Juliana Paes reestreia como rainha de bateria da Viradouro e reflete sobre etarismo: 'Achei que não tinha mais idade para isso'
Na segunda-feira de carnaval, dia 16, Juliana Paes retorna ao posto de rainha de bateria da Unidos do Viradouro, sua escola do coração. Mais madura, mais entregue e mais entusiasmada do que nunca, contará a história do amigo e mestre de bateria, protagonista do enredo “Pra cima, Ciça!”. “Quando ele me convidou, fiquei absolutamente chocada. Passei a noite sem dormir, pensando: ‘Não tenho mais idade para isso’”, diz a atriz de 46 anos, em entrevista de duas horas por chamada de vídeo. “Mas essa volta é pelo Ciça. Na minha cabeça, já estava completamente aposentada do carnaval.”
A história de Juliana com a folia — e com a Viradouro — é antiga, e se entrelaça aos primeiros passos dela como atriz. Aos 18, a quadra da escola, em Niterói, onde morava, era seu refúgio. “Vivia um período difícil, muito sozinha, porque meus pais tinham se separado. Lá, senti-me pertencente, acolhida”, conta. Estreou na novela “Laços de família” (2001) como a empregada Ritinha, e foi convidada a desfilar pela primeira vez em um carro alegórico. Três carnavais depois, no ar como a espevitada Jaqueline Joy, de “Celebridade”, vestiu a coroa de rainha de bateria pela primeira vez, mantendo-se no posto até 2008. Com o desejo de engravidar, despediu-se da Avenida, voltando apenas em 2018 e 2019, como a soberana dos ritmistas da Acadêmicos do Grande Rio, quando fez a novela “A dona do pedaço”.
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Bruna Castanheira
Mãe de Pedro, de 15 anos, e Antônio, de 12, do casamento de duas décadas com o empresário Carlos Eduardo Baptista, Juliana revela, a seguir, os desafios de criar dois adolescentes em um mundo 100% digital, como encara a passagem do tempo e as transformações no corpo, condena os jogos de apostas, na esteira de seu trabalho mais recente, a série “Os donos do jogo”, da Netflix, e diz porque decidiu falar sobre um abuso sexual sofrido na juventude.
Você volta como rainha de bateria aos 46. Como foi a decisão?
Essa volta é pelo Ciça. Mas eu me questionei: “Não tenho mais idade para isso, não sei mais sambar. Será que meu corpo ainda é sensual, dá conta?” São fantasmas que tem a ver com o etarismo.
Tem feito uma preparação especial?
Gosto e preciso de atividade física, treino de segunda a sexta. Mas agora intensifiquei porque tem a questão cardiovascular. Fico cansada, preciso negociar com a minha energia. Meu pulmão e meu coração vão fazer 47 anos (risos). Meus treinos envolvem musculação, pilates e muay thai. Também faço bioestimulação de colágeno e sessões com um aparelho de ultrassom para a quebra de gordura.
No ano passado, no Festival de Cannes, suas costas e braços definidos foram elogiados. São só resultado de treino e alimentação?
Faço suplementação com aminoácidos essenciais (que atuam na construção e recuperação muscular). Em 2015, usei um chip de testosterona por seis meses, mas tive acne, queda de cabelo, não me adaptei. Não sou contra o uso de hormônios, pelo contrário, eles podem ser muito importantes para as mulheres na perimenopausa e menopausa, mas essa decisão precisa ser tomada de um jeito consciente, com cuidado e orientação médica.
Como lida com a passagem do tempo?
Me despedindo da necessidade de estar perfeita. Num belo dia, envelhecemos. Um belo dia, um bigode chinês, uma ruga, uma mancha... Quanto mais amadurecemos, menos queremos negociar com esses sinais. Não dá para sempre recorrer à clínica de estética, porque vira uma loucura.
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Bruna Castanheira
Na última entrevista à ELA, você disse que por muito tempo evitou fazer terapia. Por quê?
Sempre achei que estava tudo bem, que era fortona e resolveria tudo sozinha. Trancava o choro e as minhas emoções. Comecei há seis anos, depois de ter crises de ansiedade. Estava emendando um trabalho no outro, sem tempo para estar com a família, e isso me desestabiliza muito.
Já declarou que é a sua pior “algoz” e tem dificuldade de se ver em cena. Isso melhorou?
Sim, mas ainda é um tema frequente na terapia. Em que lugar existe uma Juliana que acha que não pode parar e tudo tem que ser perfeito? Descobri que as pessoas que amamos também são fontes das nossas dores. Meu pai achava que eu tinha que agradar a todos e sempre dizer “sim”. Entender isso é doído, mas também libertador.
Seu pai, aliás, também teve certa influência na sua volta ao carnaval?
Meu pai (morto em 2024) sempre dava um jeito de me acompanhar na quadra da Viradouro, nos ensaios, no meio da concentração no Sambódromo. Olhava e ele estava de longe, dando tchauzinho. No último carnaval, um ano após a morte dele, estava só assistindo, e pensei: “Ele ia gostar de me ver desfilando de novo”. E aconteceu. A vida manda recados para a gente.
Quando começou na carreira, pouco se falava sobre assédio sexual. Aconteceu com você?
Dentro da Globo, não, mas na época de modelo vivi situações ruins. Nesse sentido, fazer a série “Pedaço de mim” (a personagem de Juliana sofre violência sexual na trama), da Netflix, foi algo intenso.
Vestido Apartamento 03, brincos e headpiece Eduardo Caires
Bruna Castanheira
Na época da série, lançada em 2024, revelou em entrevista que sofreu abuso na adolescência. Ajudou a expurgar o que aconteceu?
Enquanto fazia o projeto, minha imunidade baixou, adoeci e faltei a um dia de gravação. O corpo não entende se a dor no set é real ou ficcional. Mas foi, sim, um processo expurgatório. Decidi falar sobre isso porque hoje existe um terreno mais seguro e de maior acolhimento para as mulheres contarem suas histórias. Não conheço nenhuma que não tenha vivido alguma violência.
A série “Os donos do jogo”, lançada no ano passado, fala sobre o jogo do bicho. Hoje, essa prática deu espaço às bets e apostas on-line. Já foi sondada para fazer publicidade deles?
Muitas vezes, mas jamais faria. Porque é uma questão de saúde pública. Famílias estão se deteriorando e a internet é avassaladora: os jogos de azar estão ao alcance das mãos e você pode apostar o tempo todo. É um problema que a sociedade precisa ter mais atenção.
Como é ser mãe de dois adolescentes? Tenta dar uma educação feminista?
Pedro pediu para ter redes sociais privadas para interagir com os amigos. Deixei, mas monitoro. É um ambiente com mensagens truncadas, misóginas, patriarcais, algo contrário do que eu faço, que é tentar criar filhos feministas. Eles veem as notícias, sabem que existem mulheres morrendo por serem mulheres. Critico piadas, comentários, cenas de filmes. É um trabalho diário.
O que mantém a conexão entre você e o seu marido nesses 20 anos juntos?
Fazemos novos pactos. Existe uma resiliência e uma combinação de temperamentos que têm dado certo. Mas estou vivendo a perimenopausa, tenho umas névoas de memória, esqueço as coisas, e isso dá briga. A gente briga para caramba, mas conversamos sobre o que aconteceu. Estou doidinha para fazer terapia de casal, porque não é preciso uma crise para isso. Basta ter vontade, maturidade e desejo de estar junto. E eu tenho um companheiro disposto a escutar.
Já pensaram em abrir a relação?
Já falamos sobre isso em tom de piada (gargalha). E o final da história foi: “Vamos conversar mais pra frente?”. Os dois quiseram abafar o caso.
