume altíssimo. Por ser novata, eu não tinha noção do quanto isso atrapalharia, senão teria levado tampões. Nesse momento, eu tive uma queda de pressão por ser o terceiro dia e estar mais cansada. Dai, cometi esse lapso terrível. Eu admito o meu erro e lamento pela confiança que me foi depositada — disse ela.
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Por ser sua primeira vez nesta função, Ana Paula contou que se preparou com antecedência, estudando os sambas das agremiações "de forma incessante durante um mês".
— Eu sei a qualidade do trabalho que fiz. Estudei os sambas de forma incessante durante 1 mês. Li a abre alas em diversos quesitos, até que não eram os meus, para entender globalmente o que as escolas traziam. Nas justificativas, segui à risca o que foi orientado pela Liesa, tecendo comentários objetivos, com linguagem acessível e embasados no manual do julgador. Não torço para nenhuma escola. Eu morei fora 14 anos e me distanciei do carnaval do Rio nesse tempo. Antes de morar fora, eu tocava tamborim, surdo e outros instrumentos e cheguei a desfilar tocando na Intendente — contou.
'Excesso de iorubá'
A avaliação da jurada Ana Paula Fernandes sobre o samba-enredo da Unidos de Padre Miguel (UPM) também gerou debate nas redes sociais. A avaliadora retirou 0,3 pontos da agremiação e, entre as justificativas, apontou o "excesso de termos em iorubá" na letra.
No X, a escola criticou a decisão: "Despontuar uma escola por utilizar o dialeto de sua cultura é, no mínimo, uma avaliação despreparada". O pronunciamento ainda destacou que a escola não "tem planos" de "esquecer" sua oralidade para atender a um "acadêmico não negro". A jurada justificou a sua decisão.
— Com algumas exceções, quase todas as escolas trouxeram enredos sobre candomblé ou cultura afrobrasileira. Eu apoio esses enredos e acho necessário reafirmar essas histórias para que o público se familiarize com a fatos apagados da história. Em minha opinião pessoal, o enredo da UPM é um dos mais interessantes, dada a importância das religiões de matriz afro no Brasil. Porém, meu quesito era o samba-enredo, que avalia letra e melodia. Nós temos um manual que prevê casos de despontuação de acordo com alguns critérios. Em qualquer obra artística e principalmente no samba, onde o público maior é o povo, a comunicação é fundamental. No julgamento, eu não considerei as saudações e os nomes próprios. Ainda assim, o samba tinha versos de difícil compreensão, dificultando sua relação da letra com o entendimento do público — comentou.
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Questionada sobre as críticas que recebeu, Ana Paula relatou que tentou "não entrar nessa loucura coletiva". Ela apontou na época que recebeu xingamentos, ameaças e ataques de intolerância religiosa e racismo. A jurada disse frequentar o terreiro desde bebê pois sua avó é mãe de santo e ressaltou que não seguiu no candomblé por opção.
— Eu entendo a revolta e os afetos que transbordam depois de séculos de opressão e silenciamento. Vemos uma distorção grotesca da minha justificativa. Em nenhum momento critico o uso de termos em iorubá, como disse, mas a falta de equilíbrio na letra visando o entendimento do público mais abrangente. Na tentativa de ser o mais justa possível com as escolas, inclusive, tive que colocar de lado meu afeto religioso (religiões de matriz afro) para fazer uma análise técnica, respeitando os critérios estabelecidos — desabafa.
Ana Paula também aproveitou para se desculpar sobre o ocorrido, porém reafirmou a lisura do processo de avaliação das escolas:
— Muitas vezes, as escolas se sentem injustiçadas por todo trabalho e dedicação de um ano inteiro. Por respeito a elas, eu busco ser o mais neutra possível e muitas vezes o julgamento técnico parece contraditório com a beleza apresentada na avenida. Me desculpo pelos transtornos causados na apuração devido ao lapso inaceitável que cometi. Mas tenho confiança nas minhas análises e justificativas. Agradeço também a Liesa e reafirmo a lisura do processo — disse.
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