'Krakens' da pré-história: polvos gigantes rivalizavam com répteis marinhos há mais de 70 milhões de anos

 

Fonte:


Eles eram os verdadeiros “krakens” da pré-história? A imagem de criaturas colossais dominando os oceanos sempre povoou o imaginário humano, mas novas evidências científicas sugerem que algo muito próximo disso pode, de fato, ter existido.

Uma equipe liderada pela Universidade de Hokkaido identificou fósseis de polvos gigantes do período Cretáceo que atingiam até 19 metros de comprimento, colocando-os entre os principais predadores marinhos de sua época. O estudo, publicado na revista Science e divulgado pela BBC neste mês de abril, sugere que esses animais ocupavam o topo da cadeia alimentar ao lado de grandes répteis e peixes ósseos.

Predadores gigantes e inteligentes

Os fósseis analisados pertencem a polvos da subordem Cirrata que viveram entre 100 e 72 milhões de anos atrás. As evidências indicam que esses animais possuíam mandíbulas grandes e extremamente robustas, com sinais claros de desgaste associados à durofagia, ou seja, o consumo de presas com conchas e ossos.

A análise, feita com tomografia de alta resolução e inteligência artificial, permitiu reconstruir digitalmente mandíbulas fossilizadas em excelente estado de preservação. Segundo os pesquisadores, isso possibilitou identificar padrões de uso e descartar danos posteriores à fossilização. Dos 27 espécimes estudados, todos foram encontrados em ambientes marinhos calmos, o que favoreceu a conservação.

Além da força física, os dados apontam para um possível comportamento sofisticado. A assimetria no desgaste das mandíbulas, mais acentuado do lado direito, sugere lateralidade, um traço associado a especialização cerebral e inteligência, semelhante ao observado em polvos modernos.

Tamanho comparável a monstros marinhos

As espécies identificadas, como Nanaimoteuthis haggarti, apresentavam dimensões impressionantes. O manto podia medir entre 1,5 e 4,4 metros, enquanto o comprimento total, com os braços estendidos, chegava a cerca de 19 metros, até três vezes mais que os maiores polvos atuais.

Esses cefalópodes superavam, por exemplo, o peixe ósseo Xiphactinus, que alcançava cerca de cinco metros, e tinham tamanho comparável ao de grandes répteis marinhos, como plesiossauros e mosassauros. Segundo o estudo, tratavam-se dos maiores invertebrados já identificados, com papel ecológico equivalente ao dos grandes predadores vertebrados do período.

Dieta baseada em presas duras

O desgaste observado nas mandíbulas revela uma alimentação baseada em presas resistentes. Lascas, rachaduras e arranhões indicam consumo frequente de amonites, peixes ósseos e até répteis marinhos.

Em alguns casos, a perda de material nas mandíbulas chegava a 10% do comprimento total, um índice superior ao observado em cefalópodes modernos com dieta semelhante. Embora não tenham sido encontrados fósseis com conteúdo estomacal preservado, os indícios apontam para predadores ativos e capazes de esmagar estruturas duras com eficiência.

Uma nova leitura dos oceanos do passado

Até então, o consenso científico indicava que os principais predadores do Cretáceo eram vertebrados, como tubarões e grandes répteis. A nova pesquisa, no entanto, sugere que esses polvos gigantes ocupavam o mesmo nível trófico, competindo diretamente pela supremacia nos oceanos.

Segundo os autores, tanto cefalópodes quanto vertebrados passaram por processos evolutivos semelhantes, abandonando estruturas protetoras externas e desenvolvendo corpos maiores, maior agilidade e mandíbulas mais eficientes, uma convergência que favoreceu a disputa pelo topo da cadeia alimentar.

Mistérios ainda persistem

Apesar do avanço, muitas questões permanecem em aberto. A forma exata do corpo, o tamanho das nadadeiras e a velocidade de locomoção desses animais ainda não são totalmente conhecidos.

Especialistas citados pela BBC apontam que esses polvos provavelmente eram predadores oportunistas, capazes de explorar diferentes fontes de alimento. No entanto, a ausência de evidências diretas, como fósseis com conteúdo digestivo, limita a compreensão completa de sua biologia.

Ainda assim, a descoberta já altera de forma significativa o entendimento sobre os ecossistemas marinhos do passado, e reforça que, muito antes das lendas sobre o kraken, criaturas gigantes e inteligentes podem ter, de fato, reinado nas profundezas dos oceanos.