Lado B do carnaval: conheça a Harmonia, o quesito que prefere não ser lembrado

 

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Pode até parecer contraditório que, no maior espetáculo da Terra, quando a Marquês de Sapucaí vira palco de sonhos materializados e inesquecíveis, haja gente que só quer passar despercebida. Não quer ser lembrada, nem vista. Pois eles existem, são muitos em cada escola e fundamentais para que a festa aconteça. Como canta o velho samba, são eles que apitam para a bateria entrar e colocam a porta-bandeira para dançar com o mestre-sala. No segundo episódio da série Lado B do Carnaval, a CBN Rio apresenta os diretores de Harmonia.

“A gente já está até acostumado, quando a Harmonia está aparecendo muito, se vão entrevistar o diretor Geral de Harmonia, ou o diretor de Carnaval, é porque está dando M.. Se não falar no meu nome, nome do Jefferson, nome do Marquinhos, nem nome do Alex Faber, é porque a gente foi super bem no desfile e ninguém precisou falar do nosso nome”, conta Dudu Falcão, diretor de Harmonia da Unidos do Viradouro.

Na escola de Niterói, Harmonia é assunto muito sério e vai além de colocar a comunidade para cantar. Dudu, no Carnaval desde 2009, trabalha ao lado de Jefferson Coutinho e Marcos Mendes em uma trinca de diretores para organizar tudo. Literalmente tudo: das primeiras reuniões em junho, quando o enredo do ano seguinte é definido e começam as inscrições, até o traslado dos carros alegóricos à Sapucaí e a condução do casal de mestre-sala e porta-bandeira pela avenida. É tanto trabalho que nem há espaço para emoção, conta Jefferson Coutinho, que vai para o seu 23º desfile.

“Um dia antes do desfile que a gente tem que tirar os carros do barracão, tem um time de diretores de alegoria. Na noite anterior a gente tem que levar os carros até a avenida, porque são quase cinco quilômetros. E é um processo difícil, a logística mesmo, com semáforo, com árvores. E a gente chega às 23 horas e o nosso desfile é 1h da manhã, a gente fica direto. Vai só quando as alegorias já estão encaminhadas para retornar, ou seja, em torno de umas 16 horas direto na pista".

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Enquanto todos procuram as belezas dos trabalhos dos carnavalescos, eles procuram o que pode estar errado. Controlam o andamento do desfile, impedem a formação de “buracos” na Avenida e cuidam do canto. Claro que esses pedidos nem sempre são feitos de uma maneira tranquila. Tanto que o samba Diretor de Harmonia, de Padeirinho e Zagaia, da Mangueira — citado no início desta reportagem —, diz no refrão: “se estou errado, me perdoa...”. Eles sabem que, no dia da apuração, se a nota não vier boa, os olhares duros se voltam para a equipe.

"Da mesma maneira que a costureira não aparece, da pessoa que faz o adereço, daquele carro que a pessoa acha lindo, mas não sabe que teve ali a mão de uma pessoa fazendo aquele acabamento, de um efeito especial da comissão de frente, onde a pessoa tá dentro do carro, nem vai aparecer. Não somos estrelas, que é uma constelação gigante, somos só mais um. No final, o mérito é de todos".

Embora seja um trabalho fundamental para que o maior espetáculo da Terra seja reconhecido como tal, muitos diretores não vivem só dos cargos e tem seus trabalhos fora da festa. Homens e mulheres de muitas faces, na vida e na folia, que acima de tudo, cuidam de gente, como resume o diretor Dudu Falcão

"Lidamos com pessoas de todos os tipos e todas as capacidades financeiras. Então algumas vezes nós vamos entender daquela pessoa que não tem o dinheiro pra passagem. Daquela pessoa que vai com a sua limitação e talvez não vai ter nem o dinheiro pra água.

Então nós estamos o tempo todo conversando. É fazer um acolhimento, um acolhimento naquele chão. Receber da melhor maneira possível pra poder entregar no final".

Ouça as entrevistas da série:

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