Lado B do carnaval: fundador da Imperatriz Leopoldinense, Zé Katimba fala sobre as mudanças na folia

 

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O CBN Rio encerra nesta sexta-feira a série ‘O Lado B do carnaval’ prestando reverência àqueles que organizaram a festa. Os que chegaram primeiro, fundaram instituições que se tornaram símbolos do Rio de Janeiro e do Brasil para o mundo e que ainda têm muito o que dizer sobre os rumos da folia. “E ao mesmo tempo, cantar, sambar, amar, curtir”, como diz o samba ‘Bandeira da Fé’, escrito por Martinho da Vila e Zé Katimba — este, aos 93 anos, recebeu a reportagem em sua casa para recordar folias de décadas atrás.

Em 1959, junto com quase 20 outros sambistas, fundou a Imperatriz Leopoldinense e é reconhecido como o único fundador vivo da agremiação. Nascido no interior da Paraíba, José Inácio dos Santos, de 93 anos, cresceu em um Brasil que não oferecia quase nada a quem vinha do Nordeste, negro e pobre. As mãos que tremiam ao tentar aprender a escrever o próprio nome com carvão em pedaços de madeira e paredes improvisadas foram as mesmas que construiriam, anos mais tarde, grandes sucessos atemporais. Não frequentou escola, não teve professor, não teve caderno. A leitura veio depois. Começar a ler e escrever foi o gesto que abriu o mundo.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, encontrou não apenas oportunidades; ele conta que, na época, ser nordestino era sinônimo de atraso.

"Eu cheguei e não conhecia nada, não tinha ninguém como amigo. No Rio, tudo o que não prestava era Paraíba. E eu consegui vencer o preconceito de ser pobre, de ser miserável. Quando eu alcancei o patamar da pobreza, eu festejei, eu sou pobre, porque é muito diferente de ser miserável para ser pobre".

Em um tempo em que os sambas-enredo tinham entre 50 e 60 versos, em 1971 ele questionou e inovou a maneira de compor. Inventou o, na época, chamado e muito criticado “samba moderno”. Com o enredo “Barra de ouro, barra de rio, barra de saia”, foi a primeira vez que a agremiação desfilou com um samba de Zé, em parceria com Niltinho Tristeza, e ficou em 7º lugar naquele Carnaval.

Em 1972, a Rede Globo escolheu homenagear a escola Imperatriz Leopoldinense e contou a história do paraibano através da novela de Dias Gomes*,* “Bandeira 2”. O personagem Zé Katimba foi vivido por Grande Otelo. Foi a primeira vez que um samba-enredo fez parte de uma trilha sonora de novela.

Com duas mil músicas compostas, Zé Katimba venceu 10 carnavais na Imperatriz. Ele defende a volta das alas de compositores e a identidade musical de cada escola. Quando o Carnaval termina, os carros são desmontados e o chão da Avenida volta a ser só asfalto, mas o samba tem o poder de permanecer e, às vezes, acaba se perdendo junto com o resto da festa.

“E uma outra coisa é a volta da ala de compositores, cada escola ter sua ala, para a gente ter nossa bandeira"

No carnaval deste ano, Zé Katimba voltou para sua terra natal para ser homenageado pelo bloco Muriçocas do Miramar, em João Pessoa. Já foi eleito Cidadão Samba, ganhou um busto no Centro Cultural João Pessoa e batiza a sala de troféus da Imperatriz. Flores em vida para o menino que saiu do interior da Paraíba para colocar seu nome na história do samba. E o que ele diria para esse menino, se pudesse voltar no tempo?

“Eu não diria nada. Passaria a mão na cabeça dele e diria: Deus te abençoe. Como diz o samba de 1981, quem dera que a vida fosse assim. Sonhar, sorrir, cantar samba. E nunca mais ter fim".