Juros altos podem reduzir depreciação do real em caso de continuidade da guerra no Irã, avalia Itaú Unibanco

 

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Economistas do Itaú Unibanco avaliam que o patamar elevado de juros no Brasil pode funcionar como um amortecedor para o real em um cenário de guerra prolongada no Oriente Médio, apesar do aumento da aversão a risco.

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Em momentos de tensão, investidores tendem a migrar para ativos considerados mais seguros, como o dólar, mas o diferencial de juros ajuda a atrair capital estrangeiro e a sustentar a moeda brasileira. Além disso, fatores como a menor dependência de petróleo importado também contribuem para reduzir a pressão sobre o câmbio:

— O Brasil tem uma gordurinha — diz o economista do Itaú Unibanco Pedro Schneider, que lembra também da menor dependência do país de petróleo estrangeiro. — Isso faz com que, apesar de quase todas as moedas estarem depreciando, porque existe um movimento de aversão a risco, o Brasil sofre menos no relativo, porque os termos de troca são mais favoráveis e o diferencial de juros também é mais favorável.

Schneider avalia que ainda é cedo para mensurar os impactos inflacionários da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. No entanto, pelas estimativas do banco, um aumento adicional de 10% no preço do diesel teria impacto de cerca de 0,2 ponto percentual (20 pontos-base) no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A escalada das tensões levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo.

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Esse choque se transmite para a inflação por diferentes canais. O mais direto é o aumento dos combustíveis, especialmente gasolina e diesel. No caso do diesel, embora seu peso direto no IPCA seja relativamente pequeno, diz a economista Julia Gottlieb, o impacto indireto é relevante, já que ele encarece o frete e, consequentemente, o custo de uma gama de produtos. Caso o conflito se prolongue, pode haver também pressão sobre os fertilizantes:

— Quanto maior o preço do fertilizante, maior o preço da soja e do trigo. Nossa dependência de fertilizantes é grande, mas achamos que esse efeito será maior para 2027 do que para 2026, uma vez que a safra deste ano já está plantada — disse Julia durante evento com jornalistas em São Paulo, realizado nesta quinta-feira.

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Schneider diz que ainda é preciso monitorar o que vai acontecer no Estreito de Ormuz. Segundo ele, há diferentes cenários possíveis: desde um avanço dos Estados Unidos sobre o Irã, com eventual controle da região, até um recuo forçado pelo aumento do custo econômico da guerra.

Com base em informações de mercado acompanhadas pelo banco, a expectativa dos economistas é que o fechamento da rota se prolongue pelo menos até meados de abril:

— Para o preço do petróleo cair abaixo de US$ 100, precisa ter uma solução para a guerra, o que não parece ser o caso no curtíssimo prazo. Acho que não existe a expectativa que a guerra dure o ano todo por conta da importância do local — diz Schneider.

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Em um cenário de guerra mais duradoura, Schneider afirma que a experiência de outros conflitos mostra que os bancos centrais tendem a elevar os juros.

Outro ponto destacado pelos economistas é que o banco avalia a atividade econômica nos Estados Unidos como persistente, o que aumenta a probabilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) manter os juros elevados:

— Acho que tem aumentado a chance do Fed não conseguir cortar os juros neste ano porque a inflação está alta. Mesmo com as discussões de emprego desacelerando, mesmo com as discussões que há de inteligência artificial sendo um choque negativo para o mercado de trabalho — diz o economista.

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Na quarta-feira, o Fed , em meio à guerra no Irã, manteve a taxa de juros da principal economia do mundo entre 3,5% e 3,75%. É a segunda manutenção seguida.

Segundo Schneider, há outros fatores que entram nessa equação. Um deles é o avanço da inteligência artificial, que pode funcionar como um choque relevante de produtividade, ao mesmo tempo em que reorganiza o mercado de trabalho, com o fim de algumas carreiras e criação de novas ocupações.

Há um cenário mais extremo, no qual esse ganho de produtividade leva a uma redução significativa da demanda por trabalho. Nos Estados Unidos, onde estão as principais empresas de tecnologia, já há sinais de aumento do desemprego entre jovens e recém-formados, embora as evidências sejam limitadas.

— Isso causa um problema para a sociedade como um todo. Não só para a inflação, mas para a política fiscal, e há ainda um problema social mais grave. Até o momento, nos dados, nesse tema de inteligência artificial, a gente não tem visto um impacto macro relevante.

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