Kompany fala
Essa coluna pretendia abordar o caso Prestianni. Mas antes de escrever ouvi a coletiva de Vincent Kompany, o técnico belga do Bayern de Munique. Não foi bem uma coletiva. Foi um discurso de 11 minutos. Kompany disse tudo. Talvez mais um pouco. Essa coluna poderia ser de Mbappé. Poderia ser do próprio Vini Jr. Mas é de Kompany. Abaixo a transcrição dos principais trechos:
“Assisti ao jogo ao vivo. Há componentes diferentes nessa história. Em campo, você tem Vinicius. Aquela reação não pode ser fingida. Dá para ver que é emocional. Não há benefício em trazer esse peso. Ele age porque é a coisa certa a ser feita.
Ao lado dele está Kylian Mbappé, normalmente muito diplomático. Ele foi muito claro sobre o que ouviu e o que viu. Ainda mais claro depois do jogo. E temos um jogador escondendo o que diz atrás da camisa. É complicado: um acusa, outro diz que não fez. A menos que o jogador venha a público, é um caso difícil. Entendo isso.
No estádio, você vê pessoas fazendo gestos de macaco. Isso está no vídeo. Não é só o confronto em campo. E o pior acontece depois do jogo. O líder de uma organização, José Mourinho, basicamente ataca o caráter de Vinícius usando a comemoração para desacreditá-lo. Em termos de liderança, isso é um enorme erro. Não devemos aceitar.
Mourinho menciona o nome de Eusébio para dizer que o Benfica não pode ser racista porque o maior jogador da história do clube foi ele. Vocês sabem pelo que jogadores negros passaram nos anos 60? Meu pai é um homem negro dessa época. A única opção era ficar calado e ser dez vezes melhor que os outros para conseguir algum reconhecimento. Provavelmente essa foi a vida de Eusébio.
Usar o nome dele para rebater Vinícius Jr é complicado. Há muitos hoje na Hungria, Bulgária, Sérvia que não têm voz nenhuma. Vinícius ao menos está numa posição de falar porque muita gente tornou isso possível. Não me encaixo em muitas das coisas que vejo no mundo. Não quero fazer parte de um grupo ou outro. Se o jogador do Benfica disse algo tão grave, eu gostaria de ver espaço para desculpas. Dizer: “Eu errei”. Se você admite o erro, isso deveria ter impacto na punição. Ninguém é perfeito.
Mas estamos tirando essas opções porque transformamos tudo em esquerda ou direita, preto ou branco. Você tem que estar de um lado ou de outro. Não é assim. Você não pode punir alguém injustamente. Mas também não pode atacar o caráter de alguém que está denunciando algo tão doloroso. Se alguém fosse racista com Mourinho quando ele celebrou em Old Trafford... diríamos: “Parem”.
Aconteceu com Eto’o. Aconteceu com Balottelli. Era a celebração também? E aconteceu comigo. Há 20 anos, em Sevilha, eu tinha 18 ou 19 anos. Eu e Cheick Tioté fomos chamados de “macacos”, houve cânticos da Ku Klux Klan, torcedores subindo na grade imitando. Marquei um gol naquele jogo. E torcedores do próprio Bétis começaram a vaiar os ultras racistas. Houve uma luta interna no estádio. Foi um dos momentos mais bonitos de minha carreira porque mostrou que nem todos aceitam.
Anos depois, eu e minha comissão fomos chamados de “macacos marrons”. E nada aconteceu. Nenhuma consequência. E eu tenho uma voz. Imagine quem não tem. O problema não é só o incidente. É o que acontece depois — como tudo se move para abafar, politizar e matar a história. E eu vejo isso afastar cada vez mais as pessoas.
Conheço muita gente que trabalhou com José Mourinho. Sei que ele é uma boa pessoa - mas sei o que ouvi e ele cometeu um erro. Espero que o futuro seja sobre o que podemos fazer juntos – e não sobre aquilo que sempre nos separa. Obrigado”.
