Kamel Daoud: atração da Flip, autor de romance sobre conflito na Argélia critica intelectualidade decolonial e relata perseguição em seu país

 

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O escritor Kamel Daoud é considerado um criminoso em seu país. As leis da Argélia punem com até cinco anos de prisão e multa aqueles que, “por meio de declarações, textos ou qualquer outra ação”, explorarem as “feridas da tragédia nacional”, isto é, da guerra civil (1992-2002) que opôs radicais islâmicos ao governo nacionalista e matou entre 40 mil e 200 mil pessoas.

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Daoud é autor de “Língua interior”, romance que trata precisamente da guerra civil e da ameaça representada pelo autoritarismo político e religioso na Argélia. Vencedor do Prêmio Goncourt, o maior da literatura francófona, o livro é narrado por Aube, que, durante a guerra, sobreviveu a uma tentativa de degola que a deixou com uma cicatriz de 17 cm no pescoço e lhe roubou a voz. “Língua interior” é o monólogo interior da personagem, ou melhor, seu diálogo com a menina que carrega no ventre e deseja abortar. Aube é dona de um salão de beleza que é alvo de ataques de um clérigo muçulmano. Ele condena a vaidade feminina ao inferno, mas promete aos fiéis uma eternidade de prazer com as húris, as virgens do paraíso.

O argelino também é autor de “O caso Meursault” (Biblioteca Azul, 2016), releitura de “O estrangeiro”, de Albert Camus, em que o narrador é o irmão do árabe morto na praia por um colono francês. Os impasses da Argélia contemporânea, libertada do domínio francês por meio de uma guerra brutal que se estendeu de 1954 a 1962, são um dos principais assuntos de sua ficção. Exilado na França desde 2023, Daoud é o primeiro autor confirmado oficialmente na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 22 e 26 de julho e homenageia a poeta Orides Fontela.

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— Corajosos e ousados, os livros de Daoud investigam o passado e o direito à memória ao criar narradores que deslocam o ponto de vista oficial. Nesse sentido, além de sua enorme qualidade literária, ele se aproxima de questões que vêm sendo debatidas no Brasil como o necessário resgate da memória — afirma Rita Palmeira, curadora da Flip.

Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Daoud criticou o “decolonialismo permanente” na qual a Argélia estaria presa e disse que sua primeira visita ao Brasil pode funcionar como uma “terapia”:

— O Brasil é mais que um país, é uma lenda. Visitá-lo pode me ajudar a olhar meu país de outro jeito. A Argélia é um país fechado em si mesmo.

Confira a seguir a entrevista com o escritor.

Qual o impacto do esquecimento da guerra civil na sociedade argelina?

“Língua interior” é sobre uma questão que sempre me preocupou. Para ser feliz é preciso esquecer a guerra? É melhor não falar da guerra para proteger nossos filhos ou é importante falar justamente para que eles não repitam nossos erros? A Argélia escolheu fabricar o esquecimento com uma anistia que, politicamente, até se justificava pois precisávamos parar a guerra. Mas os assassinos deviam ao menos pedir perdão às famílias das vítimas, para que nossos filhos aprendam o valor da justiça e da responsabilidade. Hoje, na Argélia, os islamistas que fizeram a guerra estão livres e há escritores e intelectuais na prisão e no exílio. Não é possível criar um futuro assim.

“Língua interior” foi proibido na Argélia. Você pode sofrer represálias se voltar ao país?

As campanhas de difamação começaram antes de “Língua interior”. Foram emitidos dois mandados de prisão contra mim. Se voltar à Argélia, vou para a cadeia. É muito doloroso. Não sou político, só quero escrever meus livros. Amo a Argélia, é para lá que volto toda noite quando durmo. Mas é um país que não quer sair do passado e investir no presente. Às vezes, tenho vontade de nunca mais escrever sobre a Argélia, de proibir meus filhos de falar sobre a Argélia. Ao mesmo tempo, quero voltar à casa dos meus pais. É difícil.

Por que diz que a Argélia está presa no “decolonialismo permanente”?

A descolonização da Argélia é uma história de sofrimento e heroísmo, de personagens admiráveis e projetos de futuro. Mas há acadêmicos, políticos, veteranos de guerra e artistas que preferem falar do passado colonial a abordar nossa responsabilidade pelo presente e pelo futuro. Tudo é culpa da colonização. É essa postura que chamo de “decolonial permanente”. Os heróis que libertaram a Argélia imaginavam o futuro. Os decoloniais só imaginam o passado.

“Língua interior” compara a mortandade da guerra civil à história bíblica de Abraão (Ibrahim, no Corão), que se dispõe a matar o próprio filho para obedecer a Deus. Por que explorar narrativas religiosas na ficção?

A interpretação do Corão é uma questão de vida ou morte. E de poder. Cresci num mundo muçulmano e sei que não vamos avançar se não tivermos uma conversa franca com os textos fundadores. Quando era criança, não entendia por que Ibrahim estava disposto a matar seu próprio filho para obedecer a Deus. Mas ainda hoje se mata em nome de uma interpretação do Corão. As mitologias religiosas não são apenas uma literatura das profundezas, um supermercado de metáforas, mas também um chamado à reflexão.

“Língua interior” também aborda a relação difícil da religião com a sexualidade.

As religiões monoteístas têm uma relação complicada com o corpo, que é nossa única riqueza. Os deuses não morrem, não trabalham, não se cansam, não pagam contas, não têm febre nem orgasmo. Talvez tenham inveja dos nossos corpos. Cresci num meio conservador, onde o sexo era um tabu. Ao mesmo tempo, tudo girava ao redor da sexualidade: os rituais, a cortesia, as roupas, a própria língua. E a literatura me fez descobrir o erotismo muito cedo. Anos atrás, escrevi um texto no New York Times dizendo que há uma miséria sexual no mundo árabe, que não temos uma relação saudável com a sexualidade. A reação foi muito violenta. Intelectuais argelinos me disseram que eu até tinha razão, mas que não precisava ter escrito aquilo.

Na sua obra, percebe-se que prioriza o trabalho com a linguagem. Ainda assim, em entrevistas e eventos perguntam mais sobre política do que sobre literatura. Como se sente?

Quando você é intelectual do Sul Global, um lado tenta te pintar como uma vítima da colonização e outro lado quer que você critique seu povo e país de origem. É difícil ser um árabe livre, não estar a serviço de uns ou de outros. Ou eu paro de escrever e abro uma padaria ou confio que, com o tempo, meus textos não serão mais reféns da conjuntura política e dos clichês da nossa época.

Sobre o que você preferiria falar em entrevistas e eventos literários?

Sobre a escrita, a potência das metáforas. Às vezes me perguntam sobre colonialismo e, só para me divertir, eu digo: “Desculpa, eu não vivi essa época, mas se você quiser, posso imitar um cadáver e você imita um branco culpado e podemos encenar uma guerra colonial.” O humor pode ser a melhor resposta.

Tanto “O caso Meursault” quanto “Língua interior” são essencialmente monólogos, mesmo quando há um interlocutor. O que atrai nesse recurso literário?

Acho que sou como a Argélia, tenho dificuldade com o diálogo, de conceber a alteridade e de iniciar a troca. Tento escrever de outro jeito, mas sempre volto a esse fluxo interno. “O caso Meursault” é uma tentativa de diálogo entre um escritor e um assassino, já em “Língua interior” a narradora tenta estabelecer um diálogo com alguém que ela já ama, é um passo em direção à cura. Talvez no meu próximo livro eu consiga escrever um diálogo de verdade.

Uma mulher argelina que diz ter sido paciente da sua esposa, que é psiquiatra, o acusou de se apropriar da história dela em “Língua interior”. Como responde a essa acusação?

Essa história é horrível, me machucou muito. Escrevi sobre uma guerra civil com centenas de milhares de mortos, na qual a degola era o modus operandi dos terroristas. Meu romance não tem nada a ver com a história dessa mulher. Entendo o sofrimento dela, talvez ela queira se reconhecer no romance. Mas é um livro de ficção. Essa acusação faz parte de uma campanha para me descredibilizar, já que não conseguiram me colocar na cadeia. Querem me aterrorizar para que ninguém mais escreva sobre a guerra civil. Os argelinos deviam fazer como a heroína do meu romance e enfrentar seus demônios.

Serviço:

'Língua interior'

Autor: Kamel Daoud. Tradução: Bernardo Ajzemberg. Editora: DBA. Páginas: 456. Preço: R$ 114,90.