Jovens do Complexo do Alemão, de Itaguaí e de Volta Redonda se destacam em projeto que valoriza a música clássica e tocam no Rio
Em 2026, a Academia Jovem Concertante (AJC), um dos maiores projetos gratuitos de qualificação de jovens artistas da música sinfônica, completa 15 anos de história com a sua 28ª edição. A AJC representa a única orquestra itinerante brasileira que atua profissionalizando músicos de norte a sul do país. Desta vez, foram selecionados 46 jovens, entre 18 e 29 anos, de 16 estados brasileiros. Os artistas, que na última semana se apresentaram em Minas Gerais e São Paulo, chegam nesta terça (26) ao Rio de Janeiro para o grande encerramento da turnê, às 19h, na Sala Cecília Meireles, com ingressos a R$ 20 (no site Sympla).
A iniciativa é uma das principais portas de entrada para jovens de diversas realidades na música clássica.
De Volta Redonda para os grandes palcos
O violista Pedro Moraes, de 23 anos, começou a estudar música quando, aos 9 anos, ingressou no projeto educacional "Volta Redonda Cidade da Música" na sua cidade natal, Volta Redonda. Ele conta que sua mãe, Girlane Moraes, que trabalha como empregada doméstica e é mãe solo, é quem mais o incentiva a seguir sua vocação.
— Minha família não é uma família de músicos. No início, foi um susto pra eles. Mas hoje em dia, minha mãe é a minha maior incentivadora — conta Pedro, que enfatiza: — Ao longo da minha formação (em música na UNIRIO), eu comecei a tocar também em algumas orquestras profissionais do Rio, como a Orquestra do Theatro Municipal, entre outras. Com isso dei a oportunidade da minha família passar a frequentar esses espaços também. Antes, era uma realidade muito distante.
Pedro Moraes, de 23 anos
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O musicista, que acaba de concluir a graduação, acredita ter sido o primeiro da sua família a se formar no ensino superior e conta que isso foi motivo de inspiração até para a mãe a retomar os estudos.
— Minha mãe não tinha o ensino fundamental completo. Quando eu já estava na faculdade, ela pegou e falou comigo que iria voltar a estudar para poder me ajudar. Eu sempre digo e repito que ela correu muito para que eu pudesse andar. Ela criou um caminho para que agora eu possa percorrer o meu.
Com o apoio da AJC, mais de mil jovens artistas têm a oportunidade de se apresentar em grandes palcos, experiência fundamental para que passem a integrar orquestras nacionais e até mesmo internacionais.
Concertos na Europa
É o caso da trombonista Rafaela Xavier, de 20 anos. A sua relação com a música começou na Igreja em Itaguaí, onde nasceu e mora até hoje. Mas, com a Orquestra Chiquinha Gonzaga, Rafaela já saiu em turnê pela Europa, se apresentando em conservatórios renomados, como o de Zurique.
— Poder vivenciar novas experiências, conhecer novos lugares e profissionais da música que antes você só acompanhava pela internet e, de repente, você consegue tocar lado a lado, eu acho incrível.
Rafaela Xavier, de 20 anos.
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Rafaela é filha de uma técnica de enfermagem e começou na música aos 13 anos, quando um tio introduziu o aprendizado do violão na sua vida. Mais tarde, com 15, ela foi apresentada ao seu instrumento de paixão, o trombone. Para ela, a música é um agente de mudança, tanto em sua vida quanto na dos que estão à sua volta.
— Entrar nessa vida é desviar de um caminho errado, sabe? Traz oportunidades que nem sempre são possíveis pelas condições financeiras das pessoas — justifica ela, detalhando: — A música mudou minha vida pelo fato de eu não me sentir desamparada e poder ajudar quem está ao meu redor. Ela muda, de certa forma, a nossa realidade.
Atualmente, Rafaela estuda com a banda municipal de Itaguaí para prestar o Teste de Habilidade Específica, já que sonha cursar faculdade de música.
Já o violinista Gabriel Paixão, de 24 anos, nascido no Complexo do Alemão, viu esse sonho se concretizar. Hoje, ele é estudante de música na UNIRIO, mas, foi quando tinha apenas 10 anos que começou como aluno na Ação Social Pela Música do Brasil, projeto social de ensino da música clássica. Foi a partir do contato com a instituição que o interesse pelas grandes orquestras surgiu.
— Eu era uma criança muito sonhadora, então eu sonhava subir ao palco do Theatro Municipal, da Sala Cecília Meirelles. E tinha uma curiosidade de conhecer como é que são as orquestras, como era uma apresentação de orquestra.
Gabriel Paixão, de 24 anos
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Para Gabriel, o violino foi amor à primeira vista. Ele chegou a tentar tocar viola para ficar perto do irmão, Natanael Paixão, que é violista e estudante no conservatório de música de Toulouse, na França, mas realmente se apaixonou pelo violino. Gabriel, que quando tinha 12 anos chegou a tocar na rua com o irmão, relata também uma série de obstáculos que enfrentou para seguir a carreira de músico.
— Com o tempo eu comecei a ver que o violino é um instrumento caro de se manter e é muito difícil você se inserir no mercado de trabalho quando você vem de uma favela. Sem contar também que minha família é de baixa renda. Como é que eles poderiam me apoiar financeiramente? Então, eu comecei a repensar a partir disso, sabe? Mas ao mesmo tempo, eu sou apaixonado pela minha profissão. Para mim, tocar violino é o que mais faz sentido na minha vida. É o que eu amo de paixão. Então, eu não conseguia mais me enxergar sem ser músico.
No momento, o carioca faz parte da Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro, tocando com frequência nas maiores salas da cidade.
Papel do projeto é fundamental na descoberta de talentos
A história desses três jovens do estado do Rio demonstra o esforço da idealizadora do projeto, a pianista Simone Leitão, em preencher uma lacuna que existe entre a formação clássica e a profissão de músico de orquestra. Leitão, além de renomada pianista, é hoje uma das maiores empreendedoras da música clássica do país e segue abrindo portas para novos músicos através do projeto gratuito, que funciona como um laboratório de treinamento de alta performance da música sinfônica, lapidando o talento destes jovens.
— Uma pessoa nasce em Minas, por exemplo, e estuda música, estuda violino. Mas na cidade dela, mesmo às vezes no estado, não tem uma orquestra jovem para prepará-la para fazer uma prova e entrar como músico profissional em alguma orquestra. Para isso, a pessoa tem que ter prática de orquestra. Vários dos músicos que passaram por nós depois fizeram prova para a orquestra profissional e passaram em posições excelentes. E essa é uma lacuna que a gente preenche.
Jovens da AJC no palco com a pianista Simone Leitão
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Pela primeira vez, a AJC está com um projeto de incubadora em Araxá, interior de Minas. Leitão explica que a ideia é acompanhar essas crianças desde a base do aprendizado musical.
— Estamos começando na base do aprendizado com 15 crianças. Então, jovens que são da própria AJC estão sendo instrutores, ganhando um salário para poder dar aulas para essas crianças.
Paralelamente, o grupo também realiza os “Concertos didáticos”, que são apresentações exclusivas para alunos das redes públicas de educação com o objetivo de mostrar aos jovens da periferia e do interior como a música sinfônica pode ser apaixonante.
Para Leitão, o desafio do projeto é sempre o mesmo: captar mais recursos. Mas isso não desanima a pianista a buscar jovens obstinados.
— A gente busca nesses jovens uma vontade de trabalhar profícuamente, de ensaiar bastante, de se aprofundar no repertório --- destaca ela: --- A gente mostra o quanto a juventude brasileira é talentosa. O talento não tem CEP. Então, acho que quando a gente percebe que o Brasil não é só uma potência da música popular, mas que também é de uma potência da música sinfônica, isso traz um um orgulho nacional, sabe? Acho que o projeto levanta isso por onde a gente passa.
