A Kohler, fabricante de louças e metais sanitários para banheiro e cozinha, encerrou, nesta segunda-feira (31), a produção na sua única fábrica no Brasil, em Andradas (MG).
Mais de 400 funcionários diretos serão afetados pelo encerramento, afirmou Allan di Bartolomeo, diretor jurídico da Kohler para a América Latina.
Também será encerrada a marca de louças Fiori.
A empresa, que tem origem americana e atuação multinacional, entrou no Brasil em 2014 por meio da aquisição da Fiori e da fábrica do negócio, em Andradas.
A planta recebeu mais de R$ 200 milhões em investimentos, como afirmou ao Valor o então diretor-geral no Brasil, Alexandre Pavão, em 2023, e passou a produzir também louças da marca Kohler.
No seu auge de produção, antes da pandemia, eram cerca de mil funcionários e uma capacidade de fabricar 1 milhão de peças ao ano.
Desde então, porém, a Kohler mudou seu foco.
Roberto Riolobos Sanchez, diretor da Kohler para a América Latina, explica que há um direcionamento global da companhia para o segmento premium e de luxo.
Em 2023 e 2024, a Kohler comprou as marcas de luxo Kast, de bacias e pias de concreto, e Klafs, de saunas.
Também investe em pesquisa para produção de itens “inteligentes”.
Já a produção em Andradas era de produtos “standard”, de menor valor.
“Nesse segmento, a competição é muito forte por custo, os produtos são vendidos quase como commodities”, afirma o diretor sobre o segmento da Fiori.
No Brasil, a empresa tem apostado na expansão de suas lojas, as Kohler Signature Stores (KSS), showrooms voltados ao consumidor de alto padrão.
São 36 lojas abertas e a Kohler quer inaugurar mais quatro ainda neste ano.
Para 2027, são esperadas outras dez.
A expansão das lojas KSS casa com um movimento de retração de presença no varejo tradicional da construção civil, como os home centers, onde predominam os itens “standard”.
Foco no mercado dos EUA e no alto padrão
Além da mudança de direcionamento, o contexto geopolítico também interferiu no destino da fábrica de Andradas.
Os Estados Unidos são o maior mercado da Kohler, e a empresa acompanhou o movimento de “nearshoring”, aproximando a produção do seu maior consumidor, conta Sanchez.
Com isso, abriu novas fábricas no México, perto da fronteira com os EUA.
Uma das fábricas, sozinha, tem capacidade para produzir 7 milhões de itens ao ano.
Esse aumento de capacidade em algumas regiões foi minando a necessidade de manter a fábrica mineira.
A facilidade de se trazer produtos das fábricas no México e na Ásia também pesou na decisão.
As tarifas para exportação aos Estados Unidos foram outro motivo, afirma di Bartolomeo, já que parte da produção de Minas era direcionada aos Estados Unidos.
“Não vou dizer que foi a ‘pá de cal’, mas foi mais um desestímulo”, afirma.
“Você vai estrangulando a demanda para essa fábrica.”
A Kohler vai manter no Brasil a equipe de distribuição e importação de peças, seu escritório e a operação das lojas.
Sem a Fiori, a Kohler passará a vender apenas a sua marca original no país, mas não por muito tempo, de acordo com Sanchez.
A ideia é trazer, em um horizonte de até 12 meses, outras marcas de alto padrão do portfólio do grupo — que possui 25 delas.
A companhia também quer expandir no mercado brasileiro sua vertente de “projetos”, que são vendas diretas para grandes usuários, como hotéis de luxo.
Para além do faturamento em si, é uma forma de o consumidor entrar em contato com os produtos, em um ambiente de valor agregado perceptível, explica o diretor.
O mercado de incorporação residencial de alto padrão ainda é uma possibilidade de expansão, afirma Sanchez.
“Muitas vezes, os desenvolvimentos de alto padrão não têm acabamentos de alto padrão.
Em banheiros, especialmente, temos uma oportunidade gigante de mostrar o que realmente é alto padrão, a experiência de luxo”, afirma.
Mercado de louças sanitárias no país
A empresa ainda não decidiu o que fará com a fábrica de Andradas, mas avalia vender o parque industrial para um concorrente, segundo o diretor jurídico.
Di Bartolomeu afirma que os funcionários afetados pelo corte terão licença remunerada de um mês, enquanto a companhia negocia com sindicatos.
Encontrar um comprador pode ser um desafio.
O segmento brasileiro de louças e metais sanitários tenta se recuperar de uma queda da demanda e de margens apertadas.
A Dexco, maior fabricante do setor, que tem a marca Deca, fechou fábricas de louças sanitárias em João Pessoa (PB) e em Queimados (RJ), em 2023 e 2025, para concentrar a produção em menos plantas e também tem tentado posicionar seu mix de produtos para ter presença maior no alto padrão.
Sanchez afirma que há mercado suficiente para mais fabricantes de itens de alto valor agregado.
“Temos um plano estratégico de crescimento para o país, e acho que, nos anos que virão, não só para o Brasil, mas para a América Latina, as oportunidades de marcas de luxo no segmento de construção [são grandes], temos um futuro muito positivo”, afirma.
Roberto Riolobos Sanchez, diretor da Kohler para a América Latina
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