La Petite Fille au Ruban Bleu, de Natalie David-Weill, revela o que aconteceu com as meninas de 'Rosa e Azul', de Renoir

 

Fonte:


No MASP, “Rosa e Azul”, pintado por Pierre-Auguste Renoir em 1881, costuma ser visto como um retrato exemplar da infância burguesa do fim do século XIX. As meninas Elisabeth e Alice, filhas do banqueiro Louis Raphael Cahen d’Anvers, aparecem imóveis, de vestido branco rendado, uma com laços cor-de-rosa, outra com acessórios azuis. O artista francês constrói uma cena precisa, em que tudo parece organizado para permanecer, um começo puro e inocente de uma infância ao abrigo de preocupações e que prenuncia um futuro esplendoroso. Ele recebeu 1.500 francos pelo trabalho; a família, uma pintura para a eternidade. Só que a eternidade, como sabemos, tem prazo de validade.

Rosa e Azul (As Meninas Cahen d'Anvers)

Reprodução

Um livro magnífico, recém-publicado na França, tenta desvendar o destino dessas meninas a partir de outro ponto. “La Petite Fille au ruban bleu” (A garota de laço azul, ainda sem tradução no Brasil), parte do retrato da irmã mais velha, Irène, pintada um ano antes, também por Renoir. Aos oito anos, cabelos cor de cobre caindo sobre os ombros, olhar meio distraído, meio entediado, ela posa para o artista como se soubesse que o mundo que a cerca está prestes a mudar — embora não possa saber quanto, nem como. A escritora Natalie David-Weill mergulhou em arquivos, cartas e registros dispersos, tentando restituir densidade a figuras que, durante décadas, foram reduzidas à condição de modelo privilegiado de infância.

Livro La Petite Fille au ruban bleu

Reprodução

Os Cahen d’Anvers pertenciam à elite judaica de Paris, inseridos num circuito que reunia colecionadores, mecenas e artistas. Foi nesse ambiente que Renoir passou a circular, chamado para pintar retratos que tinham função social de exaltar os patrocinadores ricos. Em 1880, Irène posa para o artista. No ano seguinte, as irmãs menores ocupam a tela que hoje está em São Paulo. As sessões eram longas e, como Alice lembraria mais tarde, pouco interessantes — compensadas apenas pelo uso de um vestido novo.

O percurso de Irène, reconstruído por David-Weill, escapa dessa superfície e tenta olhar para além do laço azul que prende seus cabelos. Dá visibilidade à mulher que cresceu, amou, divorciou-se duas vezes, perdeu um filho na guerra, viu sua filha Béatrice morrer em Auschwitz, e ainda assim sobreviveu a tudo isso para se tornar, no fim, herdeira do próprio retrato ‘(detalhe: a pintura de Irène foi roubada pelos nazistas em 1941, mas a do MASP não constava das espoliações). Quando a guerra atinge a Europa, o cenário se transforma de maneira radical. O mesmo grupo que sustentava coleções, financiava instituições e frequentava os grandes salões passa a depender de circunstâncias horrendas e a ser tragado pela sociedade que cultivou. Obras são confiscadas, famílias se dispersam, parentes são assassinados, nomes desaparecem. “É sempre interessante estudar uma época, porque nunca é tal qual se crê”, diz a autora.

Irene Cahen d'Anvers

Reprodução

É nesse ponto que “Rosa e Azul” ganha outra leitura. Elisabeth, a de azul, teve um destino que só veio à tona em meados de 1987, quando obras do acervo paulistano foram expostas na Fundação Pierre Gianadda, em Martigny, na Suíça. Seu sobrinho escreveu ao museu para revelar o que a tela não dizia: ela morreu a caminho de Auschwitz, em 1944, num trem gelado, aos 69 anos. Alice, a menina de rosa, viveu até os 89 anos e morreu em Nice, em 1965. A autora não tenta corrigir a obra de Renoir, mas ampliar o seu alcance, lembrando que a pintura fixa uma ordem que a História rapidamente desfaz.

O artista registrou, com precisão, um momento e um meio social, mas não poderia prever a fratura entre a imagem imóvel e o destino turbulento. Pinturas como essa nos ajudam a acreditar em sonhos. Biografias como essa nos devolvem à realidade. É por isso que a arte dura — pelas mesmas razões que livros precisam ser escritos.