Karol Maia estreia, nos cinemas, documentário sobre a realidade das trabalhadoras domésticas
Nos primeiros minutos do documentário “Aqui não entra luz”, a diretora Karol Maia indaga a própria mãe, Miriam Mendes: “Você está tímida só porque está com o microfone?”. Ela, então, responde: “Estou com medo de você levar isso para frente”. Ambas não imaginavam, àquela altura, quão adiante iria o longa de estreia da cineasta paulistana, de 32 anos. A obra, que costura depoimentos de trabalhadoras domésticas (entre memórias pessoais e elaborações sobre o ofício), chega às salas de cinema brasileiras nesta quinta, depois de emocionar plateias em sessões de pré-estreia. Também arrebatou troféus, como o de melhor direção no último Festival de Brasília, e foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), o maior do mundo dedicado ao gênero.
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Miriam trabalhou por anos como doméstica e, muitas vezes, levava a filha à casa dos patrões, o que proporcionou a Karol uma visão minuciosa sobre a maneira como as profissionais são tratadas. Munida desse repertório, ela capta as histórias de cinco mulheres de modo sensível e filma tudo a partir de planos e sequências pensados com o mesmo cuidado. Se as casas dos patrões aparecem em imagens abertas e gerais, os endereços onde vivem as entrevistadas são mostrados em detalhes. “Meu objetivo nunca foi filmá-las durante o trabalho. Queria criar relações mais íntimas. Suas casas são objetos dramatúrgicos do filme.”
Maria do Rosário é uma das entrevistadas no longa
Divulgação
Nesses locais, elas soltam falas como “a gente consegue gostar deles (dos patrões) sem fazer distinção, mas eles sabem até onde gostam da gente” ou “dificilmente eu choro, mas, quando me lembro muito do passado, sinto vontade de chorar”. Esta última, dita por Maria do Rosário Rodrigues, após relembrar ofensas ouvidas durante o trabalho. “Falei sobre coisas que nunca tinha pensado antes”, ela conta à reportagem, enquanto celebra a repercussão do longa. “Não sabia que poderia ter sido mais bem tratada, por exemplo.”
A relação entre patrões e trabalhadores domésticos foi abordada em sucessos recentes do cinema nacional, como “Que horas ela volta?” (2015), de Anna Muylaert; “Doméstica” (2012), de Gabriel Mascaro; e “Santiago” (2007), de João Moreira Salles. O longa de Karol, contudo, segue por caminhos bem diferentes dos antecessores, ressalta a diretora. “Não vou fazer um filme como eles porque não sou eles. Não sou uma pessoa branca, não fui criada em uma família de classe média. Não pude estudar fora do país. Vou fazer uma obra a partir do que o mundo me deu, com a experiência de filha de trabalhadora doméstica. A minha relação era com a minha mãe, e não com a patroa dela.”
Apesar do teor denso, a maneira como as entrevistas são conduzidas assegura doses de humor e ironia. Uma preocupação que, segundo a cineasta, se mostrou importante durante os oito anos de produção do filme. “Não quero que o público, principalmente as pessoas negras, saia das sessões destruído”, diz. “Quis pegar o melhor delas e dar essa possibilidade de alivio cômico para o espectador. Na cena final, as pessoas gargalham.” Seria, contudo, um spoiler imperdoável falar mais sobre isso por aqui.
