247 – O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, anunciou nesta terça-feira (27) que integrantes da legenda poderão ocupar cargos no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito após derrotar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Apesar da abertura para participar da nova administração, Kassab afirmou que o partido manterá uma posição independente em relação ao Palácio do Planalto.
Segundo a Folha de São Paulo, a declaração foi feita durante um evento do Dominium Group, em Brasília, e ocorre em meio às articulações para a formação da equipe ministerial do próximo governo. O PSD, que permaneceu neutro no segundo turno da eleição presidencial, espera ampliar sua influência na distribuição de cargos da Esplanada dos Ministérios.
“Sobre o novo governo, vamos permitir que nossos companheiros integrem o governo, mas sem submissão. A independência é o melhor caminho”, afirmou Kassab.
A posição sinaliza uma disposição do PSD para negociar espaços no governo Lula sem estabelecer uma aliança formal de apoio irrestrito ao presidente. A legenda já ocupou posições importantes na administração petista, incluindo os ministérios da Agricultura, de Minas e Energia e da Pesca.
Nos bastidores, dirigentes do partido avaliam que a neutralidade adotada durante a disputa presidencial poderá favorecer o PSD nas negociações com Lula. A sigla foi uma das poucas grandes forças do centrão que não aderiram à candidatura de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno.
O PSD havia lançado Ronaldo Caiado à Presidência da República, mas o candidato não conseguiu avançar à etapa decisiva da eleição. Com sua eliminação, Kassab optou por não declarar apoio a nenhum dos dois concorrentes, diferentemente de outras legendas do campo político de centro e direita.
Kassab analisa virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro Durante o evento, Kassab também comentou a vitória de Lula, que conseguiu reverter a desvantagem registrada no primeiro turno e derrotar Flávio Bolsonaro na votação decisiva.
Para o dirigente, a experiência política do presidente e a maior exposição de seu adversário durante a campanha do segundo turno contribuíram para o resultado. “Lula é um sênior da política às vésperas de se aposentar.
O conhecimento sobre Flávio só ocorreu no 2º turno, quando os candidatos ficam expostos. Todos já conheciam quem é Lula”, afirmou.
Kassab também sustentou que os levantamentos internos das campanhas já apontavam uma trajetória de crescimento de Lula, enquanto Flávio enfrentava dificuldades para conquistar novos eleitores. “Quem observava os trackings viu, desde o 1º turno, uma ascendência de Lula maior, numa curva lenta, e Flávio paralisado.
A campanha do bolsonarismo de voto útil já levou os votos dos candidatos mais simpáticos a Flávio. O residual dos demais candidatos não queria ir com Flávio, nao era automático”, comentou Kassab.
Na avaliação do presidente do PSD, a estratégia bolsonarista de concentrar votos à direita ainda no primeiro turno reduziu o potencial de crescimento de Flávio na etapa seguinte. Parte dos eleitores que haviam escolhido outras candidaturas não migrou automaticamente para o candidato do PL, abrindo espaço para a recuperação de Lula.
PSD defenderá voto distrital misto e cobrará fidelidade da bancada Além das negociações para o próximo governo, Kassab anunciou que o PSD adotará uma posição rígida em defesa da implantação do voto distrital misto nas eleições legislativas.
O dirigente afirmou que a legenda fechará questão sobre o tema, obrigando seus parlamentares a acompanhar a orientação partidária. “O PSD vai fechar questão pelo distrital misto, quem não votar vai ser convidado a deixar o partido”, declarou.
A proposta defendida por Kassab prevê a combinação de eleições em distritos territoriais com a distribuição proporcional de cadeiras entre os partidos. Nesse sistema, parte dos deputados seria escolhida diretamente pelos eleitores de cada distrito, enquanto as demais vagas seriam preenchidas por listas partidárias.
O modelo é defendido por setores do centrão como uma alternativa ao atual sistema proporcional, que permite a candidatos com votações expressivas contribuir para a eleição de outros integrantes de suas legendas. Kassab criticou especialmente o desempenho de políticos que conquistam grandes quantidades de votos por meio das redes sociais, mas, segundo ele, mantêm pouca relação direta com os municípios onde recebem apoio.
O presidente do PSD citou Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), que, juntos, receberam mais de 3 milhões de votos, contribuindo para o fortalecimento de suas bancadas. “De 80% a 90% dos eleitores deles nunca os viram, nunca os encontraram, e nunca vão encontrá-los.
Oitenta por cento das cidades onde eles foram votados eles nunca estiveram e nunca estarão. Isso faz com que não haja compromisso com a construção de projetos de políticas públicas melhores, e a gente acaba tendo um Congresso onde a prioridade é lacrar”, reclamou.
A discussão ocorre após o avanço eleitoral do PL, que conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e terá 29 representantes no Senado. A expectativa é que o Congresso analise uma reforma eleitoral ainda neste ano, antes da posse dos novos parlamentares.
Kassab propõe mudanças no Judiciário após escândalo do Banco Master O dirigente também defendeu alterações nas regras de composição dos tribunais superiores, em meio às repercussões do escândalo envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
As investigações e os questionamentos sobre as relações de integrantes do Judiciário com Vorcaro estiveram entre os temas de maior repercussão política durante a campanha eleitoral. Kassab propôs estabelecer mandatos de duração determinada para integrantes dos tribunais superiores, além de regras mais restritivas para o exercício de atividades profissionais e políticas após a saída dos magistrados.
“Um denominador comum de grande chance de ser aprovado é a idade mínima de 60 anos com mandato de 12 anos para todos os tribunais superiores. Eu acredito (…) em dois anos de quarentena para que não possam apresentar parecer, quatro anos que não possam advogar, oito anos que não possam disputar eleições”, afirmou Kassab.
Brasil 247