Júri do caso da Porsche: filho da vítima pede pena proporcional 'à magnitude', e amigos citam abandono após depoimentos

Júri do caso da Porsche: filho da vítima pede pena proporcional 'à magnitude', e amigos citam abandono após depoimentos - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O primeiro dia do julgamento de Fernando Sastre de Andrade Filho, acusado de matar o motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana, foi marcado pelos depoimentos de amigos, socorristas e familiares da vítima. A sessão também teve a chegada tardia de Giovanna Pinheiro Silva, namorada do empresário na época do acidente, que foi levada ao fórum por determinação judicial, mas não chegou a depor.

O júri começou na quarta-feira (28), no Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo, e pode ser concluído já nesta quinta-feira (29). A colisão ocorreu na madrugada de 31 de março de 2024, quando o Porsche de Sastre atingiu a traseira do Renault Sandero conduzido por Ornaldo, de 52 anos.

O motorista de aplicativo foi socorrido, mas morreu em decorrência dos ferimentos. Um laudo apontou que o veículo de luxo andava pela Avenida Salim Farah Maluf, Zona Leste de São Paulo, a mais de 150km/h.

Após a batida, Sastre deixou o local acompanhado da mãe, sob a justificativa de que procuraria atendimento médico. Ele não fez o teste do bafômetro naquele momento e se apresentou à polícia cerca de 36 horas depois do acidente.

Além da morte de Ornaldo, o empresário responde pela lesão corporal gravíssima sofrida por Marcus Vinicius Machado Rocha, que estava no banco do passageiro do Porsche. A sessão teve atraso após Giovanna não comparecer ao fórum no horário previsto.

A Justiça determinou sua condução coercitiva, e oficiais foram até a residência dela para levá-la ao julgamento. Ela chegou ao fórum no fim da tarde, mas a defesa abriu mão de seu depoimento.

Marcus, o passageiro Marcus Vinicius Machado Rocha foi o primeiro a testemunhar.

À época estudante de Medicina, ele afirmou aos jurados que sofreu pressão de amigos para mentir ou amenizar o que sabia sobre a noite do acidente. Segundo ele, depois de prestar depoimento à Justiça, passou a ser tratado como traidor e perdeu contato com pessoas do grupo.

— Lembrar de tudo o que aconteceu dói muito, porque não foi só o ato. Depois de muitas atitudes, perdi todos os amigos em comum, ninguém mais fala comigo — afirmou.

Marcus contou que o grupo havia saído para jantar e depois foi a uma casa de pôquer. Segundo seu relato, Sastre havia consumido bebida alcoólica e estava alterado.

O empresário teria discutido com a então namorada porque queria dirigir, mas Giovanna se recusou a entrar no Porsche. Marcus decidiu acompanhar o amigo.

Ele disse se lembrar de o carro sair devagar da vaga e, em seguida, acelerar. Após a colisão, disse lembrar de estar caído no chão, com dores e dificuldade para respirar.

Marcus sofreu fraturas em quatro costelas e precisou passar por uma cirurgia para a retirada do baço. A namorada do passageiro

Juliana Toledo Simões, que namorava Marcus na época, prestou depoimento por videoconferência, dos Estados Unidos, e corroborou o relato do ex-companheiro. Segundo ela, o grupo de amigos, que se conhecia desde o ensino médio, saiu na véspera do feriado de Páscoa.

Todos teriam consumido bebida alcoólica na primeira parada, um restaurante. Na casa de pôquer, o segunda parada da noite, Juliana disse que se afastou de Sastre e Marcus e ficou com Giovanna.

Em determinado momento, afirmou ter visto o empresário sair do banheiro cambaleando. Foi quando decidiram encerrar a noite.

Eles foram em carros separados, com ela e Giovana seguindo Sastre e Marcus. Após a colisão, sua primeira preocupação foi socorrer o namorado.

Dias depois, encontrou na galeria do celular um vídeo de Sastre entrando no Porsche aparentemente alcoolizado e encaminhou as imagens ao Ministério Público. Juliana também relatou que o grupo de amigos se afastou dela e que outras pessoas do círculo de amizades criticaram sua decisão de colaborar com a investigação.

— Desde que fui expor as verdades, os fatos, tudo mudou. Eu não poderia esconder a verdade, em sã consciência.

Eu não ficaria tranquila — disse. Segundo ela, um grupo de amigos chegou a visitá-la algum tempo depois e a chamou de Judas por ter divulgado o vídeo.

O filho da vítima Lucas, filho de Ornaldo, narrou ao júri como soube da morte do pai e as consequências da perda para a família.

— Era um domingo ensolardo, e estava todo mundo chorando — afirmou. Ele disse que a morte do pai teve impacto financeiro sobre a família e o deixou receoso de continuar trabalhando como motorista de aplicativo, atividade que também exercia, para não preocupar a mãe.

Questionado sobre o resultado que espera do julgamento, pediu uma pena proporcional à gravidade do caso. — Quero uma pena que corresponda à magnitude do que aconteceu.

Uma pessoa não pode fazer o que ele fez e ir para casa dormir como se nada tivesse acontecido, isso não existe — afirmou. — Eu não consigo fazer o papel do meu pai.

Eu sou filho — contou Lucas sobre assumir as responsabilidades da casa como filho mais velho. — Quando a médica falou que infelizmente meu pai tinha morrido, passou um filme na minha cabeça de tudo que eu queria fazer com ele, de tudo que quero fazer um dia com um filho, que ele não vai conhecer — completou.

Socorristas e testemunhas O júri também ouviu os bombeiros Matheus Tavora e Fernando de Moura, que participaram do atendimento às vítimas, além das testemunhas Arthur Henrique Maia e Natália Santanna, que estavam nas proximidades no momento do acidente.

Os bombeiros relataram que Sastre apresentava sinais que associaram à embriaguez, como voz pastosa e confusão. Arthur destacou a preocupação do empresário com Marcus, que estava ferido no banco do passageiro.

Natália, por sua vez, afirmou que tentou ajudar Sastre, mas foi hostilizada por ele. — Ele me mandou sair e calar a boca — relatou.

Natália também afirmou que, naquele momento, a preocupação do grupo era deixar o local do acidente. Giovanna chegou ao fórum no fim da tarde, mas a defesa desistiu de ouvi-la.

Durante o depoimento de Natália, ela permaneceu na plateia e fez gestos negativos e expressões que motivaram um pedido para que deixasse o plenário. Em depoimentos anteriores, Giovanna negou que o empresário tivesse consumido bebida alcoólica antes de dirigir.

A mãe A última a depor no primeiro dia do júri foi Daniela Andrade, mãe de Fernando.

Ela contou que soube do acidente naquela madrugada e foi ao local com um tio do empresário. Imagens de câmeras corporais mostram Daniela pedindo aos policiais que liberassem o filho para que ela pudesse levá-lo ao hospital.

— Pode ter acontecido algo grave, cada segundo conta — argumentou no dia do acidente. Segundo Daniela, ela combinou com um policial que levaria Fernando ao Hospital São Luiz para fazer uma tomografia.

Antes, porém, decidiu passar em casa para que os dois tomassem banho e trocassem de roupa. Ela afirmou que tomou um medicamento para se acalmar e, como ficou dopada, não teve condições de dirigir.

Também disse ter tentado ligar duas vezes para o policial, sem conseguir avisá-lo da mudança de planos. Daniela afirmou que acordou no dia seguinte com a sensação de que tudo havia sido um pesadelo e encontrou dezenas de mensagens com ameaças.

Por medo, decidiu não sair de casa e levou o filho para fazer exames apenas uma semana depois. — Entre o medo de meu filho estar machucado e o medo de sair e ser morta com ele, eu não saí — afirmou.

Ela também negou que Fernando participasse de rachas. Sobre uma ocorrência de 2019, quando ele foi multado por essa prática, disse que o episódio envolveu apenas barulho provocado pelos carros dele e de outra pessoa na Avenida Paulista, sem que houvesse uma corrida.

Daniela afirmou ainda que advogados analisam as condições do Porsche e levantam a hipótese de que o veículo já apresentasse defeitos. O Ministério Público, porém, aponta que, segundo a montadora, os problemas identificados não comprometiam a dirigibilidade do carro.

— Me parece muito estranho uma empresa como a Porsche dizer isso. É como dizer que um avião tem problemas na asa, mas pode voar — afirmou.

A defesa Na chegada ao fórum, o advogado Jonas Marzagão, que representa Sastre, afirmou que pretende convencer os jurados de que o caso não configura homicídio doloso, quando há intenção de matar ou assunção do risco de provocar a morte.

A estratégia é buscar a desclassificação para homicídio culposo, atribuído a imprudência, negligência ou imperícia. — A comanda mostra oito drinques, quatro pessoas — afirmou Marzagão, ao contestar a interpretação de que o registro de consumo comprovaria a quantidade de álcool atribuída ao empresário.

Segundo a conta apresentada pelo advogado, três pessoas do grupo teriam consumido dois drinques cada, o que deixaria, no máximo, dois para Sastre. A defesa também contesta a tese de que o empresário estivesse embriagado e sustenta que o acidente decorreu de imprudência, sem que ele tivesse assumido o risco de matar.

O Ministério Público de São Paulo sustenta que Sastre assumiu o risco de provocar a morte de Ornaldo ao dirigir em alta velocidade depois de consumir bebida alcoólica. Laudo pericial apontou que o Porsche trafegava a cerca de 156 km/h em um trecho da Avenida Salim Farah Maluf, no Tatuapé, onde o limite de velocidade era de 50 km/h.

O julgamento deve continuar nesta quinta-feira (29), com a oitiva das testemunhas restantes e o interrogatório do réu, antes da decisão dos jurados.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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