Juros e custos mais altos levam produtores a pisar no freio e reduzir plantio para a próxima safra

 

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Sob a pressão de juros elevados, dívidas crescentes, crédito restritivo e fertilizantes mais caros, o agronegócio brasileiro entrou em modo de cautela. O custo de capital para financiamento da produção e o aperto nas margens de maior parte das atividades agrícolas fazem os produtores pisar no freio e adiar alguns investimentos no campo. A decisão mais importante, porém, parece já ter sido tomada: reduzir a área plantada na próxima safra.

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Anna Paula Nunes, produtora de grãos e cana-de-açúcar em Boa Esperança do Sul, interior de São Paulo, está nesse grupo. Nascida em família de produtores de laranja, ela decidiu que vai reduzir em pelo menos 30% a área dedicada à soja na próxima temporada. O plantio da cultura no Brasil começa em agosto e ganha ritmo de setembro em diante.

— Estamos inseguros com o que vai acontecer. No meu caso, pretendo fazer um plantio bem feito, mas reduzido, e ver o que acontece. Para ajudar na decisão, nós tivemos nesta semana uma redução no preço do ATR (Açúcar Total Recuperável), que pressionou para baixo o valor da cana. Isso também vai ter impacto aqui na minha região. Vai mexer muito com os produtores e fazer com que segurem mais investimento— afirma ela.

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No ano passado, a agricultora cultivou 950 hectares na safra de verão. Agora, prevê plantar no máximo 600 hectares de soja.

Investimentos em compra de maquinários novos também evidenciam a postura mais cautelosa dos produtores brasileiros. A Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, realizada na semana passada em Ribeirão Preto, registrou queda de 22% na intenção de negócios. Após um ano surpreendente de aumento das vendas, a exposição somou R$ 11,4 bilhões em vendas e prospecção comercial em 2026.

Globo Rural

Anna Paula Nunes, produtora de grãos e cana-de-açúcar em Boa Esperança do Sul, interior de São Paulo, vai reduzir em pelo menos 30% a área dedicada à soja na próxima temporada/Divulgação

— Eu vi algumas máquinas que tenho interesse, deixei um negócio meio em andamento, mas acabei não fechando durante a feira. Pedi um tempo para pensar melhor e realmente fazer as coisas com mais tranquilidade, mais certeza— afirmou Anna, que esteve na feira de Ribeirão Preto.

O empresário Artur Monassi, que possui rede de concessionárias de máquinas agrícolas e também é produtor rural, concorda que haverá uma redução de área plantada na próxima safra e que a conjuntura atual é uma das piores dos últimos anos.

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— Estamos na iminência de ter uma situação no Brasil muito difícil de ser superada, pelos problemas que o produtor está enfrentando. As recuperações judiciais aumentaram demais e chegaram a um nível assustador. E a tendência é de continuarem crescendo. A produção agrícola não existe se não as margens não forem positivas. Em uma fazenda de 100 hectares é preciso investir muitos milhões sem ter a certeza de que vai colher um grão— afirma.

Minossi destaca ainda que, diante do comércio fraco, as maiores fabricantes de maquinários têm adotado estratégias para preservar custos e manter as margens, como férias coletivas aos funcionários e até demissões, mas que isso pode provocar uma inflação nos preços das tecnologias.

— É uma ciranda perigosa. Daqui a pouco vai voltar a ter inflação em preços de máquinas por falta de produto— diz.

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No último ano, o Brasil ampliou em 2,4% o cultivo de soja, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Considerando todos os grãos cultivados, a expansão de área plantada foi de 2,3%. A primeira estimativa oficial para a próxima safra deve ser divulgada entre julho e agosto.

Aperto no crédito

A cautela observada no comportamento dos produtores rurais também se estende às instituições financeiras que atuam com a liberação de crédito rural. Diante da inadimplência recorde no setor e da tendência de aumento nos pedidos de recuperação judicial, os bancos têm elevado a régua de análise dos clientes.

Além da disponibilidade de patrimônio para dar como garantia, os produtores precisam cada vez mais provar que são competitivos, que possuem um fluxo de caixa saudável e que estão no caminho para alcançar bons resultados com a operação para a qual buscam crédito.

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— A instituição financeira que coloca o seu produto na prateleira e fala ‘sirva-se’, no momento que o agro está vivendo, isso não funciona mais. A gente precisa ter um relacionamento consultivo. Discutir fluxo de caixa, trazer as previsibilidades de clima, preços das commodities e eventualmente entrar com uma operação estruturada para travar preços e ajudar o produtor a tomar decisão— afirma Vitor Moraes, superintendente do Sicredi.

— A gente tem preocupação com o resultado daquele investimento que está sendo feito. Então, o envolvimento [com o cliente] é cada vez maior. Para entender cada vez mais o ambiente em que ele está inserido e como a gente pode, como instituição financeira, favorecer — acrescenta Nielder Honorato, superintendente da Caixa.