Júri da Bienal de Veneza renuncia a menos de dez dias para abertura da mostra

 

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O júri responsável pelos prêmios da Bienal de Veneza deste ano renunciou na quinta-feira (30) — apenas nove dias antes da abertura do evento — após uma controvérsia sobre sua decisão de excluir artistas de países acusados de crimes contra a humanidade da possibilidade de receber prêmios. A Bienal de Veneza será aberta no dia 9 de maio e se estenderá até 22 de novembro.

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Em uma breve declaração publicada no site de arte e-flux, o júri, composto por cinco pessoas, afirmou simplesmente que havia renunciado “em reconhecimento” ao anúncio feito em 23 de abril de que não concederia prêmios a artistas de países cujos líderes estivessem sendo investigados pelo Tribunal Penal Internacional.

O júri não mencionou nenhum país nominalmente em nenhum dos anúncios, mas o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, sob acusações de crimes de guerra pelas ações de Israel em Gaza.

O tribunal também emitiu um mandado de prisão contra o presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, por acusações de crimes de guerra na Ucrânia, mas a controvérsia em torno da proibição se concentrou principalmente em Israel.

No domingo, o Ministério das Relações Exteriores de Israel afirmou em uma declaração na rede X que excluir artistas israelenses havia “transformado a Bienal de um espaço artístico aberto de ideias livres e sem limites em um espetáculo de falsa doutrinação política anti-Israel”.

Belu-Simion Fainaru, escultor que está representando Israel neste ano, disse no início da semana que havia consultado advogados sobre a proibição imposta pelo júri. Na quarta-feira, o ministro da Cultura da Itália telefonou para Fainaru para expressar seu apoio ao artista israelense, segundo um comunicado.

Os membros do júri não responderam imediatamente aos pedidos de comentário na quinta-feira, mas uma porta-voz da Bienal confirmou as renúncias em uma breve declaração.

Fainaru, de 66 anos, disse em entrevista que ficou satisfeito com a saída do júri. “A decisão deles me discriminava com base racial”, afirmou.

“Sou artista e tenho direitos iguais, e não posso ser julgado por pertencer a um país ou a uma raça”, acrescentou Fainaru. “Devo ser julgado apenas pela qualidade e pela mensagem da minha arte.”

Fainaru disse que a decisão inicial do júri lhe lembrou ações tomadas contra seu pai na Romênia durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, segundo ele, seu pai foi impedido de lecionar em uma universidade e depois enviado a um campo de trabalhos forçados por três anos.

“Eu não imaginava que a discriminação aconteceria comigo”, disse Fainaru.

A Bienal de Veneza, o evento mais importante do mundo da arte, consiste em uma grande exposição central e mais de cem mostras menores organizadas em pavilhões nacionais. O júri concede o prestigiado Leão de Ouro à melhor apresentação nacional e também reconhece alguns artistas da exposição principal.

O painel que renunciou era formado por cinco curadores: Solange Oliveira Farkas, do Brasil; Zoe Butt, da Austrália; Elvira Dyangani Ose, da Espanha; Marta Kuzma, dos Estados Unidos; e Giovanna Zapperi, da Itália. O grupo havia sido selecionado pela curadora da mostra principal da Bienal, a camaronesa Koyo Kouoh, que morreu no ano passado e cuja exposição está sendo realizada por seus assistentes.

A Bienal informou em um comunicado na noite de quinta-feira que, neste ano, permitirá que os visitantes votem no melhor pavilhão nacional e concederá prêmios a artistas da exposição principal. Os vencedores serão anunciados em 22 de novembro, último dia do evento.

Desde que o exército de Israel invadiu Gaza após o ataque liderado pelo Hamas em outubro de 2023, a presença de Israel na Bienal tem gerado controvérsia. Centenas de participantes assinaram petições pedindo que os organizadores excluam Israel. Na última edição, em 2024, a representante israelense Ruth Patir fechou sua exposição, afirmando que só a abriria quando houvesse “um acordo de cessar-fogo e libertação de reféns”.

A participação da Rússia também tem causado tensões.

Após lançar sua invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, os artistas e o curador que representariam a Rússia naquela edição desistiram. Desde então, o país não realizou apresentações. Neste ano, está previsto seu retorno com uma exposição que contará majoritariamente com artistas não russos e que ficará aberta apenas durante a semana de pré-estreia da Bienal, de 5 a 8 de maio.

Fainaru, que nasceu na Romênia durante o regime autoritário de Nicolae Ceausescu, já participou da Bienal uma vez, representando seu país natal na edição de 2019. Desde que se mudou para Israel nos anos 1970, tornou-se uma figura importante no cenário artístico local. No ano passado, recebeu o Prêmio Israel, a maior honraria cultural do país.

Para a Bienal de 2026, Fainaru disse que apresentará “Rosa do Nada”, uma instalação que incluirá um gotejador de água usado na irrigação de campos. A água se acumulará no chão, explicou, representando em parte a união de pessoas de diferentes comunidades.

“A arte deve ser um lugar para conversarmos uns com os outros”, disse ele, “não uma forma de excluir”.