Lançando primeiro disco, filha de João Gilberto diz que não imaginava fama do pai:

Lançando primeiro disco, filha de João Gilberto diz que não imaginava fama do pai: 'O que tem de tão incrível, fica ele e o violão'

 

Fonte: Bandeira



Loulu Gilberto devia ter 13 anos quando seu pai, João Gilberto, a levou na casa de Cezar Mendes para que tivesse aulas de violão.

— Ele chegou e disse: “É a maior cantora do mundo”. Era louco por ela. E ela encolhida, parecia um esquilo — lembra Cezinha, como é chamado por todos.

Rock in Rio: Supernova terá Diogo Defante e projeto de João Gordo, e Global Village faz tributo a João Bosco

Wolf Alice, Oklou, Amaarae, Magdalena Bay: um guia da programação muito feminina do C6 Fest

João morreu em 2019, e dois anos depois Loulu voltou à casa de Cezinha. Falou com firmeza: “Quero ser cantora”. Pediu aulas de violão e de canto.

O esquilo saiu da toca e lança agora seu primeiro álbum, que leva o seu nome. Na verdade, codinome, porque ela é Luísa Carolina Gilberto, mas transformou o apelido Lulu em Loulu por causa da numerologia. O contrato com a Sony previa 12 faixas, mas ela esticou para 13 por preferir este número.

Homenagem ao pai

A primeira música é “João”, que Cezinha e Arnaldo Antunes fizeram em homenagem ao mestre da bossa nova. As demais, embora Cezinha e seu parceiro na produção, Mario Adnet, tenham dado sugestões, e ela tenha feito pesquisas na internet, Loulu acredita ser possível ter ouvido com o pai cantando em casa.

— Estavam armazenadas num lugar da minha cabeça que eu não conseguia acessar — diz. — Quando tocava a música, ressoava muito estranho: “Eu já ouvi isso”. É o caso de “Dorme que eu velo por ti” (de Mário Rossi e Roberto Martins). Não me lembrava dele cantando, mas sabia a melodia inteira na primeira vez em que eu escutei. Não é por acaso.

Loulu Gilberto: aulas de violão e de canto com Cezar Mendes

Divulgação/Bob Wolfenson

Ela completará 22 anos em 23 de junho. É filha temporã de João — também pai de João Marcelo e Bebel — e da jornalista Cláudia Faissol. Conta que, desde criança, recebia incentivo para soltar a voz.

— Eles queriam muito que eu fosse cantora e eu não queria de jeito nenhum, porque tinha medo, não achava que minha voz era bonita. O medo só foi indo embora com o estudo. A única coisa que traz confiança é o conhecimento — afirma ela, que tem feito três aulas de canto por semana.

A mãe a estimulava a ficar ouvindo o pai, que tocava durante horas. Segundo Loulu, Cláudia apelava.

— Eu fazia birra: “Não vou cantar”. Ela falava: “Se você cantar, vai ganhar a boneca tal”. É totalmente equivocado, mas funcionava. Quando tiver filhos, não vou fazer isso — promete.

Loulu não morava com João, mas diz que ia quase todos os dias ao apartamento dele, no Leblon. Ela morava em Ipanema. Dormir na casa do pai, quando acontecia, tinha o seu preço.

— Na época das aulas era complicado, porque a rotina dele era muito diferente. Ele passava a madrugada acordado e a maior parte do dia dormindo. Eu chegava na escola e ficava dormindo na sala — recorda.

Neste período escolar, ser filha de João Gilberto não era algo que impressionasse os colegas.

— Eu não tinha ideia da dimensão dele quando era criança. Minha mãe falava que ele era famoso, e eu ficava assim: “Por quê? O que tem de tão incrível, fica ele e o violão” — conta. — Na minha escola, católica, o pessoal era mais abobalhado. Na faculdade de Comunicação, todo mundo sabia quem ele era. Aí fui percebendo que era uma coisa grande, não só meu pai.

Capa de 'Loulu Gilberto'

Divulgação/Bob Wolfenson

Ela cursou (e trancou) cinema, estuda teatro, mas assegura ter decidido que sua profissão será cantora. Tem voz suave, que remete um pouco à de Astrud Gilberto, primeira mulher de João. Não se desvia da suavidade nem num samba mais sacudido como “Cuidado com o andor” (Mário Lago e Marino Pinto), aprendido com o pai e ensinado por ela para o experiente Cezinha, que não o conhecia.

— Loulu foi adestrada por João. A palavra é essa — diz Cezinha. — As divisões no canto são muito parecidas com as dele.

João e os sambas antigos

Mario Adnet segue no mesmo tom:

— Ela tem timbre bonito e entende a divisão. Isso pode ser explicado pela matemática, pelo jargão musical, mas não adianta se não tiver talento. O pai ensina até hoje e vai continuar ensinando, à medida que ela for estudando e se preparando.

No repertório do álbum predominam composições das décadas de 1930, 1940 e 1950. Ou seja, a matéria-prima do pai, conhecedor profundo dos sambas desse período, consagrado como a era de ouro do rádio.

Estão na lista “Manias” (Flávio Cavalcanti e Celso Cavalcanti), “Beija-me” (Mário Rossi e Roberto Martins), “Qui nem jiló” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e “Joujoux e balangandãs” (Lamartine Babo) — gravada em duo com Maria Carvalhosa —, além das já citadas.

Também tem “Duas contas”, uma das mais conhecidas composições de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto.

— Garoto é referência máxima. Peguei essa para homenagear o Garoto — revela. — É um dos gigantes do cancioneiro popular. Avant-garde para caramba. Parece um alienígena. Os Beatles, perto do Garoto, não dão nem para começar a conversa.

Embora diga conhecer pouco música internacional e ouvir muito cantores brasileiros de outras épocas, como Jorge Veiga e Dalva de Oliveira, ela incluiu dois standards americanos: “Tea for two” (Irving Caesar e Vincent Youmans) — acompanhada por Daniel Jobim ao piano — e “Mr. Sandman” (Pat Ballard).

Há uma inédita: “O amor nos encontrou”, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, com a primeira letra, a de que João gostava, e não a oficial.

A única extraída de um disco do pai é “Avarandado”, de Caetano Veloso, que ela canta ao lado de Tom Veloso, filho do autor. Caetano gravou em 1967 e João, em 1973. Loulu diz ter usado as duas versões como referências.

A última faixa é uma junção curta de duas canções de ninar que João entoava para ela.

— Se eu pudesse, esse disco teria 35 faixas, com duas horas e meia — anima-se.

O entusiasmo se estende para o que vem por aí. O show de lançamento no Brasil ainda não está marcado, mas a busca por uma carreira internacional é certa.

— Acho que tem um mercado lá fora que gosta bastante de música brasileira. Talvez gostem mais do que nós. A gente é meio vira-lata — afirma.

Cezinha endossa:

— O som dela é lá fora, não aqui. O brasileiro não respeita a bossa nova.

Loulu não se anima quando perguntada sobre a relação com os irmãos. Há um conflito entre os herdeiros sobre o espólio do pai.

— Não acompanho. Minha mãe também não. Acho que cada um tem sua história para contar. A minha eu estou contando no disco.