Justiça bloqueia R$ 176 milhões de fundo investigado na Carbono Oculto e gerido pelo Banco Genial

 

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A Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo (PGE/SP) obteve na Justiça o bloqueio de R$ 176 milhões em recursos vinculados ao Banco Genial Investimentos.

A medida cautelar fiscal é desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em 28 de agosto de 2025 para investigar a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis.

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O banco originário da conhecida corretora de investimentos afirma que o bloqueio se refere a "estruturas usuais de mercado" e não traz "impacto operacional" à instituição, que não é objeto da investigação. O alvo é um fundo de investimentos sob administração do Banco Genial.

O alvo central da investigação são os empresários Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", controladores das distribuidoras de combustíveis Áster e Copape.

Segundo documentos aos quais O GLOBO teve acesso, uma rede de postos de combustíveis abastecida pelo grupo chegou a movimentar R$ 54 bilhões, recolhendo apenas R$ 90 milhões em tributos, o equivalente a 0,17% do faturamento. A dívida fiscal perseguida pela PGE/SP soma R$ 7,6 bilhões em ICMS, já acrescidos de juros e multas.

Os empresários Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, negociam delação com o MPSP

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"Trata-se de ação proposta pela Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (PGE/SP), no âmbito da Operação Carbono Oculto, e que encontra-se em segredo de Justiça", afirma o órgão da Fazenda sobre o caso, veiculado inicialmente pelo portal UOL.

O caminho do dinheiro

Para garantir o recebimento desse passivo tributário, a Procuradoria seguiu o caminho percorrido pelo dinheiro identificado nas investigações. O caso começa no fundo MABRUK II, administrado pela gestora Reag, do empresário João Carlos Mansur. Foi através desse fundo que a organização criminosa adquiriu o controle societário das usinas de açúcar e etanol Itajobi e Carolo, ambas no interior de São Paulo.

O fluxo financeiro rastreado pelos investigadores pelo MABRUK II, por meio de contas mantidas na BK Instituição de Pagamento S.A., totalizou exatamente R$ 175,9 milhões, cifra que corresponde ao valor do bloqueio agora executado.

A BK teria desempenhado papel logístico central no esquema: a empresa oferecia o serviço de "contas bolsões", nos quais recursos de diferentes clientes eram depositados e compensados numa única conta bancária, criando uma camada de opacidade para dificultar o rastreamento pelos sistemas antilavagem de dinheiro.

Além de adquirir as usinas, o MABRUK II foi utilizado para a compra de debêntures das próprias empresas de fachada do grupo, numa movimentação circular de capitais que inclui R$ 190 milhões em papéis da Insight Participações, R$ 30 milhões da Rede Sol Fuel e R$ 20 milhões da Ciclone Gestão.

Genial entrou em cena em 2024

No segundo semestre de 2024, quando a Reag encerrou sua atuação junto às estruturas do grupo, o Banco Genial passou a administrar o Fundo Radford, herdando uma arquitetura financeira que, segundo os investigadores, já nascia contaminada. Sob a gestão da Genial, o fundo teria recepcionado cerca de R$ 100 milhões extraídos da Usina Itajobi.

A estrutura incorporada incluía ainda um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) de aproximadamente R$ 500 milhões, atrelado a uma carteira de crédito consignado do Banco Master, e um empréstimo concedido à própria usina, formalizado por meio de emissão de cédula de crédito.

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A decisão judicial proferida na Comarca de Catanduva (SP) foi direta ao determinar o sequestro e a indisponibilidade dos bens e valores ocultados da Usina Itajobi junto ao Radford Fundo de Investimento, administrado pelo Banco Genial S.A.

Na data da operação policial, a instituição já havia emitido nota à imprensa comunicando a renúncia à prestação dos serviços de administração do portfólio, alegando que o fundo lhe fora entregue um ano antes e fora estruturado por outra instituição.

Fraudes além da sonegação

As investigações revelam ainda que as fraudes da Copape e da Áster iam além da sonegação. O grupo inflava artificialmente os preços dos insumos negociados entre as duas empresas para gerar créditos de ICMS indevidos, enquanto a distribuidora fornecia diesel às usinas do grupo e recebia etanol para revenda no mercado.

Em razão dessas irregularidades, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) cassou as licenças de operação de ambas. Para contornar a proibição, as empresas foram formalmente encerradas em julho de 2024 e substituídas pela Duvale Distribuidora de Petróleo, sucessora da Áster, e pela Rodopetro Distribuidora de Petróleo, que centralizou as operações e passou a repassar combustível importado a dezenas de novas distribuidoras controladas por interpostas pessoas.

O que diz o Genial

Em nota, o Banco Genial Investimentos afirmou que não figura como investigado na Operação Carbono Oculto e que sua participação no caso decorre exclusivamente da atuação como administradora fiduciária de um fundo específico, tendo prestado todos os esclarecimentos solicitados às autoridades.

Segundo a instituição, a medida cautelar fiscal foi movida pela PGE/SP contra empresas do setor de combustíveis, não sendo o Banco Genial parte na ação fiscal. O banco acrescentou que os valores atingidos pelo bloqueio estão sendo tratados pelas vias processuais cabíveis e que as operações envolvem "estruturas financeiras usuais de mercado, com utilização de instrumentos como CDBs e CCBs no contexto de operações de crédito estruturado".

A instituição negou ter relação societária ou ingerência nas atividades operacionais das empresas citadas e garantiu que não há impacto nas operações nem no atendimento a seus clientes.